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Romeu e Julieta, segundo Rui Horta

As salas parecem maiores quando estão vazias. Sentimo-nos mais pequenos, vemos o que não vemos na confusão. É esse o encanto do ensaio. É a arte do pormenor. Não há ruído de imagem, nada distrai. No palco do Teatro Camões os corpos dessincronizados ensaiam movimentos perdidos. Pedaços de um todo que ainda não o são. Não naquele momento, pelo menos. Há um burburinho tão impercetível quanto incomodativo. Rui Horta deambula pela boca de cena, observa, analisa, pede aos bailarinos que se aproximem. Nunca levanta a voz. Quer ensaiar os agradecimentos, que em palco até o dizer obrigado é ensaiado. Deseja um bom espetáculo e desaparece.

A luz vai desmaiando, o silêncio instala-se. Sepulcral. Assustador. Imponente. Sobra apenas um fio de luz e som proveniente da régie que durante os ensaios assenta arraias a meio da plateia. “Silêncio, por favor”.

Foi há cerca de um ano que, na cabeça de Rui Horta, bailarino, coreógrafo, se começaram a montar as peças de “Romeu e Julieta”, após o convite lançado por Luísa Taveira, diretora da Companhia Nacional de Bailado (CNB), e por Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional Dona Maria II. Ele, que nunca sonhou, nunca sequer desejou, fazer um clássico, tinha em mãos uma missão hercúlea: não apenas reinterpretar um dos grandes clássicos do ballet, mas fazê-lo com a CNB, companhia com a qual já tinha trabalhado mas nunca a esta escala.

Uma coisa já era certa: Rui Horta, que em 2000 criou em Montemor-o-Novo, o Espaço do Tempo, centro multidisciplinar de experimentação artística, não é, nunca foi, um artista do óbvio. E portanto o seu “Romeu e Julieta” seria sempre um clássico não clássico. Seria antes uma obra onde a música - “excelente” - de Serguei Prokofiev, daria lugar a outro olhar musical, agora dirigido por Bruno Pernadas. E seria também uma obra “transdisciplinar” onde dança e palavra teriam igual peso e onde Shakespeare seria efetivamente omnipresente. E seria tanto uma peça sobre o amor como sobre o ódio. “Esta é uma obra em relação_à qual, ao longo das gerações, se criou uma imagem hiper romantizada que não é fiel à obra. A obra tem também um lado muito violento. Há um pano de fundo de luta e tensão constante. Em três dias, que é o tempo em que decorre a peça, morrem seis pessoas, entre as quais dois adolescentes que se suicidam. A poética que rege esta obra é a impossibilidade do amor. E o ódio e o amor andam sempre juntos”, explica Rui Horta, coreógrafo que assina o “Romeu e Julieta”, com bailarinos da CNB e os atores Pedro Gil e Carla Galvão, que estreou ontem, 29 de abril, no Teatro Camões, onde ficará até 15 de maio, seguindo depois para o Teatro Nacional D. Maria II, de 14 a 23 de julho, no âmbito do “Glorioso Verão/Festival Shakespeare”, organizado no ano em que se assinalam os 400 anos da morte do dramaturgo.

Regressamos ao ensaio, o primeiro corrido e com algum (pouco) público externo à organização. Antes, toda a equipa tinha descansado quatro dias. á estava tudo pronto. “Agora temos este ensaio e outro amanhã”, explica o coreógrafo, que durante os anos 1990 dirigiu o Soap Dance Theatre

Frankfurt, na Alemanha, país que recentemente classificou a sua criação coreográfica como Herança da Dança Alemã.

No escuro, o caderno de Rui Horta, capa de papel craft, já está a postos. É ali que anota tudo o que vê nestes últimos ensaios que antecedem a estreia. Mundial, neste caso, uma vez que nunca este olhar sobre o clássico de Prokofiev havia sido apresentado. No escuro, parece conseguir ver mais do que os restantes. E anota._Não pára de anotar. Facilmente tem cem notas no final de um ensaio. “Estes são os ensaios mais bonitos porque em termos coreográficos são estamos a ver detalhes, não há nada estrutural. Sobretudo falamos de emoções. Gosto muito destes últimos ensaios.” Quer saber, por exemplo, o que sentem os bailarinos no dueto final sobre a loucura, o que os motiva. Na secção da zanga, quer que os bailarinos batam os pés com mais força, porque é com força que se sente a zanga.

