Work 4.0. Rei, presidentes, especialistas e a inteligência artificial

O XII Encontro Europeu da COTEC realizou-se na quarta- -feira, no sítio do “Memorial do Convento”, para discutir o futuro do trabalho na quarta revolução tecnológica

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que “para uma economia 4.0 é necessário uma União Europeia 4.0, instituições políticas 4.0 e uma sociedade 4.0”. As declarações do Presidente foram feitas durante a COTEC Europe Summit 2018, realizada sob o lema “Work 4.0, Rethinking The Human-Technology Alliance”.

A iniciativa contou com as intervenções do rei de Espanha, Felipe VI, do presidente de Itália, Sergio Mattarella, do comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, da secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehman, de vários especialistas, empresários e de dirigentes da COTEC.

Os participantes começaram a chegar cerca das 8h30, ao Palácio Nacional de Mafra, devido às medidas de segurança. Quando os primeiros se credenciaram, a força da GNR no local debatia-se com um portal eletrónico, para detetar objetos suspeitos, que não funcionava. À boa maneira nacional, enquanto o “4.0” não funcionou, os militares procederam a uma deteção com dispositivos manuais, auxiliados por um cão que farejava explosivos.

Pontualmente, às 9h30, os trabalhos começaram, coube a primeira intervenção ao ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, que historiou as fases da última revolução tecnológica em que vivemos, a partir da introdução dos computadores pessoais na década de 80. Notando que esta mudança só teve efeitos percetíveis a partir dos anos 90. O titular da pasta da Economia sublinhou que o rápido desenvolvimentos das tecnologias que se seguiu – com a Internet e a robótica, e agora com o limiar do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) – são mudanças que merecem uma séria reflexão. Se até agora o desenvolvimento tecnológico não veio destruir emprego, “criando milhões de novos empregos”, segundo Caldeira Cabral, “as alterações tecnológicas, associadas à globalização, tiveram o efeito de aumentar as desigualdades de rendimento”. Nesse sentido, o ministro defendeu a necessidade de traçar políticas que permitissem democratizar as potencialidades desta quarta revolução industrial.

Seguiram-se duas mesas redondas: uma com os diretores gerais da COTEC Portugal, Espanha e Itália; e outra com o convidativo título: “Um futurista, um sociólogo e um humorista num diálogo sobre o Work 4.0”, com a participação do diretor do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, do sociólogo e investigador dos CES, e ex-secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva e do cómico Eduardo Madeira.

O especialista em ciências da computação começou por declarar-se preocupado com a designação que lhe deram de “futurista”, porque temia que essa condição, se vista como profissão, o levaria rapidamente ao desemprego: “dado que o futuro já está a acontecer”. Arlindo Oliveira manifestou-se em desacordo com quem defende que as grandes descobertas fundamentais tivessem sido feitas nos anos 20 do último século e que agora apenas haveria alguns ajustes a nível da tecnologia. “Estou convencido que nos próximos 50 anos vão suceder descobertas tão ou mais importantes que no século passado”.

O professor do IST sublinhou a importância do desenvolvimento no setor dos Big Data, a alteração do binómio capital versus trabalho pela erupção do conhecimento, e naturalmente, o desenvolvimento da IA. Para o cientista, vivemos num mundo em que as máquinas passam a aprender e tornam-se capazes de fazer uma série de funções. O que obriga a sérias mutações no trabalho. Há profissões que tenderão a desaparecer e os trabalhadores têm que produzir de uma forma flexível. Este mote permitiu a Carvalho da Silva colocar uma série de questões, dizendo que a confusão entre tempo de trabalho e outros tempos de vida era um recuo: “As pessoas devem ser donas do seu tempo, e não podem ser obrigadas a abdicar do seu tempo com a família, de lazer e cidadania”. Para o sociólogo o aparecimento desta nova economia deve ser regulada: “Regular não significa obstaculizar, mas normalizar e democratizar”, justifica.

O cómico Eduardo Madeira lembrou o romance de Philip K. Dick “Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”. Notou que nesse momento, em que sonham, passam a ser mais que máquinas.

Não perder tempo Seguiu-se uma mesa redonda em que participaram empresários portugueses, italianos e espanhóis; e a intervenção da secretária de Estado da Indústria, que saudou o encontro dizendo que “em seis meses no cargo nunca tinha ficado numa conferência até ao fim com a sensação que não tinha perdido tempo”.

Com a entrada dos chefes de Estado de Itália, Espanha e Portugal, abriu-se o segundo período da manhã: o comissário Europeu Carlos Moedas foi entrevistado, em palco, por um editor do “Financial Times” John Gapper. Moedas fez notar que se prevê que 55% das profissões que terão os adolescentes que hoje estudam, ainda não existem. O comissário não acredita que as máquinas sejam um perigo: “Nós não vamos ter robôs que nos substituam, porque eles são o que nós queremos que eles sejam”.

Na intervenção da organização, Francisco Lacerda, presidente da COTEC Portugal, sublinhou a necessidade de adaptar o trabalho à revolução tecnológica: “A transformação do trabalho é condição determinante para que a economia e a sociedade possa beneficiar verdadeiramente dos avanços tecnológicos”.

Chefes de Estado A jornada acabou com as intervenções dos chefes de Estado, com o presidente de Itália a fazer uma das intervenções mais prudentes. Sergio Matarella considera que são vários os desafios que coloca a revolução tecnológica que, transformando uma economia tradicional em digital e potencialmente ilimitada, terá efeitos no mercado de trabalho e na sociedade que ainda não são possíveis de avaliar. Para ele, cabe às instituições democráticas, fazendo com a sociedade um balanço, construir uma nova educação, arranjar formas de compensar a perda de empregos e evitar que a revolução digital produza mais desigualdades no mundo.

Mais otimista e poliglota foi o monarca espanhol, Felipe VI, que falou em português, italiano e castelhano, considerou que não se pode embarcar nem no medo em relação ao que se está a viver, nem num otimismo acrítico. Mas que, tal como no passado, as história das revoluções tecnológicas demonstram que é sempre possível no quadro do progresso e da democracia ultrapassar alguns efeitos nefastos destas grandes transformações. “É certo que o aparecimento de novas indústrias gerou, temporariamente, bolsas de precariedade e exclusão, mas que a seu tempo, depois de analisadas, acabariam por ser corrigidas”, afirmou convicto que com uma grande aposta na educação, mais flexível e adaptada aos desafios do futuro, será possível minorar os efeitos colaterais da grande transformação que hoje vivemos.

Na última intervenção dos trabalhos, o Presidente português começou por assinalar o simbolismo do local do encontro, o Palácio Nacional de Mafra, “construído no século XVII, para exprimir a unidade entre o universalismo, o espírito europeu, o saber e a estratégia, simboliza bem o que nos une e o que nos desafia neste tempo de tão elevadas esperanças e tão pesadas angústias”.