Cultura

Fernanda Torres. “Considero a palavra celebridade uma ofensa, confunde realização artística com fama”

A atriz fala de teatro, política, herança familiar, elogia o fracasso

O seu livro “A Glória e seu Cortejo de Horrores” começa com uma dedicatória à sua mãe, mas usa os dois nomes dela, o próprio, Arlette Torres, e o pseudónimo, Fernanda Montenegro. Porquê?

Uma, porque é minha mãe, que é a Arlete; e outra, porque é a atriz, com quem eu convivi a vida toda e depois foi a minha colega em cena. Eu sou filha de um caso de esquizofrenia, de uma personalidade dupla, por isso é que indiquei as duas.

Porque diz que é um caso de esquizofrenia? A sua mãe é mesmo duas pessoas diferentes?

Acho que sim, acho que tem duas pessoas ali, sim. É claro que uma formou a outra, mas o que a Arlette se transformou é impensável. Eu não sei como é que a Arlette inventou a Fernanda Montenegro, porque ela era uma menina de subúrbio, do Rio de Janeiro, filha de operário, e decidiu ser atriz. É viagem muito impensável. É da própria profissão do ator essa divisão, o conseguir desdobrar--se em mais de um.

Mas a Fernanda Montenegro foi um pseudónimo inventado pela sua mãe... 

Que acabou se tornando… Ela trabalhava em rádio e adaptava livros a programas de rádio-teatro, e tinha que ter um nome diferente, aí ela escolheu esse nome porque achou que lembrava o Conde de Monte Cristo. E é impressionante... hoje, as pessoas a conhecem como Fernanda. Também é um caso interessante de uma pessoa que cria um nome que depois se apropria dela mais do que ela do próprio nome.

Ela existe como essas duas pessoas ou é uma com dois nomes?

Eu acho que existem essas duas entidades, sim, a da Arlette, que é a privacidade dela, e a Fernanda Montenegro, que é a figura pública.

Já contou em várias entrevistas e nesta dedicatória dá a entender que o título do livro é uma frase que ela lhe disse várias vezes. Ela ensinou-a a lidar com a glória?

Isso são coisas que aprendi sozinha. Quando você tem um grande êxito, você é tomado de uma alegria, às vezes de uma prepotência. Eu tive isso algumas vezes na vida, é um misto de alegria e de uma sensação de potência. Às vezes é algo que te cega. Demora um tempo para aprender a lidar com a entressafra, que é a hora em que isso baixa ou que tem um fracasso, porque não há a vida de um artista sem esse grau que é a entressafra, sem o vazio do meio. É impossível para o ser humano viver em eterna alegria ou em eterna depressão, senão é uma doença. Então, isso é uma coisa que você aprende na pele, na vida não há conselho que te deem.

E como é que foi chegar a essa glória de ter um prémio de interpretação em Cannes ainda com 20 anos?

Foi um momento muito importante para mim, principalmente no Brasil, porque me deu uma espécie de selo de qualidade, mas, ao mesmo tempo, é curioso porque foi uma época no Brasil em que o cinema acabou. Fiz três filmes em Portugal e um filme no México, quase exilada. E aí a vida é sempre surpreendente. Eu fui fazer teatro, fui fazer o “Orlando”, da Virginia Woolf, com um grupo de teatro jovem. Ensaiámos seis meses no subúrbio do Rio de Janeiro antes de estrear e de fazer no Brasil todo. Então é curioso, porque na hora em que ganhei o prémio foi justamente a hora de voltar para dentro do teatro. Não tem lógica, sabe?! Voltei à vida de não ter garantias.

É como se lhe tivessem dado a glória e lha tivessem tirado...

Não, porque, na verdade, graças a Deus que fui fazer teatro! Eu vim do teatro, depois trabalhei um período grande no cinema, mas eu aprendi mesmo a fazer teatro a partir do “Orlando”. Então, se eu não tivesse ido para ali, eu não teria aprendido uma parte imensa da minha vida. Então, não é que fui para o fracasso, fui para outro lugar.

Quer dizer que, se depois do prémio tivesse havido mais filmes, podia ter sido outra pessoa?

