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Picareta. O maior símbolo do estalinismo reapareceu

Mais de seis décadas depois do assassinato de Trotsky, a arma utilizada por Ramón Mercader voltou a aparecer pela mão de H. Keith Melton

Picareta. O maior símbolo do estalinismo reapareceu

Nenhum outro instrumento simboliza tão bem o estalinismo como a picareta que o agente soviético Ramón Mercader usou para assassinar o revolucionário bolchevique Leão Trotsky, um dos líderes da Revolução de Outubro de 1917 e fundador do Exército Vermelho. Mais de sete décadas depois, o paradeiro da famosa picareta, que desapareceu pouco após o crime político, volta a ser conhecido. A arma vai estar disponível ao público no Museu Internacional da Espionagem, em Washington, no próximo ano.

“Trata-se, sem dúvida, de um objeto icónico, sem o qual o assassinato de Trotsky certamente não seria tão conhecido”, afirmou Eduard Puigventós, autor do livro “Ramón Mercader, o homem da picareta”, ao site do El País Brasil. E Esteban Volkov, neto de Trotsky, acrescenta que a picareta “tem uma importância enorme, tanto histórica como política”, por ser o “melhor símbolo do estalinismo”, que matou e enviou milhões de pessoas para campos de concentração.

A última vez que a famosa arma foi vista foi na conferência de imprensa em que as autoridades mexicanas a exibiram de modo fugaz, tendo, depois, desaparecido misteriosamente. No entanto, a picareta voltou a ver a luz do dia pela mão do colecionador norte-americano H. Keith Melton, que não revelou quando nem como nem de quem a obteve. Ainda assim, uma representante do museu admitiu que o objeto foi comprado a Ana Alicia Salas, filha de um agente dos serviços secretos mexicanos que acompanhou de perto as investigações do assassinato de um dos revolucionários mais “famosos e brilhantes do séc. xx”.

Sempre que um objeto histórico volta a aparecer, é fundamental comprovar a sua autenticidade – e a picareta de Mercader não é exceção. O colecionador norte-americano garantiu ter comprovado a autenticidade do instrumento de várias formas: um rasto de documentos que passaram para as mãos de Salas; por a picareta ter o símbolo do fabricante austríaco, um detalhe que não foi tornado público; e por ter as mesmas dimensões das registadas no relatório da polícia mexicana, para além de ainda ter a impressão digital marcada a sangue no seu cabo, idêntica à fotografia tirada na conferência de imprensa, em 1940.

Contudo, o neto do revolucionário voluntariou-se para dar sangue para atestar a autenticidade da arma sob a condição de esta ser doada à casa-museu de Trotsky, em Coyoacán, Cidade do México, pedido que lhe foi recusado. “Não tenho elementos para negar nem para confirmar a autenticidade do objeto, mas, pela sua procedência, é muito possível que ele seja autêntico”, considerou Volkov ao “El País”.

 

O assassinato político

A 20 de agosto de 1940, numa casa-fortaleza em Coyoacán, na Cidade do México, Jacques Mornard, suposto filho de um diplomata belga e namorado de Sylvia Ageloff, militante marxista-revolucionária da então recém-formada iv Internacional, entrou no escritório de Trotsky para lhe mostrar um artigo político que estava a escrever. O revolucionário bolchevique, então com cerca de 60 anos, anuiu, pegou no artigo e começou a lê-lo com toda a atenção, sentado à secretária. Monard, dando a entender que estava a seguir as notas que Trotsky ia escrevendo nas margens do artigo, colocou-se por detrás do revolucionário e desferiu-lhe um golpe de picareta na cabeça. Ouviu-se um grito que alertou toda a casa e seguranças. Várias pessoas entraram de rompante na sala e agarraram Monard, impedindo-o de desferir um segundo golpe. Porém, Trotsky estava mortalmente ferido, tendo aguentado mais de um dia numa cama de hospital até falecer.

Nas últimas horas da sua vida, o revolucionário manteve-se determinado e ditou tanto o seu testamento como artigos sobre estratégia política, num momento em que a humanidade vivia um dos mais mortíferos conflitos mundiais. Entre as frases ditadas, proferiu: “Morro com a certeza inabalável no futuro comunista da humanidade. Essa certeza dá-me hoje uma força que religião alguma me poderia dar.”

Jacques Monard não era mais que Ramón Mercader, estalinista espanhol convicto que combateu na Guerra Civil de Espanha e que tinha recebido ordens do KGB para assassinar Trotsky a mando de José Estaline. Mercader foi preso e condenado a mais de 20 anos de prisão. Aquando da sua libertação refugiou-se em Cuba, onde faleceu de cancro em 1978.

 

Trotsky vs estaline

Não poucas vezes, justifica-se a ordem de assassinato de Trotsky por Estaline com base na inimizade entre ambos. Ainda que esta existisse e fosse de longa data, a verdade é que a ordem teve razões essencialmente políticas. O primeiro defendia os interesses de uma burocracia, produto da guerra civil russa, do atraso económico e do isolamento, que se espelhava programaticamente no “socialismo num só país”, tanto na União Soviética como na política internacional. Trotsky advogava a “revolução permanente” e a desburocratização do Estado soviético, dando mais poderes aos trabalhadores. O assassinato de Trotsky sempre foi uma possibilidade para Estaline; no entanto, o panorama internacional, com a ascensão do nazismo alemão e o deflagrar da ii Guerra Mundial, acabou por transformá-lo numa necessidade, de modo a evitar que o seu rival fosse um eventual líder numa nova vaga revolucionária. Com a morte de Trotsky ficou comprovada a ideia que este tinha sobre o método de combate político de Estaline: “A violência bem organizada parece ser para ele a menor distância entre dois pontos.”

 

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