Desporto

Supertaça. Tons de vermelho vivo tingiram as águas da ria

A vitória do Benfica sobre o Vitória de Guimarães (3-1) no jogo da Supertaça, em Aveiro, devolve à equipa de Rui Vitória o lugar de favorito neste ponto de partida para o campeonato. Falta confirmação na quarta--feira, com o Braga

Definitivamente, está a tornar-se um vício.

O Benfica vai vencendo e vencendo, juntando troféus uns atrás dos outros, cá por dentro, claro, que lá fora se dança música a ritmo mais forte, e eis que acaba de conquistar a Supertaça, frente a um Vitória de Guimarães que amaldiçoará com certeza todos estes embates com os encarnados e que se vêm transformando num género de filme de terror, derrotas em barda de fazerem mal ao ego, mas enfim, não havendo argumentos, nada a fazer.

Rui Vitória não estava grandemente preocupado com uns jogos menos conseguidos na pré-época, viu-os como próprios de um crescimento que lá terá, na sua consciência, previamente sustentado. Nem mesmo duas goleadas pouco abonatórias (2-5 perante o Arsenal e, sobretudo, 1-5 à custa do Young Boys, com aquele nome irritante de grupelho de bons rapazes da série de “Os Pequenos Vagabundos”) o desviaram do discurso emoliente, muito tenham-lá-calma-e-aguentem-os-cavalos. Lá sabia ele das suas razões e num instantinho o Benfica despachou a tarefa, aproveitando lapsos defensivos adversários, é certo, mas também imprimindo ao seu futebol ofensivo uma variedade de movimentos muito interessante que bem podia ter-lhe fornecido, lá pelo passar da meia hora, uma vantagem mais do que suficiente para se refastelar à sombra do resultado.

Golpeado à beirinha do intervalo por um lance muito, muito para deixar o treinador encarnado a matutar com os seus botões, o Vitória regressou à vida, atreveu-se e veio para a segunda parte com a espuma ao canto da boca do bicho que, depois de se ter sentido acossado, volta à luta de peito aberto.

Pormenores

Ultrapassemos o excesso de pormenores que não se justificam 48 horas depois da abertura desta época oficial de 2017/18. Nada haverá a obstar à justiça da vitória benfiquista, a despeito de eu ser daqueles que pertencem à falange dos que não gostam muito de ver jogos de bola pelo prisma das justiças ou das injustiças, optando por uma versão mais essencialmente prática, assim à moda do Ministro da Educação de “Os Maias”, do imarcescível Eça. Isto é: não se olhe nunca para um desafio de futebol sem espreitar, inicialmente, pelo óculo do resultado.

O triunfo encarnado no encontro de Aveiro, a horas mais uma vez impróprias, convenhamos – aceite-se ou não o interesse público do veraneante que quer sair da praia o mais tarde possível para não desperdiçar a canícula –, alicerçou-se nuns dois ou três factos incontornáveis: aproveitamento puro e duro dos erros adversários, capacidade para pressionar a defesa do Vitória bem sobre a sua zona de saída de jogo; mais dinâmica e, somado a isso, capacidade de concretização na hora em que os avançados-centro se transformam em assassinos cruéis.

Ah! E Rui Vitória bem pode esfregar as mãos de satisfação íntima ao ter à disposição quatro pontas-de-lança como são Jonas, Seferovic, Mitroglou e Raul. Que luxo! Pode questionar-se se continuarão os quatro na Luz até ao fecho do mercado. Se assim não for, ele que os aproveite enquanto os tem.

A semana benfiquista promete ser dura, recebendo já depois de amanhã, em casa, o Braga para a primeira jornada do campeonato. E, logo depois, haverá uma cansativa viagem até Chaves. Os primeiros sinais foram dados de forma inequívoca, marginalizando para já, até por falta de espaço, a forma como a defesa minhota acumulou erros imperdoáveis que, como tal, Jonas, Seferovic e Raúl não perdoaram, tendo, por seu lado, Salvio sido um cristão da mais intrínseca pureza, ele que podia ter feito pelo menos dois golos fáceis.

Mais do mesmo

Estamos, como está bom de ver, numa fase de afirmação por parte dos jogadores dentro dos conjuntos que compõem. Há, no Benfica, dúvidas em relação a um ou outro lugar no onze, mas vem de trás um trabalho de sustentação que entra pelos olhos dentro como a claridade transparente de uma manhã de primavera. Para já, percebe-se que teremos uma versão equivalente à da época anterior, e isso é motivo de otimismo para os adeptos, evidentemente.

É nessa base de trabalho que assenta a filosofia de Rui Vitória e há que reconhecer que a confiança no labor que o levou a dois títulos consecutivos não pode deixar de ser estabilizante. Um jogo apenas não servirá de medida. Para já, o Benfica recupera a imagem dominadora que quiseram retirar-lhe depois das derrotas da pré-época. Veremos se a prolonga durante o que falta da semana. Se assim for, voltaremos a ter um favorito. E os outros que lhe assobiem às botas porque é mesmo assim que as coisas são, mais golo menos golo.