Não, talvez pudesse ter-me repetido até ter que aprender a me reinventar em outro lugar; talvez ficasse mais dependente de convites. O teatro dá muita independência a um ator, porque é o lugar onde você se pode produzir e escolher o que quer fazer. O cinema é sempre enorme, a televisão é uma indústria, mas um ator no teatro é independente. Isso é uma lição que tive dos meus pais, não por eles ma darem, mas por eu ver - eles fizeram no teatro a independência artística deles. Então, foi uma época importantíssima para mim. Aprender a me mover no teatro deu-me uma independência de escolha a vida inteira. Talvez no cinema eu ficasse eternamente dependendo que alguém gostasse de mim; no teatro, não, você gosta de você mesmo. É você que se produz.

O prémio de melhor atriz no Festival de Cannes é o seu momento de glória; quais são os horrores que teve ao longo da carreira?

Ah, fracassos incríveis! Há mesmo momentos de infelicidade profissional, às vezes, até com o sucesso. Agora, eu sou muito apegada aos meus fracassos. Eu fui fazer um filme no Xingu [região amazónica no estado do Mato Grosso] com o Ruy Guerra, um filme que queria muito fazer. Fiquei acampada três meses no Xingu, ao lado de uma tribo de índios. Era uma coisa que eu estava louca para fazer e, quando lá cheguei, não foi bom. Eu me lembro que estava tão desesperada. A gente foi para um mês de filmagem, mas a produção se complicou e fiquei lá quase três. Vivendo numa barraca, num acampamento de 100 homens brancos - era uma coisa louca. Na hora em que você está lá, na Guerra do Vietname, só quer um avião para sair. Hoje, eu conto isso com um carinho enorme. O “Rei Lear” que eu fiz era muito ruim, não deu certo, mas ele me deu material para escrever o livro e guardo com carinho imenso aquele fracasso. Na hora, você fica angustiado, mas depois o fracasso e o sucesso se equivalem.

As cicatrizes são uma história para contar…

E você não seria quem é sem elas. Eu ganhei Cannes quando estava fazendo uma novela, “Selva de Pedra”, era um período em que a personagem mudava de personalidade em Nova Iorque. Em duas semanas fui a Nova Iorque e voltei, fui a Cannes e voltei, tudo filmando a novela - foi um horror! Me lembro que estava na casa do meu irmão e estava tão infeliz que falei para ele “eu acho que vou abandonar essa profissão”, e aí ligaram e falaram “você ganhou em Cannes”. A vida é louca, não tem sequência lógica.

No livro diz: “A fama, esse empecilho, mas é impossível vê-la assim quando a dita lhe adula e pisca os olhos.” Já se viu obcecada pela fama?

Pela fama, não sei. Quando lancei o “Fim”, o meu primeiro livro, tive uma espécie… Eu debutei aos 48 anos, isso é um perigo. Não é bem a fama, mas uma espécie de estado imbecilizado em que você entra, eu fiquei adolescente aos 48 anos. Depois me recuperei. Hoje em dia se confunde muito a questão da celebridade com a realização do ator, mas não é muito o negócio de dar autógrafo, é mais o sentimento da realização profissional que é muito perigoso.

Por exemplo, a Marta, no livro, diz à jornalista que não existe nada mais infame que a fama…

Exatamente! A Marta é das poucas que não é artista no livro. E ela nota a figura patética em que o Mário está se transformando, ela tem essa distância para ver e fala “existe algo mais infame que a fama?”. Eu considero a palavra celebridade uma ofensa porque é uma palavra que confunde a realização artística com fama, e são coisas separadas.

Mas é muito fácil para um ator confundir as duas, não é?

Não, eu acho que um bom ator sabe exatamente a diferença. É mais fácil para os outros confundirem as coisas, acharem que um ator está atrás é de autógrafos. Uma coisa é consequência da outra, mas a grande viagem é o trabalho, não é a fama. Claro que você quer comunicar, você quer chegar nos outros. Tenho a certeza que o Van Gogh teria ficado feliz se tivesse sido reconhecido em vida, mesmo louco. É dura a condição do artista que não consegue ser compreendido ou reconhecido; então, quando isso acontece com você em vida, é maravilhoso. Mas, muitas vezes, isso não tem nada a ver com a qualidade do teu trabalho.

