Desporto

Os gurus da seleção. A eles também devemos um obrigado

O leitor já recuperou das celebrações? Se não, deixe-se estar. Já deve ter ouvido o relato do golo caído dos céus de Éder diversas vezes. Não deve sequer conseguir parar de olhar para as fotografias da alegria do capitão Cristiano Ronaldo no final do jogo em Paris. Muito menos interromper a repetição do penálti defendido por Rui Patrício contra a Polónia nos quartos-de-final. Os agora heróis nacionais têm todo o mérito, mas se não fosse Susana Torres, Joaquín-Huan e Paramahamsa Vishwananda, esta história feliz podia ter tido outro desfecho - o de 2004, que ninguém quer certamente relembrar, por exemplo. São eles quem ajudam alguns dos jogadores portugueses a ultrapassar problemas pessoais, físicos ou até espirituais. Se por acaso o leitor algum dia os encontrar, não se esqueça de lhes agradecer

 

Joaquín-Juan, o fisioterapeuta milagreiro de Ronaldo
Paramahamsa Vishwananda, o mestre de Patrício
Susana Torres, a mental coach de Éder

Susana Torres, a mental coach de Éder

Éder passou de vilão a herói no Europeu disputado em França. Tudo porque marcou o golo do triunfo português contra os franceses na final. Um grito de revolta, no meio dos gauleses, de um jogador muito criticado, principalmente pelos portugueses, que agora o recebem em festa. O jogador do Lille esteve perto de abandonar a carreira, mas graças a Susana Torres, mental coach, que o tem ajudado até aqui, nunca desistiu.

“Dedico a vitória à Susana Torres, a minha mental coach. Deviam conhecê-la”, afirmou na zona de entrevistas rápidas. E quem é esta mental coach? Susana é bancária de profissão mas tem-se dedicado ao mundo do futebol, sendo especializada na área desportiva. Começou a trabalhar com Éder no Sporting de Braga quando o jogador começou à procura de ajuda profissional para vencer uma crise de confiança. “Um jogador, que na altura colocava em causa a sua carreira desportiva, partilhou comigo o seu sonho de criança e acabámos por lançar um desafio um ao outro: ele transformava o seu sonho num objetivo a seis meses, e eu dar--lhe-ia todas as ferramentas que possuía para o ajudar a conquistar esse objetivo”, explicou a treinadora ao “The Miracle Coach”.

Falava do agora herói nacional com quem trabalhou durante seis meses, e “tiveram o resultado esperado”: o português rumou ao Swansea City para jogar “numa das ligas mais exigentes do mundo”, continua. A mental coach não quis dizer o nome do jogador; no entanto, as dúvidas caíram todas ontem. Mas a história do ponta-de-lança lusitano “será contada em livro”. E que venha essa obra, porque há muito para contar.

 Susana Torres considera que um futebolista não chega mais longe só pelas suas qualidades técnicas, mas sim na forma como lida com a “adversidade, frustração, desmotivação, ausência de resultados, e como ele se consegue manter firme naquilo em que acredita e nos seus objetivos”, finaliza a treinadora, que garante que não é uma psicóloga, mas alguém que trabalha a performance desportiva de jogadores e equipas.

 Éder derrotou todos esses medos e inseguranças anteontem à noite, passando de “patinho feio” para “patinho bonito”. E nós já não temos desculpa: ele e os outros 22 são também, agora, os nossos heróis. E claro, Susana Torres - nunca vamos esquecer-nos desta treinadora.

Paramahamsa Vishwananda, o mestre de Patrício

é um mestre espiritual das ilhas Maurícias e visitou o centro de estágio da seleção nacional em Marcoussis um dia antes do duelo contra a Hungria. O guarda--redes de Portugal - considerado o melhor deste Europeu - é aluno deste mestre hindu, bem como praticante de Atma Krya Yoga, uma técnica de meditação criada por Vishwananda ou, por outras palavras, a “forma mais poderosa de yoga dada ao mundo nos dias de hoje”, como descreve no seu site oficial.

