Desporto

O maior clube de Lisboa deixou marca na Europa. E mel do bom

Têm uma polícia, aspirantes a engenheiras e até uma chefe de peixaria. Pelo meio, jogam à bola – e bem, como mostraram na Champions: apresentamo-vos o futebol feminino do Fofó.

O nome Benfica remete diretamente para o gigante Sport Lisboa, mas esse está sediado na freguesia de São Domingos de Benfica. Na freguesia de Benfica, no bairro de Santa Cruz, encontra-se outro clube que nos últimos anos tem orgulhado Portugal: o Futebol Benfica. Para não haver confusões, a partir de agora vamos designá-lo com a palavra que começou por ser pejorativa – fruto, lá está, da rivalidade com o outro Benfica –, mas que hoje é um termo de carinho: Fofó.

Pois bem, nas últimas duas temporadas o Fofó tem andado pelas bocas da Europa, e por ‘culpa’ de um grupo de meninas que ama o futebol. Por ele, juntam-se quase todas as noites, esquecendo o desgaste provocado por um dia inteiro de trabalho – e há profissões para todos os gostos no plantel: de polícia a chefe de secção de uma peixaria. Mas sobre isso, falaremos mais à frente. Por agora, importa dizer que este grupo de raparigas joga muito à bola – como atestam os campeonatos conquistados nas duas últimas temporadas.

Mercê desses sucessos nacionais, as meninas do Fofó conquistaram o direito a jogar na elite europeia, que é como quem diz: a Liga dos Campeões. Na época passada, na Croácia, venceram dois jogos, inclusive à equipa da casa (Osijek), mas a derrota a abrir impediu a qualificação para a fase final. Este ano, a competição foi disputada na Finlândia e os resultados, ainda que semelhantes, tiveram outra magnitude. Ao SOL, o treinador Pedro Bouças explicou porquê: «Tivemos muito azar no sorteio, que nos colocou perante duas equipas profissionais: a da casa e uma norueguesa que pertence a uma realidade completamente diferente. Vencemos o campeão finlandês, que nunca tinha sido eliminado nesta fase da prova e conseguimos esse feito. O nosso objetivo era o primeiro lugar no grupo, mas perante o desnível de forças, o segundo lugar já foi bastante bom. O saldo é muito positivo».

 

Treinador sofre...

Aos 36 anos, é Pedro, co-autor de um blogue de desporto muito conceituado em Portugal (Lateral-esquerdo), quem mais dores de cabeça tem para formar um grupo vencedor: «Não sendo esta a profissão delas, sempre que surge qualquer coisa é o futebol que fica para segundo plano. Chegar ao treino às 9 da noite com um dia de trabalho em cima é muito cansativo e o rendimento nunca será o mesmo do que seria se fossem profissionais. Mas tenho a sorte de elas aqui serem muito ambiciosas e empenharem-se muito».

É a altura certa para ouvir a capitã: Matilde Fidalgo, 22 aninhos apenas mas com um discurso pleno de maturidade. «Eu estou sempre muito preocupada com tudo. Mesmo que não fosse capitã, é esta a minha maneira de ser. Mesmo nos momentos de lazer, estou sempre a pensar. ‘Temos de estar todas a horas nos sítios, todas juntas, tem de estar toda a gente integrada’. É um grupo de 20 e tal mulheres, não é fácil (risos)... mas não me posso queixar», confessa Matilde, que está no último ano de mestrado em Engenharia da Energia e do Ambiente: «Ponha aí a energia, que nas entrevistas esquecem-se sempre! O curso é quase só à base de cadeiras sobre energia, mas dizem sempre só ambiente!». Está feito, Matilde!

 

A altura conta? Às vezes, sim

Nesta vida desde os cinco anos, a lateral-direita já está mais que habituada a conciliar estudos e futebol. Em criança, era a «menina dos caracóis no ar que corria mais que todos os rapazes». Depois, lá se foi a vantagem: «Era muito rápida, mas depois eles começaram a crescer e há ali uma altura em que tem mesmo de haver uma separação entre o masculino e o feminino, não dá para acompanhar. Aí, senti que já não me destacava e já não era melhor que eles. Mas também não era pior – já é bom (risos)!».

