2018. O QUE O ANO NOVO PODE (OU NÃO) TRAZER?

Dois mil e d'Os Outros, Diana Duarte

Não sou boa a fazer futurismo, a escrever ficção ou a verbalizar sobre algo que nunca vi. 


A escrita sai-me menos mal quando vem da memória e eu nunca vi 2018. Já cá estou, mas nunca o vi e o máximo de futurologias que fiz foram alguns sonhos que acabaram por se realizar. E se o futuro é sonhar com peso e medida, venho fazer uma proposta. Façamos mais exercício. 

“Não tenho ido ao ginásio, mas olha que todos os dias faço 45 flexões”, diz-me alguém querido, em forma de bullying para ver se me mexo. Respondo-lhe que todos os dias faço pelo menos 46 reflexões. Se calhar é reflexão a mais. Mas a reflexão é a minha maior proposta para 2018. 

Refletir mais sobre nós e sobre os outros. (Interiorizando que para o fazer temos de recorrer a um exílio de quando em quando). Parar mais. Exigir-nos mais tempo a sós. (Atenção aos corcundas das redes sociais, estarmos sozinhos com um telemóvel não conta). 

Vivemos num tempo sem presente. Andamos demasiado ocupados a documentar a nossa existência. É provavelmente o maior erro da contemporaneidade. Ter pouco tempo para pensar. Sei que agora tornei as coisas mais pomposas ou talvez só mais enfadonhas, mas pensar é o estágio seguinte a refletir. E, reconsiderando, é esta a minha proposta para 2018. Exercício mental. Pensar por exercício.

Pensar é válido nos temas fraturantes, como a legalização da canábis em 2018, e urgente na forma como tratamos os outros. Notando que pensar mal sobre os outros – desconhecendo o que são, o que sentem ou como estão – é também uma forma de os maltratar. As pessoas precisam de pertencer a um clube. A um partido. A um ajuntamento (a um conglomerado de máximas pré-estabelecidas.). De não gostar das pessoas que os nossos amigos escolhem não gostar. Quando não gostamos de alguém porque um amigo não gosta, devemos repensar que grau de maturidade atingimos à hora dessa dor que acolhemos como nossa. Acho mesmo que a única forma de liberdade é vivermos uma vida ao nosso ritmo e não nos deixarmos cair em ritmos que não são os nossos. Ámen. 

As pessoas passam vida a engavetar-se e a asfixiar-se na definição de si próprios e depois estranham quem não tem uma gaveta onde se enfiar. A pior não-curiosidade que podemos acalentar é a não-curiosidade sobre nós próprios. As pessoas têm medo de se conhecer. Que frase tão kitsch. As pessoas nem sequer sabem que não se conhecem. Tivessem ao menos essa noção. Não é egocentrismo. Se é comigo que vou conviver até ao fim dos meus dias, que ao menos me conheça. E como é que nos conhecemos? Exige esforço? Vou cansar-me muito? Exige. Vais. É cansativo. E é um diálogo constante, quase diário. É pôr muitas coisas em questão todos os dias. Se pudesse fazer outra proposta seria perguntar. Perguntar muito e sem contemplações, mas contemplando.