Internacional

Em paz: Vicente da Câmara

Nunca as teve, às tranças pretas, mas foram elas que protagonizaram o seu mais conhecido fado, A Moda das Tranças Pretas, que terá escrito num quarto de hotel em Santarém, algures entre 1955 e 1956, mas que apenas gravou em 1961.

Nunca as teve, às tranças pretas, mas foram elas que protagonizaram o seu mais conhecido fado, A Moda das Tranças Pretas, que terá escrito num quarto de hotel em Santarém, algures entre 1955 e 1956, mas que apenas gravou em 1961.

Vicente da câmara morreu a 28 de maio, no Hospital de São José, vítima de paragem cardio-respiratória. Tinha 88 anos e segundo José da Câmara, um dos filhos, disse à revista VIP foi uma morte totalmente inesperada: «Engasgou-se, foi qualquer coisa para os pulmões e fez uma paragem cardio-respiratória. Tudo aconteceu em casa, fomos para o São José e morreu lá. Foi completamente inesperado.

O meu pai estava relativamente bem. Se, por um lado, na morte esperamos que não haja sofrimento – no caso dele não houve – é um homem com 88 anos que parte e que tinha muito valor. Foi um choque, parece que nos passou um camião por cima... O meu pai, que foi filho único, conseguiu criar um clã de seis filhos e 18 netos... E fez muitos amigos. Já estou cheio de saudades».

Vicente da Câmara nasceu a 7 de maio de 1928, em Lisboa, no seio de uma família conservadora, cujas raízes remontam a João Gonçalves Zarco, e onde há muito já corria o fado, sobretudo através do tio-avô João do Carmo de Noronha e da tia, Maria Teresa de Noronha.

Filho de João Luís Seabra da Câmara, locutor da Emissora Nacional Portuguesa e de Maria Edite do Carmo de Noronha, acabou por ser a tia, mulher do fado que, em 1947, o convence a participar num concurso da Emissora Nacional. Perde para Júlia Barroso, mas ainda assim regressa no ano seguinte. E vence, passando a marcar presença em vários programas da estação, sobretudo em Fados e Guitarradas, que a tia conduziu durante 23 anos.

A verdade é que, desde o final da infância, o fado já dava sinais na voz de Vicente da Câmara. Dizia, aliás, que quase nasceu a cantar. E pelos 15 anos começou a correr casas de fado no Bairro Alto. Em 1950, com 22 anos e alguns de experiência pelas noites e pela rádio, preparava-se para emigrar para Luanda ao serviço da BP, quando assina o primeiro contrato discográfico com a Valentim de Carvalho e grava, entre outros, Fado das Caldas, Os Teus Olhos e Varina.

Do seu repertório constam ainda temas como Sino, de sua autoria, As Cordas de uma Guitarra, Outono, Triste Mar e Maldição. Mas o maior dos seus sucessos foi mesmo AModa das Tranças Pretas.

Fã do improviso, considerava-se um progressista do fado castiço, e professor do que muitos apelidaram de ‘tremidinho’ dos Câmara, um jeito de cantar partilhado por muitos dos elementos da família. Recusava a ideia de ser um fadista aristocrata e defendia que o fado era uma canção pobre e essa era, justamente, a sua riqueza.

Em 1964 estreou-se no cinema, com Constantino Esteves, no filme A Última Pega. Voltaria ao cinema em 2007, em Fados, um projeto dirigido por Carlos Saura, onde também participaram os fadistas Carminho, Ricardo Ribeiro, Mariza, Camané e Carlos do Carmo, entre outros.

No pós 25 de Abril de 1974 viu-se algo arredado do fado e mais dedicado à sua atividade profissional não artística, nomeadamente na CIDLA – Combustíveis Industriais e Domésticos. Regressou ao circuito do fado em 1982, altura em que se começou a dedicar mais ao fado. «Nunca levei isto muito a sério, nunca tive um agente artístico que tratasse da minha carreira. Fui um freelancer do fado e tive sempre profissões paralelas. Tinha seis filhos para sustentar e não tinha muito tempo para cantorias», disse.

A família foi, de resto, o centro da sua vida. De si dizia que, acima de tudo, era «um homem de família». Foi casado durante 56 anos com a mesma mulher, Maria Augusta de Mello Novais e Atayde, que morreu em 2011, e com quem teve os seus seis filhos. Filho, sobrinho, neto, pai e avô de fadistas, chegou a partilhar o palco com os filhos e os 18 netos, nomeadamente em 2013, aquando da comemoração dos seus 65 anos de carreira, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Por essa altura, numa entrevista à revista Caras, assegurava que sentia que, apesar dos 85 anos, estava no «apogeu do seu percurso profissional».

Fundador da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, em 2013 foi distinguido com o Prémio Carreira da Fundação Amália Rodrigues. Atuou em países como Alemanha, Luxemburgo, França, Espanha, Países Baixos, Canadá, África do Sul, Macau, Hong Kong, Coreia do Sul, Malásia, Brasil, Moçambique e Angola. Gravou o seu último álbum em 2006, O Rio Que Nos Viu Nascer.cer.æ˾ćƯ