Internacional

A água está a acabar na Cidade do Cabo

O futuro do planeta pode ser antecipado na Cidade do Cabo, onde a água está chegar ao limite e já se pensa no caos.

A seca que atinge a grande e cosmopolita Cidade do Cabo é uma antecipação do futuro que nos espera, quando as alterações climáticas e o crescimento demográfico começarem a pressionar de forma dramática as reservas de água potável no mundo. A segunda maior área urbana da África do Sul (com quase quatro milhões de habitantes), a seguir a Joanesburgo, está a braços com uma seca que diminuiu os níveis de água para abastecimento humano até limites críticos. Tão grave é o problema que já se fala no ‘day zero’, o dia em que as reservas se tornarão tão críticas que a água deixará de correr nas torneiras para abastecer a população.

Os turistas que chegam à Cidade do Cabo são recebidos no aeroporto com avisos dramáticos: «Restam 135 dias de água, poupe água já». Se não chover, o ‘dia zero’ chegará em Abril – a última previsão é 12 de abril. Nessa altura, a área metropolitana sul-africana transformar-se-á no primeiro grande aglomerado urbano do mundo a ficar sem água.
Em alguns hotéis, algumas torneiras foram retiradas para os hóspedes não tomarem banho de imersão, ao mesmo tempo que as piscinas foram tapadas ou passaram a usar água dessalinizada ou reciclada, o minibar foi esvaziado de água engarrafada e os lençóis são mudados apenas de três em três dias.

«Ninguém deverá tomar duche mais de duas vezes por semana nesta altura. Devemos poupar água como se a nossa vida dependesse disso, porque depende», afirmou Helen Zille, chefe do governo provincial. A própria confessou, num vídeo colocado na sua página na internet, que toma banho apenas de três em três dias.

Com os seis principais reservatórios que abastecem a cidade a 25,9% da sua capacidade depois de três anos de seca, os habitantes do Cabo vão sonhando com chuva enquanto racionam a água, ao mesmo tempo que o sol lhes lembra todos os dias que a data fatídica está a chegar, o dia em que as reservas que servem a cidade ficarem abaixo dos 13,5%.
Se a situação atingir esse nível dramático, o serviço público de água será cortado e a mesma passará a ser distribuída de forma racionada em 200 pontos designados pela cidade – cada cidadão terá direito a 25 litros por dia, metade da dose atual (até ao final de janeiro as pessoas só podiam consumir 87 litros diários, limite que foi reduzido para 50 a 1 de fevereiro). Teme-se que, chegados a esse momento, a tensão possa transformar-se num problema de segurança pública. «Quando o dia zero chegar terão de chamar o exército», dizia um morador ao repórter do New York Times enquanto enchia bidões de água numa nascente.

Para Francesco Femia, copresidente do Centro para Alterações Climáticas e Segurança dos Estados Unidos, os governos continuam a não encarar as alterações climáticas como um problema de segurança nacional e a verdade é que deveriam.
As situações de clima extremo, os períodos longos de seca «podem levar ao deslocamento de pessoas, o que poderá aumentar a pressão em áreas urbanas, que por sua vez poderá colocar pressão em problemas políticos já existentes e que poderão causar tumultos políticos e possíveis conflitos», disse o especialista, citado pela Wired. Como afirmava o antigo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, «muitas vezes, onde precisamos de água encontramos armas».

O governo do Cabo até está entre aqueles que mais preocupações têm em matéria de sustentabilidade dos recursos, tendo ganho em 2014 um prémio de «implementação de adaptação» da C40, a rede de megacidades comprometidas em lidar com as alterações climáticas. Naquele ano, as barragens estavam cheias, depois de um ano prolífico de chuvas, e a Cidade do Cabo merecia ser recompensada pela sua gestão da água.