Desta participação na Finlândia, Matilde retira a boa resposta que o Fofó deu perante uma «equipa de topo», numa realidade bastante diferente daquilo a que está habituada. «Eu tenho 1,59 metros. No nosso campeonato, não sinto problemas por isso, mas a nível internacional nitidamente a estatura faz diferença. No jogo em que perdemos (1-6), sofremos três golos de canto. Eu dizia para elas saltarem e elas respondiam ‘Nós saltámos, mas elas saltaram um metro acima!’».

E a nova formulação do campeonato português, que começa este sábado e este ano vê entrar Sporting, Braga, Belenenses e Estoril? «Traz mais visibilidade ao futebol feminino. São equipas com um grupo de adeptos que as seguem. E passando na televisão também ajuda», considera Matilde, que já nota algum crescimento do mediatismo da modalidade nos últimos anos.

 

E o mérito, onde está?

Mas o tal alargamento não agradou a toda a gente. Chega a hora de falar com o presidente do Fofó: o carismático Domingos Estanislau, à frente dos destinos do clube desde 1988. «Esses clubes entraram ao colinho! Mérito não tiveram nenhum. Se é uma competição, têm de competir! É verdade que valoriza mais o campeonato, mas...», realça o dirigente, considerando «uma anedota» a ideia de haver uma liga profissional de futebol feminino em Portugal: «Na Liga dos Campeões, enfrentámos equipas com orçamento de dois milhões de euros. O nosso anda à volta dos 30 mil... As miúdas recebem muito pouco, até tenho vergonha de dizer... recebem para o passe, pagamos-lhes uns almoços e pronto. Quando vamos competir ao estrangeiro, o meu coração vem doente! Em Espanha, por exemplo, os clubes recebem 1,3 milhões da Federação e mais 1,6 milhões de uma firma petrolífera. Nós, em Portugal, recebemos zero!».

Ainda assim, e apesar de todas as dificuldades, são os sorrisos e o trato afável que põem o Fofó nas bocas do mundo – além da qualidade futebolística, claro. «Em todo o lado onde chegamos, conquistamos simpatia. Desta vez, levámos para a Finlândia um produto português: mel ‘Joaninha’. Gostamos de criar esse sentimento de empatia e também promover o produto nacional», salienta o presidente, contando que nem todos têm o mesmo comportamento: «Os finlandeses são um povo muito frio e muito pragmático. Chegámos lá, uma carrinha deixou-nos no meio de Helsínquia e depois vieram-nos buscar daí a umas horas. Se fosse em Portugal, nós íamos fazer uma visita guiada com a equipa. Ali é muita frieza».

O Futebol Benfica tem pergaminhos, vários títulos nacionais em futebol, hóquei em patins, hóquei em campo e até natação, e um histórico de internacionais portugueses de renome, como Paulo Bento, o recentemente falecido Artur Correia ou António Livramento, lenda do hóquei nacional e mundial. Mais recentemente, ali se iniciaram Ricardo Pereira (cedido pelo FC Porto ao Nice, de França), Rúben Semedo e Gelson_Martins, atuais titulares do Sporting. Tudo isto leva Domingos Estanislau a proferir a frase mais polémica da entrevista – ele sabe-o, ri-se e explica o porquê de pensar assim. «Nós somos o maior clube de Lisboa! Isto porque os outros são SAD’s, são organizações comerciais, perderam a característica do bairrismo, da coletividade. Temos mais de 1000 atletas, temos várias modalidades, qual é o clube em Lisboa com estes números? E não temos parcerias com ninguém – nem queremos! Podemos ficar em último em tudo, mas é nosso! A nossa filosofia mantém-se intacta», atira. E o futebol feminino, senhor presidente? «Esse é a menina dos meus olhos neste momento. A qualquer sítio onde vou, é logo ‘As tuas mulheres são as maiores! Ganham tudo!’ É claro que me sinto satisfeito». E tem razões para tal.