Mas é mais fácil lidar com o sucesso ou com o fracasso?

É equivalente [risos]. O sucesso é mais feliz, é melhor nesse sentido. Mas eu não consigo me separar dos meus fracassos. Hoje, olhando para trás, eles têm o mesmo valor para mim. É uma coisa estranhíssima, mas um grande fracasso não é medíocre. Os trabalhos medianos, mais medíocres, você não se lembra, mas os grandes erros são inesquecíveis. O “Kuarup” é inesquecível, é um filme muito ruim, mas ele é inesquecível.

O que acontece muitas vezes com os filhos de gente talentosa é que acabam por fracassar quando tentam seguir os mesmos caminhos que os pais, ou então escolhem caminhos diferentes. Consigo, isso não aconteceu. Há explicação para isso ou as exceções confirmam a regra? 

Não sei, meus pais tinham uma coisa muito bacana, nunca tiveram expectativas sobre nós, nem eu nem meu irmão. A gente seria o que a gente quisesse ser e eu acho que isso fez com que eu e o meu irmão tivéssemos uma calma em relação às nossas escolhas. Toda a minha geração queria fazer teatro por causa do teatro que se fazia na época, por causa do Asdrúbal Trouxe o Trombone [grupo de teatro cómico e anárquico que revelou uma série de jovens talentos]. Então, além dos meus pais, havia uma coisa geracional, muitas amigas minhas e amigos cedo escolheram essa profissão. Eu, aos 30 anos, achei que podia ter feito outra coisa na vida, tive uma espécie de “será que era isso mesmo?”, e foi quando comecei a escrever. Comecei a escrever roteiro. É claro que existia, mas alguns acontecimentos me ajudaram a não pesar a expectativa de ser igual aos meus pais. O prémio de Cannes fez isso, também o cinema ter-me descoberto logo no início, que era algo que os meus pais não estavam fazendo na época. Eu fui casando o meu caminho e tinha uma geração fazendo o mesmo.

O facto de ter começado cedo também ajudou a marcar isso, não é? Não chegou a ter tempo de pesar...

É, o tempo depois me ajudou a dizer “pô, mas começar a fazer uma profissão aos 13 anos de idade é quase uma anomalia”. Tanto que aos 30 eu falei: “Fui fazer a profissão dos meus pais, podia ter feito outra coisa.” Eu teria talento para fazer ene coisas, eu acho. Tenho uma curiosidade, como eu digo, omnívora. Teve uma hora que isso me bateu, mas era tarde.

E o que gostava de ter sido, nessa altura que pensou nisso?

Não cheguei a pensar, mas eu tinha curiosidades diversas. Aí, comecei a escrever. A primeira coisa que fiz foi escrever roteiros. A minha geração estava começando a escrever para cinema, a fazer cinema, e foi por aí um pouco que eu fui.

Há pelo menos duas ocasiões no livro em que escreve que o teatro é uma profissão perigosa. Acredita nisso?

Acredito que o teatro é uma profissão de risco absoluto, você está ali por pura necessidade sua, não há uma premência da humanidade pelo teatro, cada vez menos até. Então, quem faz teatro é por uma necessidade pessoal e de risco absoluto. O meu irmão [Cláudio Torres], ao contrário de mim, tentou se afastar da vida artística, mas também não conseguiu. Durante muito tempo, o meu irmão dizia para mim: “Teatro é horrível” [risos], porque é. Tem esse negócio de encenadores que querem quebrar a sua espinha, então você vai para uma sala de ensaio ser humilhado [risos] e aceita aquilo - é uma profissão de maluco, né?! É uma profissão muito estranha.

Ao contrário da maior parte dos atores brasileiros, o seu percurso afastou-se da telenovela. Há mais de 30 anos que não faz telenovelas.