Três anos de seca depois, os responsáveis veem-se perante uma situação preocupante, apesar de todo o bem que pareciam ter feito. Só que com as barragens cheias e o prémio nas mãos, os responsáveis foram menosprezando a necessidade de buscar fontes alternativas de água além das seis barragens que dependem da chuva. Segundo o New York Times, já em 2007 o Departamento de Assuntos de Água da África do Sul avisara que a cidade precisava de mais fontes de água subterrâneas, centrais de dessalinização e outros recursos para diversificar as reservas e minimizar os riscos trazidos por períodos de seca prolongados. E 2017 foi o ano mais seco de que há registo na cidade sul-africana.
A única gota de esperança para os habitantes da cidade é deixada por Kevin Winter, do Future Water Institute da Universidade da Cidade do Cabo, no site da universidade, num texto intitulado «Cinco sinais de que o Dia Zero pode ser evitado».

Como o fornecimento de água à agricultura já começou a ser cortado porque os 58 milhões de metros cúbicos estabelecidos como limite máximo foram atingidos, haverá mais água para as populações. A entrada em vigor em fevereiro de novas tarifas e de multas para quem desperdice água é outro dos fatores que Kevin Winter considera capazes de retardar a descida dos níveis das barragens. A estas duas somam-se os sete projetos em construção para aumentar as fontes de fornecimento: quatro centrais de dessalinização, duas unidades para trazer água de aquíferos e uma de tratamento de efluentes.

Quanto aos outros dois sinais, são mais manifestos de esperança do que marcas capazes de serem interpretadas como verdadeiros indícios de que a situação poderá inverter-se e o ‘dia zero’ não chegar mesmo a acontecer.

Chuva e confiança, escreve Winter. «É ainda muito cedo para prever a precipitação regional do inverno para 2018, mas como já nos desapontamos tantas vezes temos tendência a esquecer que ainda chove no Cabo Ocidental». E mesmo uma chuvinha de verão, não sendo suficiente para encher as barragens (que poderão demorar até três anos para chegar à sua capacidade máxima), poderá empurrar a chegada do ‘dia zero’ para mais tarde. Até à chegada da época das chuvas.

Quanto à confiança, deve-se ao facto de a situação dramática que a cidade atravessa ter feito com que governantes e cidadãos se empenhassem mais na gestão da água. «Os dias de procrastinação deram lugar a planos e projetos que lidam com a crise a curto prazo e a estratégia a longo prazo, que chega até 2022», escreve.

Aquilo que Winter, no seu otimismo não refere, é que muita da discussão política se tem centrado mais na atribuição de culpas pela situação de crise e menos sobre o direito dos cidadãos ao acesso à água. Mesmo assim a cidade está a aprender à força que até quando se fazem as coisas bem e se é elogiado pela gestão sustentável, os desafios colocados pelas mudanças no clima colocam novos desafios que precisam de ser atendidos com vistas mais largas que a mera gestão do dia a dia.

«A natureza não está particularmente disposta ao compromisso. Haverá secas graves. Quem não se preparar para isso é derrotado», afirma, ao New York Times, Mike Muller, antigo diretor do Departamento de Assuntos de Água da África do Sul.

A crise de água na Cidade do Cabo poderá ter o efeito positivo de nos mostrar como será o futuro se continuarmos a consumir água como até agora – o uso de água tem aumentado mais de duas vezes o ritmo de crescimento da população. Segundo o World Wildlife Fund, se mantivermos este ritmo, em 2025 dois terços da população mundial enfrentará períodos de falta de água e 1,8 mil milhões de pessoas viverão em zonas com escassez absoluta.

«As mudanças na disponibilidade de água terão impacto na saúde e na segurança alimentar e já demonstraram que podem desencadear dinâmicas de refugiados e instabilidade política», escrevem as Nações Unidas.

«O mais frustrante é a falta de informação pública», afirma ao Financial Times a ativista Vivienne Mentor-Lalu, sobre a situação na Cidade do Cabo. «Ninguém sabe ao certo como é que o ‘dia zero’ irá funcionar na prática», acrescenta.