Internacional

Brasil: só Dilma ainda acredita

É o mês do tudo ou nada para Dilma e a Presidente afastada parece estar cada vez mais isolada. Nos próximos dias apresentará carta ao Brasil em que defende um referendo sobre a possibilidade de se antecipar eleições.

O Brasil assiste à fase final do processo que visa o afastamento de Dilma Rousseff, no Senado, e as peças no enorme xadrez que é a política brasileira alinham-se e realinham-se a cada dia que passa. O Presidente Michel Temer tem tentado a todo o custo que seja antecipada a votação do impeachment no Congresso – marcada para o dia 29 –, já Dilma parece estar a preparar-se para apresentar aos brasileiros nas próximas o horas uma carta de defesa em que apresentará as suas ideias para o futuro do Brasil. A mesma que irá enviar aos 81 senadores no âmbito do processo de impeachment.

Uma das ideias principais defendidas por Dilma Rousseff é a realização de um referendo sobre a possibilidade de eleições antecipadas. Segundo o jornal Folha de São Paulo, que teve acesso a alguns trechos do documento, também constarão ideias sobre a reforma política.

«Darei apoio integral à iniciativa de convocação de um plebiscito, com o objetivo de definir a realização de novas eleições e a reforma política no país», escreveu a Presidente afastada na versão inacabada do documento.

«Que o povo se manifeste, não só através de pesquisas de opinião, mas por meio de voto popular sobre a antecipação das eleições e reforma política», disse Dilma numa entrevista àquele jornal. E continuou: «Estão tratando o presidencialismo como se parlamentarismo fosse. O parlamentarismo permite o voto de desconfiança. No presidencialismo, o impechment, sem crime, é golpe».

PT contesta referendo proposto por Dilma

Mas se Dilma está cercada por Michel Temer (PMDB), que tem procurado apoio junto da sua nova base aliada, dentro do Partido dos Trabalhadores (PT) as coisas também não lhe correm de feição. Logo após a divulgação da sua intenção de abrir um referendo sobre eleições antecipadas, o presidente do PT, Rui Falcão, mostrou estar em rota de colisão (de forma polida) com Dilma Rousseff.

Segundo o líder do partido de Lula e Dilma, não seria viável caminhar para um cenário de referendar eleições antecipadas uma vez que todo o processo demoraria perto de dois anos, ou seja, acabaria por só ser possível (caso se decidisse pelas eleições antecipadas) com a data já definida para escolher o sucessor de Dilma e Michel Temer.

Rui Falcão também já fez saber que, na sua opinião, se a Presidente afastada quiser conquistar votos contra o impeachment no Senado Federal deverá assegurar que está disponível para mudar a política económica que seguiu e reformular o seu governo.

Apesar de cada vez mais isolada, Dilma ainda conseguiu que Carlos Henrique Árabe, secretário de formação do PT, saísse em sua defesa: «Rui Falcão não deve congelar o debate interno. Ele não tem a palavra final, até porque não apresenta alternativas. O PT é democrático. Espero que ele seja minoria».

Dilma responde a Michel Temer e fala de Eduardo Cunha

O Presidente em funções tem questionado o sentido de Dilma regressar para depois voltar a sair. E Dilma não perdeu a oportunidade de responder ao seu antigo vice-presidente. «A lógica? É ele não ter 54,5 milhões de votos. Eu sou legítima. Ninguém, nem o impeachment, transformará Temer num Presidente legítimo. E ele vai carregar essa pecha até ao fim», disse à Folha de São Paulo.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PSDB), um dos mais entusiastas defensores do impeachment atualmente a contas com a Justiça, também foi alvo de críticas de Dilma nas suas mais recentes declarações: «Teria de tirar muito ele de cena para tirar a influência dele […] Parece aquelas versões dos filmes americanos em que o poderoso chefão controlava tudo dentro da prisão».

A jogada de Michel Temer nos bastidores

O jogo de bastidores de Michel Temer tem sido o de tentar que a votação do impechment seja adiantada para dia 25 ou 26 deste mês. Segundo a imprensa brasileira o Presidente em funções tem dado indicações ao núcleo dos seus aliados políticos no Congresso para que se batam por essa antecipação. O Globo refere mesmo que entre os senadores que estão na linha da frente desta batalha encontram-se Romero Jucá (PMDB) e Aloysio Nunes (PSDB).

Um dos homens fortes desta estratégia Romero Jucá já tinha tido a confiança de Temer, quando o Presidente o nomeou para ministro do Planeamento, em maio.

Mas Jucá saiu tão rápido quanto entrou, uma vez que várias conversas escutadas mostravam que o presidente do PMDB sugeriu que a saída de Dilma do palácio do Planalto era a hipótese de estancar a «sangria» da OperaçãoLava Jato.

O objetivo de Temer ao querer antecipar a votação do impechment é o de resolver tão rápido quanto possível o assunto, numa altura em que será quase impossível Dilma conseguir sair vitoriosa deste processo.

Fontes ouvidas pelo Globo defendem ainda que caso tudo ficasse resolvido até ao final do mês, Temer teria mais força na reunião de dias 4 e 5 do próximo mês dos G-20.

A aprovação do impeachment

Foi aprovado a semana passada na comissão especial do Senado (14 a favor e 5 contra) o parecer do relator António Anastasia (PSDB), que tinha sido apresentado no início da semana. Nesse parecer concluía-se que a Presidente afastada terá tido, por diversas vezes, atuação irregulares pelo que se justificava a existência do julgamento final.

Ainda assim, hoje, 9 de agosto, o parecer do relator António Anastasia ainda terá de ser avaliado no Senado. A análise definitiva que poderá conduzir à perda de mandato só acontecerá no final do mês. Caso Michel Temer não consiga antecipar, o futuro do Brasil decide-se dia 29 de agosto.