Porque eu fui fazer “Selva de Pedra” e não soube fazer, estava péssima, fui muito imatura. Fui ficando mal-humorada e veio o prémio de Cannes no meio, e eu vi que estava em outro lugar. Embora eu tenha desejado muito ter feito a novela, não estava preparada, e isso foi importante porque é um dos meus fracassos grandes, porque eu não quis voltar a ser quem fui ali. Aí eu vi que não podia ir por ali, que ia me danar se eu fosse por ali, e isso me obrigou a ir por outros lugares, fazer cinema, fazer teatro. E demorou muito, demorou 30 anos até encontrar o meu espaço na televisão, que foi com a Vani em “Os Normais”, que foi um trabalho pleno, um trabalho feliz. Eu achei que não tinha talento para telenovela, trabalho que considero dificílimo - eu tenho profundo respeito e admiro a novela, não é por desmerecimento, é por incapacidade mesmo. Hoje, eu acho que seria mais madura. Fiz “Tapas e Beijos”, um seriado, durante cinco anos, e é o mais perto da novela, mais comédia romântica. Eu acho que hoje não seria aquela pessoa que fui lá atrás.

Mas chegaram a convidá-la para fazer mais novelas ao longo dos tempos?

Algumas vezes, sim, mas não muitas. Eu passei muitos anos sem contrato, e foi importante. Aprendi a me virar sem um contrato. Isso me transformou num ser que pensa de maneira independente. Mesmo quando acabou “Os Normais”, que é chamada a obra certa, eu nunca quis ficar contratada sem saber exatamente o que ia fazer.

Já explicou um bocado que o seu corte foi por sentir que não tinha capacidade para fazer telenovela, mas de alguma forma também tinha esse preconceito do seu personagem em relação às telenovelas?

Não, o meu personagem não tem preconceito. Uma hora, ele fala “teve uma hora que a televisão tinha tudo o que eu almejava”, deram para ele um papel maravilhoso em “O Quinze”, da Rachel de Queiroz. Essa sensação que se tem quando você entra na Globo, de que existe uma indústria que serve o seu ofício, é incrível! Isso não existe noutro lugar do Brasil, não tem uma indústria de cinema, não tem um teatro. Então, eu acho esse preconceito bobo. Mas acho que eu tinha uma sensação de ter falhado num lugar em que não se pode falhar. Quando você entra numa novela é uma responsabilidade muito grande, de muitos profissionais envolvidos, você não pode ter chilique. O Mário [Cardoso, o protagonista do livro], eu acho que tem o preconceito quando está ali no teatro, começando a vida, mas quando põe os pés e vê aquela indústria que serve a profissão, ele fala: “Naquele momento, a TV tinha tudo o que eu desejava.” O que acontece com o Mário é que ele se acomoda na televisão, e aí é um problema. Mesmo sendo o único lugar em que você pode se acomodar porque é o único lugar que paga salário. [risos]

Falando de “Os Normais” e da Vani, como é que uma série feita no princípio dos anos 2000 continua ainda hoje a ser vista? Qual é o segredo?

Acho que “Os Normais” é um achado do Alexandre Machado e da Fernanda Young, que são dois punks. É a personalidade dos dois escondida num casal normal, num casal careta. Acho que esse é o segredo, essa mistura que teve entre a loucura do Alexandre e da Fernanda, fantasiados de casal normal, e acho que eu e o Luiz [Fernando Guimarães] entendemos o jogo, e nós nos amávamos e nos amamos, havia uma química incrível entre a gente.

Tinha ideia de que isso poderia tornar-se um fenómeno?

Nunca! Você sabe, quando me chamaram era para fazer seis capítulos. Nunca imaginámos, pelo contrário, era um negócio que praticamente entrou saindo, como são as boas coisas da vida. Sempre que eu fiz grandes peças, tipo “O Rei Lear”, grandes filmes como o “Kuarup”, esses grandes projetos foram um fracasso. [risos] E tudo que começou pequeno foi ganhando uma proporção imensa - é maravilhoso! Eu tenho muito medo ou pena de quem já chega ganhando.

Chegaram a identificá-la com a personagem?

Nossa! Você não tem ideia! As pessoas olhavam para mim e diziam “você é muito louca, né?!”. Eu estava um pouco inédita, no sentido que não tinha feito uma novela ou um seriado logo antes, então as pessoas achavam que eu era mesmo assim.

