Sociedade

Julio Barea. “Portugal deveria denunciar Espanha de forma dura em Bruxelas”

Responsável pelas campanhas de água da Greenpeace Espanha, esteve envolvido num relatório recente sobre a seca muito crítico das políticas hídricas do governo de Mariano Rajoy  

O relatório de Greenpeace Espanha sobre a seca (“Sequía - Algo Más Que Falta de Lluvia”) acusa a política do governo espanhol de ser a causadora do atual estado dos principais rios da península Ibérica, ao “basear a política hídrica na oferta ilimitada de água” numa das zonas da Europa com mais problemas de seca. Para Julio Barea, ou se muda a política, se fecha o transvase que deixa o Tejo à míngua para levar a água para regar os desertos do sul, ou as consequências serão muito graves.

A seca na Península Ibérica é algo cíclico, porque razão esta seca e as que virão são diferentes do passado?

É verdade que as secas são recorrentes, são um fenómeno típico da Península Ibérica que se foi reproduzindo ao longo de milhares de anos e continuarão a produzir-se. Alguma coisa mudou? Com certeza que sim, mudaram duas coisas importantes, uma é que o impacto das alterações climáticas diz-nos que a Península Ibérica será a região europeia com maior incidência, sobretudo com aumento da temperatura e diminuição da precipitação. E, depois, pelo menos em Espanha, a política hídrica que se tem seguido é a de satisfazer qualquer uso, qualquer demanda de água, por mais louca que seja. Por exemplo, há duas semanas, anunciava-se com estardalhaço a construção em Alovera, na bacia do Tejo, numa zona que está em seca, a construção da maior praia fluvial da Europa. Isso é mais uma demonstração da irracionalidade com que se está a gerir a política hídrica espanhola. Ainda não estamos oficialmente em seca em toda as Espanha e temos as barragens apenas com 37%. O que vai acontecer se isto continuar? Vamos ter que fazer alguma coisa porque sem água não sobrevive ninguém.

No relatório que publicou sobre a seca, a Greenpeace diz que a gestão hídrica em Espanha continua a ser uma gestão do século passado…

Como sabe a Espanha é o país da Europa com o maior número de represas ou de barragens, continua a ser o país do mundo com maior número de barragens per capita. É uma loucura, temos mais de 1300 grandes barragens e um número indeterminado de açudes. Temos todos os rios compartimentados e praticamente artificializados, isto é muito mau. Não dizemos que as barragens são um mal per se, mas os rios necessitam circular, escorrer, porque deles nos abastecemos e trazem-nos benefícios sociais, económicos e ambientais. São capazes de diluir a contaminação, são capazes de transportar sedimentos, são capazes de manter muitas atividades económicas associadas que em muitos sítios se perderam. Exemplos: no Guadiana, que é também um rio que partilhamos, Badajoz já perdeu a sua praia fluvial; em Toledo, as pessoas também não podem tomar banho; no Douro, está a passar-se o mesmo. O Tejo ou o Douro são como a catedral de Burgos, é um bem, neste caso natural, que deveria ser conservado e não o estamos a fazer. Estamos a fazer uma muito má gestão sabendo que a Península Ibérica é uma região muito pobre em água, mas vivemos como se fosse a península escandinava.

E fala-se em mais transvases.

Sim, continua a falar-se em mais transvases, em interligar as bacias. Em Espanha, há 16 transvases reconhecidos, sendo o maior o transvase Tejo-Segura, que está agónico, não circula água, porque não há. Esta não é a solução, porque não sobra água em nenhum lado. Essa ideia de que sobra água que se perde no mar é uma visão hídrica do século passado. É preciso um pensamento hídrico de manutenção dos ecossistemas, porque são eles que nos darão água em quantidade e qualidade. Estamos a matar a galinha dos ovos de ouro. Logicamente que, para as grandes construtoras, que são quem faz estas obras, é um mercado redondo, um negócio fantástico. Agora o governo pôs em cima da mesa uma coisa muito populista e que lhe pode trazer votos que é o novo Pacto pela Água. Que Pacto pela Água? Se temos uma Diretiva Quadro da Água muito boa que estabelece tudo o que temos de fazer para manter em bom estado ecológico as massas de água superficiais e em bom estado químico as subterrâneas e como lutar contra a seca e não estamos a aplicá-la, fazemos um pacto para quê? Para fazer mais obras hidráulicas? Se temos 1300 barragens no país, deixa de chover três meses e já não temos água! Não é solução. É preciso limitar, controlar e ter bem identificado o consumo de água que temos.

A política agrícola de Espanha é responsável pelas carências de água?

Completamente. Em Espanha, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de 2015, 84,5% da água é consumida pela agricultura. Não estamos a dizer que a agricultura é o grande inimigo, porque os pequenos agricultores são os primeiros que sofrem o impacto e não as agroindústrias, que têm as costas bem protegidas. Aí é que é preciso intervir, fazendo uma política muito mais sensata, com uma agricultura sustentável, mais inteligente e mais adaptada ao clima, sobretudo em relação às expectativas de clima que iremos ter.  Não me parece normal que estejamos a plantar dezenas de milhares de hectares de milho, que é um cultivo que necessita de 12 mil metros cúbicos por hectare de água e é próprio de climas tropicais, não se pode plantar isso no país mais árido ou semiárido da Europa!

O governo espanhol continua a usar a exigência dos agricultores como argumento para este Pacto da Água.

