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Óleo de palma. Vamos mesmo ter de deixar de comer Nutella?

Para banir da despensa produtos com o ingrediente da última polémica alimentar, a lista de compras teria um corte drástico. O óleo de palma faz mesmo mal à saúde ou há outros interesses?

Não é a primeira vez que a Nutella fica debaixo de fogo nas discussões sobre aquilo que se deve ou não barrar no pão (ou comer à colherada). Se, em 2015, a ministra do Ambiente francesa, Ségolène Royal, pediu que se deixasse de consumir o famoso creme de chocolate e avelãs, alegando questões ambientais, os motivos agora são outros. No centro da polémica está o mesmo ingrediente: o óleo de palma.

Há dois anos, França – que, por sinal, consome 26% de toda a Nutella produzida globalmente pela fabricante Ferrero – alertou para os custos ambientais da produção intensiva deste óleo, uma das culturas que mais contribui para a desflorestação em todo o mundo e com regimes de trabalho muitas vezes próximos da escravatura. Agora, a controvérsia rebentou em Itália e as questões levantadas prendem--se com os efeitos que este ingrediente traz para a saúde.

No ano passado, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA na sigla em inglês) avisou que o consumo de óleos vegetais refinados (sobretudo o óleo de palma) pode aumentar o risco de vir a ter cancro. Se, até aqui, a preocupação parecia não ter tido grandes repercussões, o cenário começou a mudar quando supermercados italianos decidiram boicotar o produto, incluindo a maior cadeia do país, a Coop. Ainda na luta contra o óleo de palma, um outro gigante alimentar italiano, a Barilla, eliminou este óleo da sua produção, passando a exibir a indicação “livre de óleo de palma” nos seus produtos.

Em resposta, a Ferrero viu- -se obrigada a apostar numa campanha de publicidade para reforçar a segurança dos consumidores, realçando que o óleo de palma usado nos seus produtos é processado abaixo dos 200 oC, o que implica um trabalho mais demorado e um aumento de 20% no custo de produção. Esta indicação vem ao encontro dos dados divulgados no relatório da EFSA, que avisam que é quando a refinação acontece acima dos 200 oC que é gerada uma substância cancerígena, o GE, cujo principal composto, o glicidol, causa danos no ADN e potencia o aparecimento de cancro.

A estratégia da Ferrero visa tranquilizar os consumidores, mas ao mesmo tempo preservar o negócio sem mexer no controverso ingrediente. “Fazer Nutella sem óleo de palma seria produzir um substituto de inferior qualidade”, disse o diretor de produção da Ferrero, Vincenzo Tapella, citado pela Reuters.

Saúde ou interesses? Pedro Fevereiro tem dúvidas sobre esta preocupação repentina com a Nutella e os seus efeitos. O presidente do Centro de Informação de Biotecnologia acredita que o fenómeno poderá resultar sobretudo da competição comercial entre diferentes óleos vegetais ou mesmo de uma estratégia de “excesso de zelo” para atrair os consumidores “com poder de compra e adeptos de uma alimentação saudável”.

O investigador subscreve as preocupações em torno da desflorestação associada à extração do óleo de palma, que afeta sobretudo a Malásia e a Indonésia, mas não bastaria deixar de consumir este produto para resolver o problema. “O que se teria de fazer se fosse necessário substituir todas as plantações desta árvore por outras culturas produtoras de óleo vegetal?”, questiona. A resposta não é taxativa, mas há quem acredite que a utilização de outra matéria-prima conduziria a uma menor biodiversidade e consequente maior utilização de herbicidas e pesticidas.

O monopólio do óleo de palma Já há muito que óleo de palma não é ingrediente que faça parte da despensa de Francisco Varatojo. Nem de Francisco, nem de todos os que, como ele, seguem uma dieta macrobiótica. “Temos como lema: se é mau para o ambiente, é mau para a saúde e vice--versa”, conta ao i.

Para seguir esta regra, o diretor do Instituto Macrobiótico de Portugal garante que é preciso estar muito atento aos rótulos dos produtos, até porque nem sempre é utilizada a expressão “óleo de palma”. “Por exemplo, quando dizem ‘óleo vegetal’, a probabilidade de ser óleo de palma é muito grande mas, infelizmente, não vem discriminado.”

O especialista em macrobiótica acredita que o fator tempo é uma boa forma de testar a qualidade dos produtos. “Se sobrevivem ao tempo e já eram usados pelos nossos antepassados, é porque têm qualidade”, refere. É por isso que aconselha, como alternativa ao óleo de palma, o uso dos dois mais antigos em todo o mundo: o óleo de sésamo, no Oriente, e o azeite, no Ocidente.

Numa visita ao supermercado, não é difícil perceber o quão usado é o óleo de palma – e como alguém que queira aderir ao boicote terá de cortar em muito mais do que a Nutella e resistir aos corredores mais apetecíveis.

Logo nas “promoções da semana” esbarramos nos rótulos de papas de bebé e iogurtes para crianças. Duplo erro: ambos contêm óleo de palma entre os cinco primeiros ingredientes. Se nem na secção de crianças estamos “a salvo”, imagine-se nos restantes corredores: é difícil encontrar bolachas, chocolates, tostas e cereais de pequeno-almoço livres desta substância.

Para Francisco Varatojo, a solução é fácil: “Fugir dos processados e focarmo-nos nos frescos.” Já Pedro Fevereiro deixa uma réstia de esperança para aqueles que já não vivem sem cremes de avelãs: “Nunca estivemos tão seguros como agora no que respeita à qualidade dos alimentos e à sua fiscalização.”