E a sua relação com a personagem?

A Vani é maravilhosa de fazer, muito inteligente, e era uma observação dos problemas quotidianos. Logo no primeiro ou segundo capítulo tem o problema de que a Vani vai no banheiro; quando ela sai, o Rui quer entrar e ela acabou de fazer cocó e fala “não, não, você não pode entrar aqui”, e isso são problemas que todos nós vivemos. Eu dei isso como exemplo, a série ainda não tinha estreado e um dos jornais já dizia “meu Deus do céu, isso é o fim da picada”. [risos]

Mas isso tem a ver também um bocadinho com o “Seinfeld”, que também era uma comédia sobre nada, sobre o quotidiano de amigos.

Sabe que eu tinha vindo de Nova Iorque, tinha passado quatro anos vivendo mais lá do que no Brasil e foi a época em que o “Seinfeld” estourou, e “Os Normais” foi a primeira sitcom, junto com “A grande família”, que a Globo produziu. Então, também havia a novidade do formato no Brasil. Sem dúvida que o “Seinfeld” me ensinou muito, o facto de eu ter visto tanto, a maneira deles representarem - o Luiz Fernando também me ensinou muito sobre uma certa leveza no representar. O “Seinfeld” é um divisor de águas.

Voltando ao livro, como lhe surgiu este ator? Ou porque surgiu neste livro?

Porque decidi escrever “O Rei Lear”. Tinha escrito o capítulo da Tijuca, ainda ele não era ator, era um cara que tinha se afastado daquela classe média, do subúrbio carioca. Aí, eu meio que empaquei ali. Um dia eu falei “quero escrever sobre a minha experiência n’‘O Rei Lear’”, uma experiência que tive de vida em cena, e quando escrevi vi que tinha personagem, tinha uma voz, aquele ator desesperado, e juntei, fiz ele ser o cara da Tijuca e o livro ganhou forma.

E porque se riu nesse ‘Rei Lear’? Era assim tão mau?

Era muito ruim, com muita pretensão, com grandes atores brasileiros - Ary Fontoura, Sérgio Britto, Ney Latorraca, Yara Amaral, Paulo Goulart. Fomos parar a um teatro de shopping. Eu fazia a Cordélia, ficava duas horas fora de cena. Comecei a dar uma volta no shopping para jogar pinball [flippers], depois comecei a ir em casa para jantar. Os meus amigos estavam todos em cena vestidos de Cornualha, um figurino trágico ruim, e aí eu ria, eu ria morta, não conseguia me controlar, era uma coisa impossível.

E a peça não demorou muito em cena?

Demorou, demorou acho que seis meses…

Mesmo assim, seis meses…?

Mesmo assim, para você ver como são as coisas. Foi uma tortura lenta. [risos]

Com que personagem ou com que personagens ao longo da sua carreira se identificou tanto como o Mário Cardoso com o Astrov do Tchekhov?

Eu acho que “A Casa dos Budas Ditosos”, do João Ubaldo… No início da minha carreira fiz um filme chamado “A Marvada Carne” [de André Klotzel] e eu tive uma total identificação com o personagem chamado Carula. No “Terra Estrangeira”, que eu fiz com o Walter Salles em Portugal [uma jovem brasileira que decide deixar o Brasil depois da morte da mãe]. O caso dos “Budas Ditosos”, até hoje eu faço.

Mesmo sendo um livro de ficção teria sido possível escrevê-lo se não fosse o seu percurso familiar e profissional?

Não, acho que não. Acho que é impossível escrever um livro sem você ter, de alguma maneira, vivenciado aquilo. A parte da prisão, tive muito medo ao escrever. Nem sabia para que cadeia um ator iria. Fui conversar com especialistas e fiz uma visita a um presídio, e entrei numa cela com 100 presos, que é uma coisa apavorante. Saí de lá e o capítulo se escreveu quase sozinho.

Não acredita na ficção só de imaginação?

