Opiniao

Não! Não caiam nessa!

Puskás tinha uns pés pequeninos. Inusitadamente pequenos. Mas um segredo: o esquerdo era maior do que o direito

Acho que entrei na velhice de forma oficial. Não porque tenha, mais uma vez, caído na asneira de fazer anos recentemente, revelando com isso, tal como dizia João de Deus, não parecer ter muito miolo, mas porque cada vez mais ando a vasculhar pelos bolsos os óculos que me esperam encavalitados na testa. E isto não pode deixar de querer dizer algo de muito sério.

Assim de repente, lembrei-me de Lúcio Cardozo. No dia em que fez 50 anos irritou-se: «Não sei como isto me foi acontecer! Logo a mim que tenho um talento tão grande para ser criança…».
Faltar-me-á o talento de Lúcio para ser criança, mas acreditem que – a despeito da minha inaugural declaração de vetustidade – ainda me divirto como um miúdo a vasculhar jornais antigos, pobres deles tão mais velhos do que eu.
Enfim: um vício.

Embora acrescente, em minha defesa, que ainda não passei a fase de substituir a idade por uma obscenidade.
Portanto, estava eu a ler jornais antigos, quando por entre a prosa luminosa do meu bom amigo e mestre Luís Alberto Ferreira, dou de caras com Puskás. Isto é, uma história de Puskás que me fez lembrar de outra história passada num estádio único em Portugal que se situava no terraço da Drivimpe, à Cidade de Bolama, nos Olivais Sul da minha adolescência, e que levava por nome Maracangalha.

Parece que o bom do Ferenc Puskás, o elegante Major Galopante, tinha uns pés pequeninos, mesmo pequeninos, de tal forma que nem sempre era fácil encontrar chuteiras que lhe assentassem como luvas, logo a ele que tinha uma espécie de pés que funcionavam como mãos. E tanto assim era que fazia apostas arriscadas. Uma delas era colocar pinos ao longo do relvado, metro a metro, e meter uns cobres em jogo se conseguisse deitá-los abaixo consecutivamente com o pequenino pé esquerdo que era o melhor dos seus dois pequeninos pés que pareciam mãos. O seu colega no Real Madrid, Don Alfredo Di Stéfano, não se metia em tais apostas. Dizia a propósito: «Ese hijo de puta!? Tem uns pés tão pequenos que parecem caixas de fósforos e faz com eles o que lhe apetece».

Tirando a referência à senhora que o deu à luz em Budapeste no dia 1 de abril de 1927, até que era um belo elogio.
Puskás foi sempre assim um pouco para o gorducho. Correr não era bem com ele. Mas, lá está, tinha aquela engenharia esquerdina que punha a bola onde lhe apetecia. Que corressem os outros e ela surgia-lhes à frente, redondinha, alegre como um cachorrinho vadio. No dia em que conheceu Raul, avançado do Real tão mais novo do que ele, avisou-o: «És um grande jogador, mas corres demasiado depressa».

Cair no cimento do Maracangalha não era nada bom para os joelhos e cotovelos da malta. Provocava rasgões, feridas, crostas posteriores que levavam ao arrancar das mesmas e à repetição aborrecida de todo o processo. O meu amigo João Matias, hoje em dia desterrado noAlentejo, mais conhecido por Facadas nos meios olivalenses, era um guarda-redes temerário, cimento e tudo. Um dia – e aqui já a velhice entretanto estabelecida dá pontapés na memória – derrubou um adversário com inusitada perversidade, coisa que nem era nada do seu género. Perante o espanto do caído em combate, encolheu os ombros: «Tu corres muito...».

Voltando a Puskás, conta-se também que rapidamente se adaptou à linguagem desbragada de certos bairros de Madrid. Irritado por um passe mal medido que lhe foi dirigido por um companheiro menos dotado, ficou furioso. Foi-se a ele de dedo espetado no nariz: «Hijo de puta, cabrón! De cada vez que me passares a bola, passa-a como deve ser! Se não sabes fazê-lo com o pés, fá-lo com as mãos!»

A questão é mesmo essa: nem todos, como Puskás ou Di Stéfano, tinham mãos no lugar dos pés. 

Quem diria que Ferenc Puskás, o Major Galopante, já morreu há doze anos? E que todos os grandes do seu tempo, tirando Pelé e mais um ou outro, correm com a bola colada aos pés pela planície da eterna saudade? É o que dá essa brincadeira tola de fazer anos da qual falava João de Deus. Por mim não os faria se não me apanhassem sempre desprevenido nesse dia de janeiro em que acordo mais velho.

Sobra-me a nostalgia dos jornais antigos e um monte de amigos mortos que ainda não tive tempo de arquivar devidamente. Desta vez calhou-me o estranho mistério dos pés de Puskás. Pareciam caixinhas de fósforos, mas o esquerdo era definitivamente maior do que o direito. E, de súbito, como um passe para o golo definitivo, uma réstia de memória que me faz recitar de cor a infância de Pessoa: «A criança que fui chora na estrada./Deixei-a ali quando vim ser quem sou;/Mas hoje, vendo que o que sou é nada,/Quero ir buscar quem fui onde ficou».

Anos? Não caiam nessa...

afonso.melo@newsplex.pt