Sociedade

A violência doméstica na primeira pessoa

“Em nome da filha”, um livro com relatos de mulheres vítimas de violência, é apresentado esta tarde no liceu Camões, em Lisboa. O i falou com a autora.

Filipa, 39 anos
Assistiu ao homícidio da mãe em 1993

“Às vezes estou a cozinhar e sinto o cheiro da comida da minha mãe… Pouco antes de morrer, ela dizia-me: ‘Sabes, filha, tu não és só minha filha. És a minha melhor amiga’ (…) Não sei o que vai na mente de um agressor, mas eles têm picos. Umas vezes andam extremamente agressivos, outras vezes parece que são as melhores pessoas do mundo. São muito manipuladores. E, fora de casa, são sempre fantásticos.” [Quando descobriu uma caçadeira em cima do guarda-fatos] “Pela primeira vez, senti vontade de matar o meu pai. A pressão já era tanta, as ameaças dele sobre a minha mãe já eram tão fores que não sei como aguentei. Dizia que quando a matasse a ela me matava também a mim e à minha avó, porque as mulheres eram todas umas putas. Houve uma altura em que me arrependi de não o ter matado. Vivi com sentimentos de culpa, porque podia ter salvado a minha mãe. Esse é o meu maior peso. E vai ficar para sempre.”  

Laura, 24 anos
Fugiu de casa em 2015

Desde o início, quando nos começámos a aproximar, sabia que esta relação não ia ter futuro. Com o que ele e outras me contavam, comecei a perceber que tinha má fama, que era mulherengo e violento. Mas pensei: comigo vai ser diferente. Com tudo o que aprendi sobre psicologia, vou conseguir mudá-lo...
A primeira vez que saí de casa, veio atrás de mim, não devia ter cedido”.  

Iolanda, 27 anos
Vítima de violência sexual

“Queria que eu me prostituísse. Disse-me que seria o homem mais feliz do mundo se eu tivesse outros. Não queria que eu ganhasse dinheiro limpo, mas que andasse nas estradas onde se metem as meninas. Até o meu contacto telefónico dava. Chegaram a ligar-me de noite para ter encontros. Entretanto, a mãe dele separou-se e concordou com a ideia de que aquilo seria uma ajuda para nos sustentar. Nunca o cheguei a fazer.”

Júlia, 41 anos
Saiu de casa e fez queixa na GNR

“A primeira coisa que ele me dizia quando chegava a casa não era ‘olá’ nem ‘boa tarde’. Era ‘caralhos que me fodam’, ‘estou farto desta merda’, ‘puta do caralho’, ‘cala o caralho da miúda, que eu tenho de descansar. (…) Não podia telefonar aos meus filhos, nem à minha mãe ou amigos. Só faltava ler os meus pensamentos. Tentava bater-me, mas eu resistia. Só não podia fugir dos encontrões. Ou quando ele me torcia o braço.”

Leonor, 40 anos 
Pediu o divórcio e está num programa de proteção de vÍtimas de violência doméstica  

“Sempre que me arranjava, era um sarilho. Chegou a dizer-me que sentira ciúmes por eu estar a falar com a cunhada de uns amigos! Chamava-me ‘má mãe’ quando eu tinha de fazer o meu trabalho. Isto era o jogo dele, a acrescentar ao que eu já sentia enquanto filha. Porque boa filha é aquela que faz tudo o que o marido quer. Eu cresci com este peso de ser má filha.”

Guiomar, 63 anos
Esteve casada 40 anos

“Quero ver se arranjo um cantinho para mim. Para lá não volto, nunca mais. Ele também não tentou fazer com que eu voltasse. Estava sempre a mandar-me embora. Na última vez ameaçou-me que despejava uma panela de sopa a ferver em cima de mim. Era capaz disso e muito mais. É uma pessoa má, muito má. Ainda não estou bem, longe disso, mas pelo menos agora vou para a cama e sei que ninguém vai berrar comigo.”  

Mariana, 23 anos
Vítima de violência

“Ele sempre me disse: ‘anda para casa, as coisas vão mudar, não te vou tocar mais, vou-te tratar com uma princesa…” E, como ainda não cedi, reparo que está a ficar cada vez mais enraivecido. Pode ligar-me hoje e está todo mansinho, mas amanhã já é o oposto. Agora, quando diz ‘volta para casa’, é como se fosse ‘volta para casa, seu cão!’ Perceber isto está a dar-me muita força.”