Cultura

Mafalda Veiga:“Preservo e valorizo a relação autêntica com a música”

Tenho tido a sorte de as pessoas que se aproximam serem extremamente sensíveis à privacidade. É algo que já quase não existe

Nem tudo o que parece é. No quartel-general de Mafalda Veiga, em Algés, há cartazes do filme “No Direction Home” sobre Bob Dylan, e dos Black Keys. A biografia de Keith Richards numa prateleira de livros. Um portátil à secretária. E instrumentos: um teclado Fender Rhodes meio descoberto à espera de alguém para arrancar o calor daquelas teclas com história. E guitarras, várias. 

É neste ambiente de trabalho moderno, misto de sala de ensaios com estúdio e contemporâneo espaço de cowork, que Mafalda Veiga dá corpo às canções antes de as elevar ao palco, o último reduto de um artista. E é lá que se refugia, antes de preencher folhas em branco e pintar telas vazias. A velha imagem das garagens das bandas rock vai sendo substituída por novos aposentos mais leves, livres e, já agora, menos ruidosos. Se todo o mundo é composto de mudança, a autora acompanha-o. E faz questão de olhar para a expressão artística com os cinco sentidos despertos. A palavra é o veículo da canção e desta pode nascer a fotografia e o vídeo.Deste fio condutor nasceu um caderno com manuscritos e fotos documentais das gravações do novo “Praia”. Os concertos de apresentação estão marcados para 4 de março no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e dia 8 na Casa da Música no Porto. Aproximam-se os trinta anos de carreira mas, até ver, a procura suplanta a nostalgia.

A última entrada da discografia da Mafalda Veiga na Wikipedia é o álbum “Chão” de 2008, apesar de, em 2011, ter saído o “Zoom” com canções reconstruídas e um inédito. Entretanto passaram nove anos sem uma coleção completa de novas canções. Foi uma questão de tempo? 

Também. Tem a ver com o tempo e a relação com a música. Não sou muito colada à indústria. Se calhar, nunca acerto com o timing que as editoras gostavam que tivesse. Prefiro os meus. Se não tiver encontrado o caminho, prefiro não forçar. Trabalho bastante na parte da escrita porque qualquer autor vai mudando bastante a forma como se relaciona com as palavras. E depois há um tempo, que é o certo, e faz clique. Não me incomoda porque, durante esses intervalos, nunca estou desligada da música. 

A culpa é sempre da vontade?

É a paixão. A verdade, a autenticidade na relação com o que gosto muito. Nunca fiz um single por ser preciso fazer. Preservo e valorizo a relação autêntica com a música. É um privilégio. 

Essa é a maior independência de todas?

É. Apesar de, neste disco, ter sentido ainda mais independência porque o master é meu e tive controlo sobre o meu trabalho. Pude escolher e é daí que surge um caderno [edição especial de “Praia” em forma de diário com manuscritos e fotos de estúdio]. Teria feito um diário de estúdio sempre que estive em estúdio porque se cria uma relação familiar com aquelas pessoas. São muitas horas por dia. Cada um de nós testa os seus limites à frente de outras pessoas. É muito íntimo. E ali criou-se um clima de cumplicidade. 

Os fãs também são parte dessa família?

São. Alguns aproximaram-se através do clube de fãs e agora trabalham comigo. Por exemplo, a Joana Rocha começou a fazer fotografia comigo e entretanto já fez uma capa para o Carlos do Carmo. E ela é engenheira urbanística, vem de outro meio, mas está a trabalhar comigo. Há pessoas que vejo sempre, já conheço as caras e os nomes. O Facebook também ajuda.

E nascem relações de amizade?
Muitas.

Mas não há fãs intrusivos?

Por acaso, tenho tido a sorte de as pessoas que se aproximam serem extremamente sensíveis à privacidade. É algo que já quase não existe. A maior parte das pessoas é muito respeitadora do espaço e muito amiga nesse sentido. Tenho tido sorte.

O clube de fãs da Mafalda Veiga é dos mais participativos.

Tenho uma relação com o meu clube de fãs tão independente como com a música. Não sei mais do que aquilo que me querem dizer. Não faço parte da gestão, é muito independente em relação a mim. A primeira página de fãs de Facebook até foi o clube de fãs que fez e depois me passou a gestão. O primeiro site oficial também foram eles.

A Internet está a matar o mistério?
Só mata o mistério se a pessoa quiser expor. Acho é que as pessoas mostram muito. Perdeu-se a noção dos limites da privacidade. Quando as pessoas escorregam, depois têm que recuar. Sou muito reservada, só exponho aquilo que quero expor.