Mas o que é a imaginação? Eu acredito totalmente na imaginação, os personagens, numa hora, começam a ter vida própria na sua cabeça, vão a lugares que você não imaginava que iriam. Não é uma descrição da realidade, mas a sua imaginação é alimentada pelo que você viveu, pelo que você viu, a janela é você, não há como não ser. Não é que você tem que ter vivido, mas se você não viveu, você leu, que é uma forma de viver.

Esse livro é também uma homenagem ao teatro, à sua evolução no Brasil, à importância, aos nomes mais influentes.

É engraçado, quando eu escrevi o “Fim”, me perguntavam muito se agora eu ia abandonar a profissão de atriz, como se fosse isso ou aquilo. E eu gostei muito de escrever o livro. Mesmo sendo uma tragédia a vida deles, há nela uma reafirmação de que o teatro e a minha profissão são um espelho do país, do mundo, eles servem como o espelho da sua época. Quando acabei tive quase uma explicação de que é tudo a mesma coisa, o teatro, a escrita, a arte. A arte perdeu o poder que tinha, ele reafirma a importância e a razão de ser dessa profissão.

Mas é verdade que, hoje, o teatro deixou de ter tanta importância no Brasil. Ainda há espaço para Shakespeare? Para teatro experimental?

Há espaço para tudo, mas perdeu influência. Não só no Brasil, no mundo. O cinema também perdeu. Você ia ver um filme do Kubrick, do Bertolucci, como se fosse ler um tratado do Camus. Como se aquilo fosse transformar a sua vida. Hoje, o mundo é muito mais pragmático, estatístico, de uma cultura de massa, mais empobrecido, eu acho. Mais democrático, mas mais empobrecido. Tem filmes extraordinários, o “Incêndios” [de Denis Villeneuve], um filme extraordinário, saído de uma peça de teatro, mas que não tem o impacto mundial que tinham, por exemplo, “Apocalypse Now” e “O Poderoso Chefão” [“O Padrinho”], que eram filmes mainstream. Hoje, o filme mainstream é o do super-herói. Talvez a televisão esteja fazendo o que esses filmes faziam, você encontra experimentos de linguagem maiores até do que o que você encontra no cinema.

Mas ainda se consegue encontrar algum teatro experimental no Brasil?

Sim. São Paulo é uma terra muito forte de teatro, mas eu acho que ele não tem a potência de transformar a sociedade... eu ia ver “Macunaíma”, do Antunes Filho, e aquilo mudava a minha vida, e Asdrúbal Trouxe o Trombone mudou uma geração. Essa potência, não encontro hoje.

Essa ideia do artista capaz de mudar o mundo é algo que já não é visto assim pelo próprio.

A gente vive num mundo mais mediático, maior, tem mais gente, as redes sociais democratizaram e, ao mesmo tempo, imbecilizaram. Quando eu comecei era muito difícil fazer um filme; hoje em dia, qualquer um pode fazer um filme com o seu celular. A lógica do mundo mudou. Antes, a opinião pública era formada por menos gente, o que é ruim, de certa maneira; por outro lado, tinham uma capacidade de influenciar a opinião pública muito maior que hoje. Hoje, as coisas que estouram no mundo vêm via internet. É uma comunicação mais imbecilizada. A imprensa está sofrendo, a indústria fonográfica está sofrendo. As rádios do mundo todo tocam a mesma música ruim. É a globalização, todo o mundo veste o mesmo, come o mesmo, vê o mesmo, e as coisas especiais ou que dão mais trabalho para você ler, para você ver, elas ficam presas num nicho, não têm capacidade de influenciar da maneira que tinham.

É curioso, li isto numa entrevista sua: “Cresci num país pós-ditadura onde o artista era considerado o símbolo da justiça, da liberdade de expressão. Hoje, a classe recebe ataques violentos.” Hoje, o artista é o quê?

