Sociedade

Tudo é relatividade

Já todos conhecem a história de Newton: uma maçã caiu-lhe em cima da cabeça e a partir daí o sábio britânico concebeu toda uma teoria da gravidade. Cerca de 200 anos mais tarde, um físico de formação, aparentemente apagadote, já tinha publicado um artigo científico que começava a romper com os cânones da física até então.

Albert Einstein passava mais um dia enfadonho num gabinete de patentes na terra dos Alpes, dos relógios e dos queijinhos furados quando lhe ocorreu uma epifania DR

Alemão de origem e suíço (e mais tarde, norte-americano) de cidadania, Albert Einstein passava mais um dia enfadonho num gabinete de patentes na terra dos Alpes, dos relógios e dos queijinhos furados quando lhe ocorreu uma epifania. Se caísse, ele próprio, em movimento acelerado, não sentiria o seu próprio peso porque a cadeira que ocupava no escritório cairia com ele. Mesmo caindo, ele estaria parado relativamente à cadeira.

Esta ideia levou-o a integrar todos os conceitos de um artigo que havia publicado dez anos antes, em 1905. Nesse texto, Einstein ligava os conceitos de matéria e energia e de espaço e de tempo. Mas agora, desde pelo menos 1907 que, através do desenvolvimento de múltiplas equações complexas, conseguia demonstrar que estes conceitos não existem em separado.

A 25 de novembro de 1915 - a tal data redonda que nos ocupa - apresentou os dados a publicação. Agora falávamos de matéria-energia que deforma o espaço-tempo. “A relatividade geral é pura e simplesmente uma relação que existe entre a geometria do espaço, as massas e os movimentos dos corpos”, explica João Seixas, físico português que coordena uma equipa de investigação do CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, na Suíça, que partilhou recentemente com outro grupo a ‘observação’ do célebre bosão de Higgs.

Estavam lançados os dados da Teoria da Relatividade Geral, que guindavam o pacato funcionário para a ribalta científica e para o estatuto de superstar, talvez a primeira do firmamento de cientistas. Seguia-se uma revolução na física que, como escreveu no diário Público Carlos Fiolhais, professor da disciplina na Universidade de Coimbra, podia explicar tudo, “descrevendo não só a queda de uma maçã e a órbita da Lua mas também os buracos negros e o Big Bang”. Mas não só: fundamental é também o comportamento da luz, essa entidade misteriosa que o sábio conseguiu desvendar, abrindo caminho a um gigantesco upgrade de conhecimento que se reflete hoje na tecnologia que usamos no quotidiano, sem pensar muito de onde veio (ver caixas).

Mas é claro, continua Seixas, que a relação encontrada por Einstein não foi fácil de alcançar. O tal caminho de dez anos entre a Teoria da Relatividade Restrita e a geral serviu para maturar e depurar as chamadas equações de campo. A explicação deste turbilhão de conceitos, que geralmente pensamos em separado, também não é nada fácil de dar.

Poucos anos mais tarde em relação à data da epifania de Einstein, um famoso físico britânico, Arthur Eddington, rumava à ilha do Príncipe para testar, através da observação de um eclipse total do sol, a Teoria da Relatividade. “Uma das previsões de Einstein era, precisamente, que a luz que vem das estrelas se encurva ao passar a vizinhança de um corpo muito pesado como o sol. É o que Eddington descobre”, esclarece João Seixas, através da observação do eclipse na então colónia portuguesa. “Hoje usamos a técnica corriqueiramente quando fazemos as observações do universo, chama-se lensing, que é precisamente a alteração das imagens de corpos celestes pela ação de corpos muito massivos que estão à sua frente”. Ou seja, “podemos hoje observar a luz emitida por um objeto que esteja ‘escondido’ por outro muito massivo. Para chegar ao seu destino a luz vai ‘contornar’ o objecto massivo seguindo a geometria do espaço-tempo que ele impõe e que deflete a luz na sua vizinhança”.

A Teoria da Relatividade mudou, evidentemente, a nossa própria perceção do universo. Nem que seja para constatar que não sabemos quase nada do que rodeia o nosso pedregulho azul e para lá, muito para lá, das fronteiras do nosso sistema. “Hoje em dia sabemos que a esmagadora maioria da massa que temos no universo não é visível, ou sob a forma daquilo a que chamam matéria escura, ou sob a forma de energia escura”, ou seja, e explicado de modo muito simples, trata-se de objetos que não conseguimos ver através das nossas tecnologias de observação, mas que sabemos que lá estão porque interagem graviticamente com outros objetos. Não sabemos o que são nem o que os faz interagir.

Daí que, em vez de encerrar um capítulo na física, a Teoria da Relatividade tenha escancarado a porta a vários fenómenos sem resposta, quase pondo a zeros o contador científico para os especialistas do século XXI. Não só Einstein, mas outros físicos de extraordinárias capacidades, como o dinamarquês Niels Bohr (1885-1962), ou os alemães Max Planck (1858-1947) e Werner Heisenberg (1901-1976), entre muitos outros, traçaram o caminho. Algumas das descobertas teorizadas no início do século XX eram de uma complexidade tal que só agora estão a ser testadas no CERN. O caminho faz-se caminhando, dizia o poeta, e só agora parece ter começado.

ricardo.nabais@sol.pt