E que é o lado profissional?
E não só. No Facebook, ponho coisas com a minha cadela. Só publico fotos do meu filho quando ele era muito novo, portanto já não é reconhecível. Há é uma ligação direta com as pessoas de quem gosto e que querem saber um pouco mais do nosso mundo. Agora, se acordo triste não vou a correr partilhar isso. É privado. Mas há pessoas que deixam mensagem estimulantes a propósito do nosso trabalho e isso dá muita força. Em palavras, dão-nos o sentido do nosso trabalho.

É chocante para uma personalidade reservada ser figura pública?
Sim, são anos de aprendizagem. No meu caso, comecei a compor regularmente no segundo ano da faculdade e quando gravei o “Pássaros do Sul” [disco inaugural de 1987], até foi um amigo dos meus pais a mostrá-lo às editoras. Estava muito focada no curso, nem sequer pensava na música. Mas, de repente, a EMI quis assinar comigo. Não tive a noção do impacto que isso teria na minha vida e, olhando para trás, gostaria de ter tido um tempo de ensinamento – por exemplo, com uma banda a tocar em bares, em vez de aprender exposta. Quando tive a primeira banda já era Disco de Prata e a exposição que tinha já era muito grande. Tive que aprender a gerir, mas acho que o fiz bem. Foi difícil nos primeiros tempos, gostava muito de escrever em esplanadas e na faculdade. E isso tornou-se um pouco difícil. A primeira tendência é para desligar. Mas depois, aprende-se a ser uma pessoa normal. Também pode ser simpático as pessoas abordarem-me. Normalmente sou distraída, mas quando vêm falar comigo, estou bem. 

Foi uma grande surpresa o impacto que esse primeiro álbum teve na época?
Foi. A maior surpresa foi passar a ser muito conhecida. A fama. E a relação com os ensaios, os músicos e o meio. Acabei o curso [Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras]. Ia pouco à faculdade mas os professores foram impecáveis e fi-lo com gosto porque adoro literatura. A minha escolha não foi tanto profissional porque sabia que podia fazer outras coisas. Por exemplo, pintura, que sempre gostei. Ou escrever. Nunca excluí outras possibilidades. A música não foi uma decisão, aconteceu naturalmente. E também nunca deixei de ler imenso. 

Portanto, a música não foi logo um projeto de vida?
Nesses dois anos, entre 1987 e 1988, gravei dois discos. E o segundo, do qual ainda interpreto canções, não foi tão bem recebido. Para mim, foi estranho. Nessa altura, decidi que não queria tocar. Parei durante um ano e inscrevi-me na Sociedade Nacional de Belas Artes. Voltei à pintura. Lá havia o hábito de os pintores abrirem a casa a estudantes e eu fiquei em casa de uma pintora excelente, passeei imenso e comprei um carro. Fiz as coisas que as pessoas fazem quando ganham o primeiro dinheiro e se tornam independentes. E passado algum tempo voltei a ter vontade de estar com os músicos. Cada vez que ensaio, lembro-me que é isto que gosto de fazer.

Como é que a família reagiu quando optou pela música?
O meu pai disse-me sempre para tirar o curso. E eu fiz-lhe a vontade. Na verdade, a minha família sempre me deu espaço para fazer o que gostava. Somos cinco irmãos e sempre foi assim com todos. Apesar de ser uma escolha de risco por estar sempre dependente de muitos fatores, foi pacífico. É uma questão de paixão pela música e de fazer disso o trabalho. É um privilégio.

“Pássaros do Sul”, nomeadamente a canção “Planície”, foi um peso ou um privilégio?
Depende. Foi um privilégio ter um Disco de Prata ao fim de um mês. No ano seguinte, dei imensos concertos e tudo foi muito rápido, embora, lá está, preferisse que a aprendizagem tivesse sido mais suave. Por outro lado, quando as pessoas só conhecem uma canção e não gostam, torna-se complicado mas acontece com qualquer pessoa com uma carreira pela frente que tenha sucesso numa fase prematura. Na verdade, não penso muito no assunto porque já foi há muito tempo. Não toco a “Planície” há muito tempo. mas percebo que, quando se conhece pouco do trabalho, essa continue a ser a referência. É normal. 

Sentiu alguma frustração quando gravou canções que entendeu serem melhores, mas que se revelaram menos populares?
Essas canções acabaram por chegar. Pedem-me muito mais o “Cada Lugar o Teu” ou o “Restolho” - a segunda canção que escrevi na vida - do que a “Planície”. E não são poucas as pessoas. Durante estes anos, fiz vários Coliseus e tive outras salas esgotadas. Não tenho uma relação de frustração com aquilo que conhecem do meu trabalho. Só tenho a agradecer a toda a gente que me dá a possibilidade de cantar, encher salas e podermos estar aqui.

