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Os Ladrões atacam de novo

O mais célebre blogue de economia em Portugal faz dez anos e lança um livro para provar que essa ciência é «um desporto de combate».

O economista no sentido em que eu o trato são uma espécie de núncios e arautos dos mercados. Escrevi uma crónica contra esses economistas, os que em geral têm acesso às televisões. Não são todos. Eu frequento um blogue de economistas que se chama Ladrões de Bicicletas, em que se fala de outra forma. Curiosamente, o título não remete para a economia, mas para a arte e o cinema. Não sou tão insano que não saiba que as realidades económicas existem, o que me parece é que lá por serem realidade não são necessariamente verdadeiras». É com esta resposta do grande Manuel António Pina a uma entrevista do i, que o livro Economia com Todos, dos autores do blogue de Ladrões de Bicicleta começa. Os Ladrões fazem dez anos, e a edição deste livro é uma espécie de continuação da guerra por outros meios, a que aludia o finado Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz. A 17 de Abril de 2007, os quatro fundadores do blogue, José Gusmão, João Rodrigues, Nuno Teles e Pedro Nuno Santos, declaravam ao que vinham: «Os dilemas trágicos que os indivíduos têm de enfrentar em resultado de recursos e de poder tornam-se visíveis num belo filme italiano a que este blogue roubou o nome. Não somos cineastas, mas economistas. Acreditamos que a economia, como o cinema, pode ser um ‘desporto de combate’. Temos partidos e ideologias diferentes e divergentes, mas convergimos no que hoje importa. Pleno emprego, serviços públicos, redistribuição da riqueza e do rendimento, controlo democrático da economia fazem parte do caminho que queremos percorrer. Recusamos e combatemos as ‘evidências’ e mitos que alimentam o actual consenso neoliberal. Acreditamos que o mercado sem fim é a ideologia transponível do nosso tempo. Mas uma coisa reconhecemos aos nossos adversários e a F.Hayek, o seu grande ideólogo: ´nada é inevitável na existência social e só o pensamento faz que as coisas sejam o que são’. Este blogue é, portanto, um espaço de opinião de esquerda, socialista e que pretende desafiar o domínio da direita na luta das ideias. Pedalemos então!».

Dizia Baudelaire que o maior feito do diabo era ter-nos convencido de que não existia. O maior feito do neoliberalismo é ter convencido as pessoas que não existe, que é apenas uma designação pejorativa de alguns esquerdalhos, sobre as salutares práticas económicas, que advêm de uma ciência única e neutral. O livro dos ladrões é essa intenção – conseguir discutir os principais campos de batalha da economia, como ciência humana com posições divergentes, de uma forma acessível e para o grande público, conseguindo abarcar o estado da arte da discussão nesta área. Aqui se discutem assuntos como o neoliberalismo, a globalização, a financeirização, o papel do Estado, a situação da comunicação social, a flexibilização laboral, o Estado Social, o Euro, as políticas de austeridade, a reestruturação da dívida, previsões de futuro, o estado da social-democracia nos tempos pós-Macron, e os horizontes da política.

O início do livro faz-se com um capítulo, assinado por João Rodrigues, em que se relembra que a economia neoliberal, que hoje nos é vendida como um horizonte inultrapassável da economia, foi um movimento político que nasceu, ganhou a hegemonia e tomou o poder nos países capitalistas mais desenvolvidos. Como dizia Margareth Thatcher, numa entrevista em 1981, «a economia é o método, mas o que é preciso é mudar a alma». Este primeiro capítulo permite a definição de um inimigo e das suas práticas, numa altura que os arautos do mercado conseguiram, com a colaboração intelectual de alguns sectores de esquerda ditos autonomistas, disfarçar a carga política e ideológica inscrita nos processos de globalização neoliberal. Um dos capítulos finais, assinado por Alexandre Abreu, parte da conhecida blague de Keynes, que as previsões económicas servem para tornas honestos os horóscopos, para colocar em discussão algumas das ideias fortes que damos como adquiridas sobre o nosso futuro, entre as quais, a queda do emprego em virtude do aumento da automação. Colocando mais uma vez a tónica que a economia é uma escolha que vai, em grande parte, depender das correlações de força e da ação dos humanos.