Em palco estão três meses de trabalho intenso com aqueles artistas - dezoito bailarinos, dois atores e dez músicos. “O maior grupo com o qual já trabalhei e de repente está tudo a fundir-se ali”. Há preto e branco, escuridão e luz, bem e mal, amor e ódio. O corpo acima de tudo. Um corpo muito formal, ritualizado, que se vai desconstruindo apagando-se. Um corpo que vai dando o triunfo às emoções, às de Romeu e às de Julieta.

Pouco antes, aqueles jovens, bailarinos da CNB, que agora tomam conta do escuro do palco, estavam no refeitório do Teatro Camões, espaço onde, afinal, passam o dia todo, entre aulas e ensaios. A maioria é muito jovem. Rui Horta brinca. Diz que olham para si como “um sénior, mas um sénior muito irrequieto, inconformado e experimental”. Também ele já foi um desses jovens: aos 17 anos integrava o entretanto extinto Ballet Gulbenkian. E também ele sabe o que é isso da inevitabilidade da dança. A tal que faz com que, por exemplo, se atirem a uma coreografia como este “Romeu e Julieta”, que é crua e dura, sem medo de lesões. Sem medo do chão. “Nem eu nem estes miúdos escolhemos a dança. A dança é que nos escolhe, a dança entra nas nossas vidas como uma evidência, como uma impossibilidade de fazermos outra coisa. A dança é a primeira forma de expressão, o movimento vem antes do verbo. E para nós, que sentimos isto, tornou-se uma obsessão. Nós sentimos que temos de ser bailarinos. Não nos sobra mais nada e também por isto aceitamos ter uma profissão precária. Somos os últimos do pelotão”, diz, não deixando, no entanto, de sublinha a ironia de que, em simultâneo, a dança independente portuguesa, nos últimos 25 anos, esteve sempre muito viva. “Curiosamente, o setor mais internacional que temos, é a dança. Temos muita pujança no circuito internacional da dança, mas não é dada a devida importância a isto. Mas devia ser porque temos uma nova geração agora que está a dar ainda mais nas vistas em termos mundiais.”

O discurso faz ainda mais sentido porque acontece em vésperas de mais um Dia Mundial da Dança, instituído pela UNESCO a 29 de abril por ser a data de nascimento do francês Jean-Georges Noverre. Não é por acaso que esta peça, esta versão deste clássico, estreou precisamente nesse dia. Num dia em que se celebra a dança e os bailarinos e coreógrafos. E ainda menos acaso é que Rui Horta tenha criado esta interpretação - uma interpretação que celebra o corpo - de “Romeu e Julieta” para estrear neste dia. “O Dia Mundial da Dança, hoje em dia, e na minha opinião, deve chamar a atenção, sobretudo, para o corpo.” Porque o corpo, e o seu lugar, para Rui Horta, não pode continuar a ser ignorado. “Vivemos numa sociedade profundamente descorporizada, parece que o corpo deixou de ser necessário. E a arte deve discursar sobre os problemas da atualidade e portanto devemos falar do corpo e chamar a atenção para a sua importância. Não podemos cultivar o corpo-museu. Qualquer dia um filho vai a um museu ver um corpo e tem de perguntar ao pai o que é, porque só damos pelo corpo quando ficamos doentes ou quando ele está super exposto - na praia ou na sexualidade. Mas como diz o José Gil, a única coisa que temos é corpo. E o corpo é hoje um lugar de grande conflito, mas ao mesmo tempo a comunicação através do corpo é muito importante, por isso a dança ocupou um espaço de autenticidade, o espaço do corpo autêntico, um espaço de inclusão onde existe o corpo alta fidelidade do ballet clássico, mas também existem outros corpos e todos são válidos.” E são eles, em palco, Montecchios e Capuletos, que nos transportam a Shakespeare, a Horta, a Pernadas. E ali, no escurinho, quando as salas parecem maiores, na plateia sente-se o mesmo que eles. Vive-se a vida que eles estão a viver. Como se de um bypass se tratasse.