O governo usa o que lhe convém. Sempre que se construíram barragens usaram essa desculpa. E nunca se escutaram as pessoas cujas povoações eram expropriadas ou que acabavam com a sua atividade económica. A Diretiva Marco da Água diz que, por qualquer nova obra hidráulica feita, que custa muito dinheiro, o seu preço deve repercutir-se integralmente no preço a pagar pelos utilizadores dessa água. Não como agora, em que todos pagamos a água subsidiada.

Mas parece-lhe que a situação como está…

que é insustentável…

…vai obrigar a mudar as políticas?

É, como em tudo, quando há uma crise, as mudanças chegam de repente. No sentido em que já não se vai poder aguentar mais e as mudanças serão muito drásticas e traumáticas. Se tivéssemos vindo a fazer mudanças progressivas ou mais adaptadas, os impactos seriam menores. Os políticos só conseguem pensar a quatro, oito anos no poder e, como se pode imaginar, estas políticas novas são politicamente incorretas e até podem fazer perder votos. Como tal, continuam a usar o business as usual, empurram as coisas com a barriga, que já virá alguém mais à frente que resolva as coisas por eles.

Estando tudo centrado na questão da seca, não lhe parece que assim que começar a chover se esquecerão de que o problema continua?

Sim. Já aconteceu noutras alturas. No entanto, dizem os especialistas que esta seca, também por culpa das alterações climáticas, é a mais grave de sempre em Espanha ou na Península Ibérica. Com o qual esperamos que algo mude. A partir do momento em que as grandes cidades como Madrid tenham de passar por um racionamento de água será uma catarse. Mas não queríamos ter de chegar a isso, podemos fazê-lo antes. Uma seca não se gere agora que não temos água. E estamos a fazer sempre isso, a gerir quando o copo está vazio.

E no sul continua a pedir-se mais água.

E 30 povoações do Alto Tejo já estão a ser abastecidos com camião cisterna e no sul continuam a vender piscinas e a regar os campos de golfe. É preciso gerir bem o que se tem. Publicámos um relatório no mês de agosto demonstrando que a bacia do Segura bem gerida, com os seus próprios recursos, podia funcionar sem uma gota do rio Tejo. Em três anos pode deixar de estar ligada à do Tejo. Neste momento, o Segura está seco e não param de aumentar os regadios ilegais. Apresentámos o relatório a 24 de agosto, a 23 de agosto, os nossos companheiros de ANSE (uma associação ecologista de Múrcia) e da WWF denunciavam que, no município de Múrcia, se haviam ampliado 135 hectares de regadio, inclusivamente numa zona de paisagem protegida. Como é possível? De onde sai a água?

A situação do Tejo é irrecuperável?

Felizmente, os rios são muito agradecidos. Se deixamos de os pressionar, recuperam-se em pouco tempo, mas é preciso deixá-los. Não é assim com os aquíferos que, uma vez contaminados, são muito difíceis de recuperar. Com estes é preciso ter cuidado redobrado porque são as reservas estratégicas para um futuro que já está aqui, sobretudo no interior da península.

Mas não parece que haja essa vontade para deixar o Tejo recuperar?

O transvase Tejo-Segura está neste momento blindado por diferentes leis reais e decretos, queriam que fosse intocável.

Espanha está a cumprir com os acordos que tem com Portugal em matéria de gestão dos rios internacionais?

Não. Só o cumpre em parte. Como está definido por caudais ao ano, esses caudais passam quando há água em Espanha, não passam como devia, todos os meses, mas de repente são capazes de passar tudo num mês. E depois está a qualidade da água que chega a Portugal que é deplorável. A comunidade de Madrid, com os seus 7 milhões de pessoas, deita as suas águas negras mal tratadas aos rios que afluem ao Tejo. E Portugal denunciou-o várias vezes, inclusivamente denunciou o transvase.

Portugal deveria pressionar mais Espanha?

Deveria. Portugal deveria levar o caso a Bruxelas, isto é um incumprimento flagrante e muito grave em termos ambientais. Um incumprimento da diretiva e dos convénios internacionais. Portugal deveria denunciar Espanha de forma dura.

Acha que a União Europeia (UE) deveria fazer mais para obrigar o governo espanhol a aplicar a diretiva?

Sim e os grupos ecologistas espanhóis têm-no denunciado muitas vezes. A Comissão de Meio Ambiente e a Comissão de Petições da UE têm uma enorme pilha de denúncias, acho que Espanha é o país com mais denúncias em matéria ambiental.

E não acontece nada?

Não. Sancionaram Espanha recentemente por causa de águas residuais, mas numa coisa que já era de bradar aos céus. O resto deixam passar, é preciso ter em conta que também em Bruxelas há políticos espanhóis.

Portugal diz que quer mudar a gestão conjunta dos rios internacionais, parece-lhe que o governo espanhol tem abertura para essa mudança?

O governo espanhol tem de ter, mas acima disso está o seu pacto político chamado de Pacto Nacional para a Água. Correu-lhe bem em Múrcia aqui há uns anos com o “água para todos”, uma campanha que mobilizou todos os partidos e que lhe deu muitos votos. E agora estão a tentar recuperar isso, que é um pouco uma versão a nível estatal da água para todos.

A situação do Tejo pode mudar se continuar o transvase?

O transvase Tejo-Segura tem que fechar. Já não só por uma questão ecológica, também por uma questão de justiça social.

E parece-lhe que o farão?

Castilla La Mancha defende o encerramento e vai levar o caso à justiça, usando o nosso relatório como prova pericial. Mas há aqui uma luta política terrível.

Se se concretiza este Pacto para a Água, a situação para Portugal pode ficar ainda mais grave?

Sim, porque se fala em mais transvases, inclusivamente do Tejo.