Aconteceu, no Brasil, a questão da subvenção do Estado, toda a cultura passou a ser subvencionada. As empresas, por isenção fiscal, poderiam investir em cultura. Por um lado, é uma coisa ótima; por outro lado, foi criando distorções de mercado, onde a gente foi se distanciando da questão da bilheteira, porque, como era pago, era arte de graça. Isso fazia os artistas dependerem ainda mais do Estado. Até que chegou uma hora em que o Brasil começou a dizer que os artistas eram uma espécie de vampiros. Também porque a arte perdeu o seu lugar, perdeu-se inimigo comum, que era a ditadura, tornou-se uma coisa mais pulverizada. A arte passou a ser quase 100% subvencionada pelo Estado, o que criou doenças no próprio fazer teatral. O teatro, as filarmónicas, os museus passaram a depender inteiramente da subvenção do Estado e criou-se uma aversão a isso.

Mas é função do Estado criar uma cultura, preservar a cultura de um país, divulgar a cultura do país.

Claro! Mas só que num país em que 50% da população ou mais não tem saneamento básico e a saúde não funciona, cresceu no país, principalmente a partir de 2013, uma revolta com o uso do dinheiro público. Também porque houve mau uso das verbas e todo o mundo foi para o mesmo saco. E é grave, porque essas leis protegem não só a arte como todo o património histórico brasileiro, da caverna da Capivara com desenhos pré-históricos à filarmónica. Só que num país onde não tem saneamento básico, uma hora a Revolução Francesa chega e fala: “Escuta, o seu briche não custa isso, eu não tenho esgoto.” Há no Brasil, atualmente, uma espécie de revolta da população, justificada, por anos de mau uso das verbas públicas, e isso aconteceu numa hora em que a arte estava totalmente dependente das verbas públicas. Os meus pais faziam endividamento em banco para pagar as suas peças mas, com os juros que os bancos cobram hoje no Brasil, é impossível fazer isso. Então se criou um nó de que a cultura não consegue ser uma indústria lucrativa para viver no mundo liberal. Tem um filme que eu fiz, chamado “Saneamento Básico”, que é sobre isso. O Jorge Furtado descobriu que uma cidade do interior de Porto Alegre tinha dinheiro para fazer cinema, mas não tinham esgoto. Aí, ele criou um roteiro sobre uma família que entra num edital [concurso público] para fazer um filme sobre eles a fazerem o esgoto. Só que conforme vão tendo de fazer o filme, vão tendo problemas de cinema, do enredo, do efeito especial, e isso vai comendo o dinheiro do esgoto e eles vão virando artistas.

Algo que era positivo acabou por se voltar contra a própria cultura?

Acabou por se voltar contra a própria cultura, é isso que aconteceu.

E a arte também sofre com o facto de hoje, depois de tanto caminho de conquista de direitos, parece que estamos a ficar mais puritanos ou mais politicamente corretos.

Eu acho que é a globalização, houve uma americanização do mundo. O Brasil, por exemplo, tinha a questão da miscigenação que, é claro, abafava a questão do racismo no Brasil, que é imensa. Hoje, a gente nota uma importação imensa de uma visão de raça muito americana. Lá as coisas se moveram e, aqui, a miscigenação serviu para aplacar a questão racial. O mundo está muito esquisito.

As redes sociais impõem um puritanismo…

Ah, sem dúvida!

Reagir antes de pensar...

É mais do que isso. É claro, as redes sociais isolam grupos que pensam igual e, dentro desses grupos que se isolam, as pessoas concordam com as outras a 100%, e depois os grupos se agridem entre si. É uma grande surpresa: as redes sociais, que serviriam para fazer uma espécie de comunicação com a humanidade, para a paz humana, serviram para o oposto. Outro dia, eu li que a Unilever vai tirar o apoio ao Facebook se não tomar medidas contra a cultura do ódio. Se o dinheiro começar a sair… Outro dia, eu li um artigo maravilhoso do “Guardian” que dizia que os inventores do Facebook, do like, diziam que se basearam em todos os artifícios para viciar as pessoas no celular e que essa maneira viciante de olhar as redes sociais estava mudando a nossa forma de agir, a nossa psicologia interna, porque todo vício causa frustração. O que as redes sociais estão criando é um mundo de pessoas frustradas e mal informadas, que fazem o Brexit, que elegem o Trump.