Como foi ser mulher num meio masculino e ainda por cima estando sozinha?
Não sofri mais por estar na música. Este é um país machista e um mundo machista. Qualquer mulher consciente dos seus direitos e do que a sociedade devia ser, vê-o nos mais pequenos pormenores. Qualquer mulher - adulta ou miúda da escola - sente-o quando alguém diz “pareces uma menina”. Isso existe e está na rua. Mas enquanto autora nunca senti. Sempre tive bandas que me respeitaram e me trataram de igual para igual mas é um facto social. Hoje, até há um grande retrocesso nos direitos das mulheres.

Mas a opinião pública parece estar mais consciente dessas questões. Ou é uma ilusão provocada pelas redes sociais?
Estar mais consciente nem sempre quer dizer mudar a mentalidade. Parte muito de uma política de educação que, desde cedo, ensina uma forma de estar e de pensar. A formação cívica é fundamental. Tanto nisso como a preparar para a democracia. Achávamos que era um valor conquistado mas está-se a ver agora o que está a acontecer noutros países. É preciso educar as pessoas para respeitarem o outro e exigirem aquilo a que têm direito. E o que têm direito é a serem bem representadas e defendidas por aqueles em quem votaram. Isto não existe na maior parte das democracias. As pessoas estão muito desligadas da política. E vê-se uma vaga assustadora a vir de um desconhecido, a Marine LePen a ganhar terreno em França... O terreno está muito minado. 

A voz dos artistas pode ser um alerta importante?
É sempre importante e somos muitas vezes convocados para isso. A visibilidade dá-nos essa responsabilidade. Não é uma obrigação mas se os artistas sentirem que sim, que querem fazer a diferença, claro. Há muita gente que vai ouvir. Uma pessoa que gosta muito de um artista está mais permeável. 

Tem um filho de 17 anos. Como é que ele a influencia musicalmente?
Ele sempre tocou. É baterista. E está muito ligado às palavras - gosta muito das minhas letras e, se calhar, é por isso que gosta tanto de rap. Por exemplo, quando estou com o Fred [produtor, músico dos Orelha Negra] ele conhece montes de gente que adora, como o Valete, o Regula e o Sam The Kid. Como conhece imensos grupos que descobre em sites e plataformas de que nunca ouvi falar. Coisas mesmo underground. E gosta. Falo muito com ele sobre música e tentamos dividir as viagens entre música que eu gosto e música que ele gosta. Mas ele ganha sempre com o rap. Às vezes tenho que lhe chamar a atenção para a linguagem que está a ser usada que é agressiva e... ilegal. E ele diz-me “ah, pois é”. E ele não repara porquê? Porque essa linguagem machista e agressiva contra a mulher está institucionalizada na escola. Ele leva aquilo a brincar mas é assim que a semente vai crescendo. 

Foi um tio, guitarrista de fado, a oferecer-lhe a primeira guitarra. E neste álbum canta um fado. Há alguma relação?
O meu tio, Pedro da Veiga, estava a aprender guitarra portuguesa. Morreu muito cedo, com 38 anos, mas tocou com imensa gente, em quase todas as casas de fado e com quase todos os fadistas. Tocou com a Aldina Duarte, por exemplo. Isso faz com que eu seja muito bem recebida no Sr. Vinho, como se fosse família. Como tínhamos pouca diferença de idade, nos jantares de família ele tocava e eu cantava. Somos muitos e a plateia era sempre numerosa. O fado foi a primeira canção que conheci e cantei. Mas nunca tive jeito nenhum, nunca tive vontade de o fazer porque comecei a compor muito cedo, mas gosto muito enquanto ouvinte. Nunca me tinha atrevido, mas desta vez pensei em usar a palavra “destino” para descrever os barcos que partem quando está nevoeiro. É uma coisa muito emocional, muito ligada à despedida e ao regresso. Para algumas pessoas pode não ser um fado, mas para mim é uma interpretação muito pessoal. Está muito ligado à minha relação com a cidade de Lisboa, que é muito profunda.

Como é que observa a invasão turística recente?
Percebo que seja fundamental para o negócio. Acho é que a gestão é duvidosa. Não sei se há planos para a frente, mas o que vejo é uma cidade subserviente ao turismo e isso não me parece bem. Se formos a Londres, as pessoas não ficam paradas para deixar passar o turismo. Não param zonas das cidades para o turismo circular. As pessoas vivem a sua vida e os turistas circulam connosco. Em Lisboa isso acontece e deixa-me chocada porque a atitude é provinciana. E nem sequer me parece que um turista goste disso. Lisboa é procurada por ainda ser uma cidade autêntica. Pela identidade. Tem história, tem memória, casas por recuperar, ruas velhinhas... Quando deixar de ser assim, os turistas vão para outra cidade à procura de qualquer coisa mais verdadeira. Tenho lido muito sobre a forma como Barcelona está a tentar reverter a situação. Espero que não aconteça o mesmo com Lisboa, que não seja demasiado tarde. Há lojas antigas que têm sido encerradas para abrir hotéis. Não concordo, acho que alguns lugares deviam ser preservados porque fazem parte da história de Lisboa e isso torna a cidade mais rica e torna-nos mais ricos também. Quando apagamos memória, ficamos mais à superfície. 

