Cultura

Obituário. Quem matou o realizador David Lynch?

O realizador só considera voltar ao cinema com controlo total do processo criativo de produção. O mercado desistiu desse tipo de cinema. Enquanto espera, medita e faz filmes por outros meios e noutras texturas

Eu sou do tempo em que as orelhas cortadas e as formigas conviviam em paz nos prados verdes e David Lynch filmava a beleza de todo o mal. Desde 2006, e “Inland Empire”, que o realizador não voltou ao cinema. Rimbaud abandonou a poesia aos 19 anos e tornou-se traficante de armas. A deriva radical de Lynch não foi, profissionalmente, tão longe. Nada do que são as artes lhe parece estranho. Dedicou-se à pintura, à fotografia e à música.

Sobre esta propalada deserção da sétima arte, o realizador é perentório no desmentido. “Não, nada disso. Sei que esse rumor circula, mas é falso. Eu simplesmente afirmei que não voltarei a fazer uma rodagem com película. A película está morta, mas não o cinema. O cinema, provavelmente, não morrerá nunca; ele sobreviverá ao desaparecimentos das salas de cinema e da película, transformando-se”, afirmou à revista francesa “Les Inrocks”. A verdade é que, apesar de Lynch ter negado qualquer abandono do cinema, há 11 anos que não faz um filme.

Esta pausa é ditada por uma recusa: as condições que Lynch tinha para fazer um cinema radicalmente independente de todas as imposições comerciais deixaram de existir. A incursão pelo cinema industrial de Hollywood, com “Dune”, deixou-lhe um amargo de boca: “Gosto de dizer que os meus filmes são os meus filhos e que está fora de questão que os coloque num ranking para escolher de qual deles gosto mais. Mas posso dizer que há um ou dois que me causam desgostos: ‘Dune’ é aquele que me atormenta mais”, garantiu à revista francesa citada. O realizador explicou as razões: “Eu não tinha o final cut [a edição final] e o filme não corresponde ao que queria fazer. Foi uma grande lição. O mais assustador é que eu já estava convencido, no início, de que esta superprodução me deixaria um gosto amargo na boca. Mas quis ver por mim e vi. Percebi que não aceitaria mais participar em projetos de que não tivesse o controlo total. Nunca mais me deixaria tratar como uma simples marioneta.”

Durante anos, o cineasta norte-americano conseguiu reganhar essa independência e controlo total da obra com um acordo com produtores franceses, conhecidos por intermédio do antigo jornalista Pierre Edelman, mas o seu acordo com o StudioCanal é rompido depois da feitura do filme “Inland Empire”. Lynch exigiu e conseguiu todas as responsabilidades na execução dessa obra: não comunicou nem o orçamento real, nem o argumento, nem os cenários aos seus produtores. O filme mais radical e de difícil compreensão de Lynch foi um fracasso comercial: teve menos de 4 milhões de dólares de receitas, contra os 20 milhões de euros que rendeu o seu filme anterior, “Mulholland Drive” (“A Cidade dos Sonhos”).

Foi durante a filmagem de “Inland Empire” que Lynch recebeu a visita do diretor da Fundação Cartier, que viu os seus desenhos e quadros e lhe propôs fazer uma exposição. Para o realizador, essa foi a saída para se conseguir expressar num plano em que era possível e sustentável fazer aquilo que queria, sem nenhuma concessão.

Recebeu em 2010 o prémio de arte moderna Goslar Kaiserring. As suas gravuras vendem-se a 1800 euros; os desenhos, à volta de 6 mil euros; e os seus quadros, entre 40 mil e 150 mil euros. No resto do tempo faz coisas variadas: montras, garrafas de champanhe únicas e até, episodicamente, anúncios para a televisão. O dinheiro não é muito, até porque resolveu fazer uma fundação, à qual deu mais de 700 mil euros, de divulgação da meditação transcendental.

Para além da arte, o realizador que melhor retratou uma certa estranheza sexual do mal dedica duas horas por dia a fazer meditação, que considera a sua grande descoberta para tocar aquilo que é importante na vida e manter a criatividade.

Antes do regresso a “Twin Peaks”, tentou em 2011, sem sucesso, fazer um filme que tem na cabeça há mais de 25 anos, “Ronnie Rocket”. Não havia dinheiro para isso.