Cultura

A 'voz recalcitrante' de Natália

   

São diários, crónicas e inéditos de Natália Correia que evocam os tempos conturbados do PREC. Regressamos a novembro de 1975 com a pré-publicação de Não Percas a Rosa/ Ó Liberdade, Brancura do Relâmpago, lançado terça-feira no Botequim, o bar fundado pela poetisa, ensaísta e deputada

A revolta contra o Pai [24 de Novembro de 1975]

Tem-se contornado de especulações freudianas o extravagante comportamento revolucionário de certos militares responsáveis no processo.

Procura-se, por exemplo, resolver numa focagem psicanalítica o machelismo e o cabralismo que inspiram as concepções e práticas desses militares,atribuindo-se essa identificação a um sentimento de culpa colonialista que nela se redime. É uma explicação atraente, porém parcelar. A questão que mormente constitui uma singularidade preocupante desta revolução, ou seja, a pulverização da disciplina intrínseca ao corpo militar, não é abrangida por essa abordagem psicanalítica, que, de resto, consideramos simplista.

Mais próximos da verdade estaremos se admitirmos que a imitação de Macheis e Amílcares não deriva de um complexo de culpa, mas de penetrações doutrinantes no seio das tropas portuguesas que combatiam no Ultramar, doutrinação essa que, justamente valorizando a razão dos movimentos libertadores, revestia de exemplaridade revolucionária os seus chefes. Já o problema, mais vasto e crucial, da desintegração da disciplina militar se coloca numa perspectiva que não é aberta pela psicanálise, mas por uma nova ciência proposta e sistematizada por Gérard Mendel no seu livro La Révolte contre le Père: a sociopsicanálise.

A esta luz, que põe em evidência a dialética do histórico e do inconsciente, relacionando as modificações sociais com as imagens interiorizadas da Mãe e do Pai, ganha relevo a real motivação do desmantelamento da regra que articula a instituição militar.

Se recuarmos à situação que desencadeia o 25 de Abril, reconhecemos que o período caetanista corresponde à frouxidão do paternalismo salazarista, cujo rigor se reflecte na rigidez da hierarquia militar. A deterioração da severidade fascista, somada à sua impotência para dar solução a uma guerra que extenuava os militares, estimulou a preparação e tornou possível o êxito do golpe que, em 25 de Abril, vem outorgar aos militares a gestão do prosseguimento revolucionário. Por outras palavras, a degradação do paternalismo que sustentou a máquina fascista, cujo funcionamento não era possível sem a obediência filial da organização militar, induz esta à revolta, que avança triunfalmente sobre os destroços do autoritarismo fascista.

A título de uma democraticidade romântica, devidamente aproveitada pelos revolucionários especializados em auferir proveito da desordem nos quartéis através de oportunas infiltrações, os novos chefes rasgaram a velha norma paternalista, substituindo-a por estruturas participativas onde a sua voz era cada vez mais fraca e cada vez mais forte se tornava a voz dos que festejavam a quebra da sua subordinação. Tão envolvidos foram os chefes no processo que desencadearam que os mais ávidos de prestígio pensaram adquiri-lo assumindo, em jeito de a capitanear, a efervescência insurreccional desprendida pelo  desmoronar da regra. Otelo é o exemplo inevitável e mais espectacular deste enrolar-se na vaga para não ser cuspido por ela.

Contudo, fazendo da vaga revoltosa o seu trampolim para a miragem de um caudilhismo de banda desenhada, estes chefes estonteados pela euforia insurreccional dirigem-se para o apeadeiro onde serão despejados pelo fluxo que os arrasta.

Neste ponto, a sociopsicanálise adverte-nos do seguinte: a privação da autoridade paterna, ferindo a idiossincrasia obediente dos militares, lança- os na revolta contra o Pai que os abandonou. A rebeldia torna-se então infantilmente histriónica. Isto é, procura provocar a aparição do Pai que reagrupe as forças militares na ordem, que as reponha na sua natureza obediente.

Não serão certamente Otelos e quejandos que, expoentizando em lances de revolta teatrais o chamamento da autoridade paterna, a poderão encarnar. A relação hierárquica destroçada reclama, para reconstituir-se, um protagonista vigoroso da ordem paternalista. Adensa-se aqui uma sombra.

O exagero na insubordinação procura inconscientemente ser refreado pelo exagero na autoridade. A suprema, arrogante e quiçá despótica prerrogativa de decidir por aqueles que sobejamente demonstraram, na embriaguez com que esfrangalharam esta revolução, não saberem decidir por si mesmos.

A fidedigna conclusão desta triste perspectiva aponta ao surgimento de um chefe de fisionomia autocrática. Nas vascas da situação limite para que nos empurrou o infantilismo dos militares exasperados pela privação do Pai, esse chefe ameaça configurar um paternalismo ditatorial das esquerdas?