Tudo isto aconteceu depois de Ricardo Peres, que foi treinador de Patrício na seleção nacional e no Sporting, ter estabelecido o contacto entre o guardião português e o mestre hindu. Essa relação foi-se desenvolvendo e teve o seu ponto alto no pós-jogo em que Patrício ofereceu uma camisola ao seu líder espiritual. Mesmo que de França às Maurícias sejam vários milhares de quilómetros de distância, as redes sociais podem resolver o problema entre aluno e professor - ou uma simples viagem de avião. “Paramahãmsa Vishwananda lembra-nos que, quer estejamos a praticar meditação no nosso espaço de silêncio, quer estejamos a disputar um jogo de futebol visto por milhões, o apoio e o encorajamento do mestre espiritual está sempre presente”, lê-se na página oficial do mestre espiritual, onde encontramos uma fotografia com o guarda-redes de Portugal.

 “Paramahamsa Vishwananda e Rui Patrício são bons amigos e ele marcou presença para apoiá-lo, e nada mais. Normalmente, Vishwananda não tem qualquer interesse por futebol, mas está aqui pelo Rui e pela sua equipa, por amizade. Deseja ao Rui e a Portugal a maior das sortes e sucesso para o resto do torneio”, disse o representante do mestre das Maurícias ao “Diário de Notícias”.

 A verdade é que essa tal tranquilidade e paz de espírito foi visível em Patrício durante vários momentos deste Euro. Nas grandes penalidades contra a Polónia, em que defendeu o pontapé de Kuba e permitiu a Quaresma carimbar a passagem para as meias finais. Nos três jogos da fase de grupos, mesmo depois de sofrer três golos sem hipótese contra os húngaros. E claro, na final: os franceses bem tentaram, mas não conseguiram passar por este “gigante calmo” português.

Joaquín-Juan, o fisioterapeuta milagreiro de Ronaldo

 Joaquín-Juan é um dos melhores fisioterapeutas do mundo. É também o responsável por tratar da forma física de Cristiano Ronaldo, que ontem foi obrigado a sair do jogo contra a França por lesão. Aos 31 anos, o madeirense pode já não ter o fulgor de antigamente - como alguns criticam, pese embora a sua dedicação em campo - e, por isso, a Federação Portuguesa de Futebol autorizou a presença do espanhol, que trabalha também com o basquetebolista espanhol Paul Gasol, que joga na NBA.

Juan teve também um papel fundamental na presença de Ronaldo na final da Liga dos Campeões este ano - competição que o Real Madrid venceu diante do Atlético de Madrid.

O craque dos merengues pode nem ter faturado nos dois primeiros jogos de Portugal, mas diante da Hungria - com dois golos e uma assistência - e frente ao País de Gales nas meias-finais - com um cabeceamento estratosférico -, o avançado português esteve ao seu melhor nível.

Parte desta performance está relacionada com o trabalho que o português faz com o fisioterapeuta espanhol. O treino orientado pelo selecionador nacional, Fernando Santos, é, em boa parte, muito importante para o desempenho de Ronaldo. Mas as três sessões diárias que o número sete da seleção nacional faz com este preparador físico têm sido a fórmula para o seu sucesso.

Em 2014, ano de campeonato do Mundo - e também quando o português se lesionou e ficou de fora da final da Taça do Rei, contra o Barcelona -, Joaquín-Juan também trabalhou com Ronaldo, o que abriu uma guerra com os serviços médicos do Real Madrid. No entanto, a confiança manteve-se passados dois anos.

O espanhol é licenciado em Educação Física e Fisioterapia e aos 15 anos começou a trabalhar nas áreas da saúde e do desporto, como conta o diário espanhol “El País”. Chegou até a jogar futebol. “Joguei futebol e até participei em alguns congressos de preparação física. As minhas expetativas eram ser treinador num centro de alto rendimento de um clube”, afirmou.

Passou por piscinas em Madrid, pelo Atlético de Madrid, onde fez um estágio, por um ginásio e chegou finalmente ao Barcelona. Trabalha atualmente na clínica de traumatologia e fisioterapia Castellana 28, ao lado do antigo médio dos merengues, Domingo Delgado.