A inocência perde-se e tenta recuperar-se?
Depende um pouco do que se entende por inocência. Da forma que se entende a palavra, sim. O que não se perde, e é bom que não se perca, é a curiosidade pelo desconhecido. A sorte é que há sempre coisas por descobrir. Autores que não lemos, um músico que nunca tínhamos ouvido... Acontece-me a toda a hora. Alguém dos anos 40 que é novo e, de repente, está ali um mundo. Esse tipo de inocência perante o que nos estimula, porque é uma primeira vez, não se perde. Também há quem já não esteja disponível para descobrir mas a curiosidade pelo que está à volta, por se deixar tocar por algo, continua. Já não é inocência porque a consciência é outra mas dá muito gozo conhecer.

As referências foram sendo atualizadas? No princípio, as comparações com a Suzanne Vega eram frequentes.
Tinha a ver com o nome e com a guitarra. Sinto-me muito próxima de alguém que componha à guitarra. Gosto imenso da Norah Jones que toca guitarra e piano também. Gosto muito do trabalho da Aimee Mann. Da Angel Olsen, que fui ver à Zé dos Bois. O disco dela é muito bonito. Bon Iver também. É outra onda mas tem referências importantes. Tento estar a par do que sai. Troco muita informação com os músicos. É muito estimulante.

 
Depois de, na geração de 90, muita gente ter optado pelo inglês, a resposta foi agora uma geração de músicos sem vergonha da portugalidade. Nota a sua influência em alguém – como a Márcia, por exemplo?
Adoro a música e gosto imenso dela, também. Se tenho influência não sou a melhor pessoa para responder [risos]. Acho que ela tem uma identidade, assim como músicos novos que estão a compor. Se bem que eles, assim como eu, têm gerações fabulosas para trás. O José Afonso, o Sérgio Godinho, o José Mário Branco, o Fausto e o Jorge Palma são uma escola muito, muito boa. Todos eles influenciaram o meu trabalho. Às vezes pensamos que esse tempo está longe mas não está. Nunca deixámos de os ouvir. As canções deles são clássicos escritos em português. 

Durante esses anos não se sentiu sozinha?
Sim, porque foram anos de bandas. Gostava que tivesse havido mais gente para poder partilhar experiências. Partilho agora. 

Chamou “Praia” ao novo disco. É um lugar com várias leituras.

Cheguei a esse conceito a meio do disco. Quando componho, junto fotografias aos discos. Há uma praia que adoro e torna a minha relação transparente. Liberta-me de todos os filtros, respira-se melhor, há mais tempo, há mais ar...tudo. Está na capa do disco. Preferia não dizer porque vai pouca gente para lá, mas é a Praia de Cacela [gargalhada]. Este disco é muito mais o que sou do que qualquer outro. Deixei-me de grandes preocupações. Escrevi, por exemplo, sobre as minhas insónias, de que sofro desde os cinco anos, sobre Lisboa e ver o sol nascer numa colina. Foi deixar fluir e escrever sem estar preocupada com a densidade poética. O estar em contacto comigo é que me levou à praia. Uma interioridade boa e livre. 

Paz é também uma palavra que condensa trinta anos de percurso?
Nem sempre. É mais “procura”. Em cada disco, tento aproveitar. Estar em estúdio é muito laboratorial. É possível fazer muita coisa nova. Nem sempre os músicos estão disponíveis mas sou exigente. Nem sempre fiquei em paz com o resultado final dos discos. Há coisas do passado que nem sequer me agradaram. Não gostei de gravar o “Nada se Repete”, por exemplo. Cada vez que se vai para estúdio, há um universo criado. É sempre diferente. Neste álbum, pedi ao Fred para se soltar. Quis que saísse o mais próximo do que canto em casa porque sentia as coisas muito compartimentadas. 

Vai continuar “à procura” do futuro ou tem planos para celebrar 30 anos de carreira?
Não sei. Não gosto muito desse tipo de comemorações, mas gostava de fazer alguma coisa. Já perguntei na editora e o dia é 16 de Novembro. Até lá, eu e os músicos temos tempo para decidir se fazemos alguma coisa agora ou no próximo ano.  J