É pouco provável. O esquerdismo, incluindo o PCP, que neste se envolveu na consumação da desordem, nela aniquilou a possibilidade de ser ele a instaurar a instância autoritária que muito ajudou a convocar. O indicativo é sombrio: aproximamo-nos daquele ponto agónico em que as direitas têm à mão a grande e detestável competência para castigar os filhosrebeldes, submetendo-os à sua brutal decisão de fazer entrar isto na ordem.


25 de Novembro de 1975

Finalmente! Cessa o rodar de suspeita em suspeita, de ansiedade em ansiedade. Tremendamente certa, a soma das parcelas juntadas há três dias em Cascais. Antes assim. Estávamos fartos de granadas-fantasma a rebentar- nos dentro do crânio.

É, por enquanto, inapreensível a dimensão do rebentar do fogo. Mas o que já se sabe torna inequívoco que o País está à beira de servir o sangue a uma guerra civil.

Os “páras” insurrectos que, em Tancos, levaram os oficiais moderados a abandonar a unidade num acto de protesto contra a subversão da hierarquia destituíram o chefe do seu Estado-Maior. Tancos, Monte Real, a Ota e Montijo, assaltadas durante a noite, estão dominadas pelo braço armado do poder popular.

O acelerador imediato deste ciclone, que a meteorologia revolucionária tornava previsível desde há meses, foi o rompimento das núpcias de Pílades e Orestes. Vasco Lourenço acaba de ser nomeado comandante da Região Militar de Lisboa, apeando com o coração desfeito o parasita da sua afeição.

Otelo reúne-se com a rapaziada que lhe desfralda a paranóia em estandarte do Exército Vermelho. O RALIS, onde há dias, sob a asa narcotizada de Fabião, o juramento de bandeira de punho fechado teve um cunho horripilantemente nazi, pintalgado de comunista pela saudação de uma operária aos “camaradas soldados”, põe à porta do quartel o seu aparato bélico. Elementos do COPCON ocupam a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português. A EPAM apossa-se dos estúdios da RTP. No écran, surge o emblema do poder popular enfeitando as bravatas de um vaqueiro do western populista - o capitão Duran Clemente. Mas este discurso da coroa da ditadura dos sovietes almadenses é ridiculamente tapado pelas facécias de Danny Kaye que a técnica do Porto, cioso das tripas burguesas, atira às atónitas trombas do arauto da comuna vitoriosa.

Uma sucessão de golpes quase diários abria as portas da cidade a esta apoteose da bebedeira revolucionária. Manifestações tumultuosas do PCP e da FUR, sua cria amestrada. Uma chuva de manifestos dos oficiais extremistasMilitar Unida, na qual o “Grupo dos Nove” é uma peça destacada de entre centenas de oficiais, acelera as suas reuniões clandestinas. Conferências de imprensa da CODICE da extinta ex-5.ª Divisão, nas quais este testículo militar do PCP decla-ra pendurar-se na virilha do COPCON, que reconhece como único corpo militar revolucionário. Consentaneamente, Otelo esbraveja na televisão contra o VI Governo, vetando publicamente a nomeação de Vasco Lourenço. Por largas horas, o País dividido ao meio. Corta-o o levantamento de pequenos e médios agricultores concentrados em Rio Maior. Por trás das barricadas que interceptam os acessos a Lisboa, desenha-se a estratégia de Jaime Neves, que, com os seus “comandos”, vela pela muralha erguida por pequenos agrários e milhares de trabalhadores rurais na terra em que a resposta à incontinência comunista tem a linguagem da moca.

Na trincheira de Rio Maior esboça-se, porventura, a secessão proposta pelo Norte liberal, cujos padrões conservadores se arrepiam com os ventos comunizantes soprados pela macrocefalia lisboeta. De facto, esse esquisso da divisão do País em dois corresponde a um esquema de que tomei conhecimento na reunião de Cascais: no caso de se perder Lisboa e de resultar infrutífera a “selagem” da cintura da cidade por Cascais e Sintra, recuar para o paralelo entre Mafra e Santarém, para onde avançarão tropas vindas do Norte. Este projecto implica naturalmente a transferência do Governo e da Presidência da República para o Porto.

Bombas e petardos rebentam em vários pontos do País. Festeja-se o último vómito da revolução, condenada a esvair-se quer os seus coveiros sejam o totalitarismo virado a Leste ou o reformismo ocidentalista, que nesta hora se enfrentam.

O telefone retine insistentemente. São amigos do Porto e de Coimbra.

Pedem-me que saia de Lisboa. Tu queres levar-me e juras que o teu amor agachará os monstros para eu fugir à catástrofe. Não compreendes que, se para ti sou uma íbis de rosas espalhadas no lençol, há uma que não podes esmagar. Essa está prometida ao Inomeável. É sua a vontade que deixa cair a hora que abana a treva. Não posso negar-me à obrigação restrita de a sacudir até que os seus recessos mais imundos soltem a vaga de apavorados percevejos. Acredito na magnificência desse repugnante espectáculo.

Depois fecharemos as portas do inferno.

Fico.

O Presidente da República acaba de decretar o estado de emergência na capital.