Nas redes sociais, parece que toda a nudez será castigada, mas quase nenhuma violência ou ódio é castigado, ou seja, o discurso do ódio…

Um amigo meu disse essa frase maravilhosa outro dia: “O americano acha sexo violento e a violência sexy.” Os museus estão sendo pressionados para tirar imagens - teve isso do Balthus, do adolescente - porque são imorais, e os filmes são de uma violência enorme e tem gente que posta arma no Facebook. A humanidade enlouqueceu. Eu, realmente, sou uma mulher do séc. xx.

Como pode a arte sobreviver ao impacto da tecnologia?

Eu acho que o teatro já caiu desde a Grécia. O teatro é o único lugar em que um ser humano está diante do outro e a experiência de estar diante de um outro ser humano não morre. 

O Brasil é um bom país para viver hoje?

Não, hoje em dia é um país bastante assustador para viver. Eu cresci num país em turbulência, económica, política, mas havia uma sensação de que se estava caminhando para algo, para a redemocratização, para as diretas, para se votar nos políticos, controlar a moeda. Havia uma sensação de progresso. Mas isso agora ruiu, a gente não sabe para onde vai, é uma espécie de incógnita. A violência no Rio de Janeiro está totalmente fora de controlo, a gente elegeu um prefeito evangélico que no Carnaval foi para a Áustria e mandou um post de lá dizendo que estava cuidando da segurança da cidade. Você não sabe o que vai acontecer com o Brasil, a gente não tem a menor ideia de quem virá na presidência, está um período muito estranho, muito esquisito.

A situação política dividiu o país de uma forma que por vezes redunda em violência.

É uma espécie de descrença absoluta e uma classe política que age como se a política fosse um fim em si mesma e age para se manter no poder. Brasília isolou o poder do país. Por um lado, incluiu o interior e, por outro, isolou a classe política. E teve essa tragédia que foram os dois partidos, um mais liberal e um mais social, ambos de esquerda, o PSDB e o PT, que estiveram no poder nos últimos anos e agiram exatamente igual ao velho poder. É como se a máquina da corrupção, da inépcia, fosse uma coisa endémica. Hoje há uma descrença porque não há mais esquerda, direita, não há mais nada, todos agiram igual. É uma crise muito grave. É um país em grandes proporções, tanto na riqueza como na pobreza, mais a desigualdade social que nunca foi resolvida. Isso tudo, agora, está vindo em forma de violência, de uma maneira que eu nunca vi.

Acha que o PT tem muita culpa naquilo que está a acontecer agora?

Eu acho que é o sistema. O PSDB, o PT são partidos que não podiam ter agido como agiram, deveriam ter feito algo para mudar a maneira de fazer política no Brasil, e ou não quiseram ou não conseguiram e acabaram agindo da mesma maneira. Eu acho que o Lula, quando tinha 90% de aprovação, talvez pudesse ter feito reformas políticas que não fez. 

Mas não acha que há um contra-ataque do Brasil conservador perante algumas mudanças sociais?

Que houve uma contrarreforma conservadora, disso eu não tenho a menor dúvida. Hoje, as pessoas que estão no poder não têm nenhuma ligação com o social. Agora, a eleição da Dilma foi feita em cima de uma mentira absoluta. A Dilma fez uma campanha dizendo que estava tudo bem - no dia 1 de janeiro, a energia aumentou 70%. Eu acho que o facto de os dois partidos terem falido no seu projeto e nas suas promessas de mudança fez o tsunami da onda conservadora. Mas é estranho porque, por exemplo, nos Estados Unidos, o Obama fez um grande governo e mesmo assim veio o Trump. Londres enriqueceu com a União Europeia e mesmo assim votaram com o Brexit. Eu acho que a gente está vivendo um movimento conservador no mundo.

De alguma forma, é assustador como personagens como o Jair Bolsonaro tenham a popularidade que têm hoje em dia…

É uma loucura. E não é só de uma classe social sem educação, é algo de uma classe média que vai à universidade...

…e que está assustada com os níveis de violência.

Exatamente! Daí vem um cara que diz “é fácil, você põe um paredão e metralha o bandido e deixa a pessoa boa fora”. É uma loucura! Agora, é lamentável, porque o PT tinha quadros especiais muito melhores, gente séria em muitas áreas, com preocupações sociais reais.