Internacional

O Reino que desune a Europa

David Cameron prometera realizar um conselho de ministros ontem à noite, para agendar o referendo à filiação europeia do Reino Unido depois de alcançada a renegociação do estatuto com os restantes líderes europeus. Mas o acordo não chegou a tempo útil e a discussão prolongou-se noite dentro. Se a tradição reinou e o acordo foi alcançado de madrugada, o Reino Unido terá hoje o primeiro conselho ministros realizado a um sábado desde 3 de abril de 1982, dia em que Margaret Thatcher se viu obrigada a responder à invasão argentina das ilhas Malvinas.

O anúncio do acordo estava agendado para a manhã de ontem, mas o «pequeno-almoço britânico» foi cancelado depois de os 28 líderes europeus terem terminado a reunião de quinta-feira às 5h30 da madrugada. Marcou-se então uma sessão para as 11h45, com um almoço de trabalho às 13h30. Daí apenas saiu que o Conselho Europeu incluiria também jantar, pois vários obstáculos permaneciam no caminho.

O francês François Hollande dizia que Londres «não pode pedir um estatuto especial» para o centro financeiro da City de Londres e que a «Grã-Bretanha não pode ter direito de veto sobre o que se faz na Zona Euro». O secretário checo para os Assuntos Europeus, Tomas Prouza, dizia-se «cada vez mais perplexo com a abordagem não negociadora do Reino Unido». O grego Alexis Tsipras ameaçava boicotar qualquer conclusão sobre o ‘Brexit’ se os parceiros europeus não se comprometessem a não fechar qualquer fronteira, de forma a não agravar a crise de refugiados no país.

Os líderes davam sinais de distanciamento e não da aproximação prometida pelos principais responsáveis das instituições – o líder da Comissão, Jean-Claude Juncker, afirmara durante a semana não haver plano B, porque o «plano A inclui o Reino Unido como membro ativo e construtivo da UE». Sem acordo a 28, apostou-se nas reuniões bilaterais. Cameron passou a tarde em conversas individuais com o italiano Matteo Renzi, o presidente francês e o polaco que lidera o Conselho Europeu, Donald Tusk.

Cameron perde aliado interno

O único bom sinal que chegava de Bruxelas era o contínuo arrastar das negociações – um indício de que apesar das assumidas diferenças ainda havia esperança num acordo. Pelo contrário, de Londres chegava uma péssima notícia para o primeiro-ministro britânico, que sempre disse procurar um acordo de forma a defender a continuidade europeia do Reino Unido após o referendo.

Michael Gove, um dos principais aliados de Cameron no Partido Conservador e atual ministro da Justiça, anunciou que irá fazer campanha pela saída da UE. Uma notícia que foi recebida com uma leitura unânime: em Londres há cada vez menos esperanças num acordo e principalmente num bom acordo.

E se Gove desistiu, todos esperam agora que o próximo a anunciar a defesa da rutura com a Europa será Boris Johnson, o atual autarca de Londres que é tido como sucessor de Cameron como líder conservador. Boris foi recebido pelo PM na véspera do Conselho Europeu, numa tentativa de Cameron de chamar para o lado do Sim o seu principal rival interno. Mas o autarca repetiu que só tomará uma decisão depois de conhecer o acordo e deixou no ar que este estaria longe de ser alcançado.

nuno.e.lima@sol.pt