Cultura

Um jardim que é uma escola

Criado para que os príncipes pudessem estudar, o Jardim Botânico da Ajuda faz 250 anos e continua a ser um espaço que privilegia a ciência.

Há dois dias o céu de Lisboa refletia-se imenso no rio, que lhe respondia de volta. Um quadro que implorava, por si só, lirismos. E que calhou coincidir com o dia em que visitámos o Jardim Botânico da Ajuda, sítio privilegiado para assistir ao diálogo. Mas é insultuoso reduzir a miradouro este que é o mais antigo Jardim Botânico do país – o 15.º da Europa – e que agora comemora 250 anos. Até porque, desde o início, o Jardim foi pensado para servir uma função nobre: a educação. Mas não só.

Criado numa Lisboa que renascia no pós-terramoto, o Jardim Botânico da Ajuda (JBA) foi inaugurado em 1768, quatro anos depois de ter começado a ser projetado por Domingos Vandelli, botânico que veio de Pádua ‘a mando’ do Marquês de Pombal para reforçar a equipa de tutores dos príncipes e do Colégio dos Nobres.

«Naquele tempo, não havia nenhuma instituição científica em Lisboa, e portanto a criação do JBA e do núcleo associado – a Casa de Risco e o Gabinete de História Natural – estavam como que um pouco pendurados, não estavam associados a coisa nenhuma». A história é contada por Dalila Espírito Santos, diretora do Jardim desde 2002, e que reconhece em Vandelli o mérito de pensar este espaço não só para a educação dos príncipes, mas também para «testar sementes para a agricultura, a aclimatação de novas plantas e para desenvolver o interesse pela economia e o comércio, que eram também as ideias do Marquês». Esta conjugação de forças, acredita a diretora, fez com o Rei desse rapidamente luz verde ao projeto.

E porquê na Ajuda? «Tinha sido construída aqui a Real Barraca», sintetiza a diretora, referindo a casa de madeira construída para a família real, temerosa que a terra tremesse de novo. 

«Tudo isto eram hortas. Aqui [no JBL] era a Quinta de Cima, onde hoje temos a igreja da Memória era a Quinta do Meio, e na Quinta de Baixo fica o palácio de Belém e o Jardim Botânico Tropical». Todos estes terrenos, anteriormente comprados por D. João V, faziam parte do plano de Vandelli. «No projeto inicial, previa-se que houvesse Jardim, distribuído em terraços, até ao rio», conta.

Planta a dois níveis

Como podemos ver hoje, o plano nunca passou do papel e o JBL é um jardim que se divide exatamente em dois: uma parte de recreio e outra ‘de estudo’. «O terraço superior sempre foi a escola de taxonomia, digamos assim, e é onde está a coleção botânica. É um espaço para estudar e para visitas guiadas. O terraço inferior é um jardim de recreio, romântico, à moda dos jardins de Pádua e de Versailles, com um jardim de buxo, com simetria, onde deixamos os meninos correrem no que eles chamam de labirinto».

Seria nesse labirinto onde hoje correm as crianças das escolas que os príncipes brincariam. Mas o local também era usado como espaço de recreio pelas damas. «Havia um túnel que ligava aqui o jardim botânico ao palácio, e por esse túnel as damas vinham ao jardim para passear». Já os reis «usavam mais o jardim para ter as suas coleções de plantas, como foi depois o caso de D. Luís» e da sua famosa estufa de orquídeas que data do século XIX. Construída propositadamente meio soterrada para diminuir as amplitudes térmicas, «foi considerada muito inovadora a nível europeu».

A proximidade da Real Barraca pode ter sido essencial, mas esta é uma «encosta privilegiada». «É virada a sul. A água de rega vem de minas próprias. Não temos geadas nem temperaturas negativas, as mais baixas andam à volta dos 5 graus. Mas no verão neste terraço de cima chegam aos 43». Por isso, as espécies vindas de climas mais quentes sempre se deram bem aqui. Um interessante exemplo disto são os jacarandás que, diz Dalila, saíram «certamente» deste jardim para enfeitar as ruas de Lisboa.

Voltar às origens

Em dois séculos e meio, a sucessão de estações, de reinados e de regimes deixou a sua marca pelo Jardim e merece uma resenha, ainda que apressada, pela história.

Em 1791, Vandelli foi nomeado diretor do complexo e fez vários pedidos para que lhe dessem mais terrenos, que seriam usados como «campos de experimentação». Nessa altura, o JBA chegou a ter 5 mil espécies. «Mas quando quando Brotero chega aqui em 1811 já só havia aqui 1300, certamente que houve competição entre as plantas», diz a diretora.

Curiosamente, o JBA de hoje está muito mais próximo do que seria aquando da sua inauguração do que há 100 anos. «O Jardim foi da Casa Real, depois ficou a cargo da Academia das Ciências, voltou para a família Real e em dezembro de 1910, logo depois do início da República, a tutela da Tapada da Ajuda e do JBA é dada ao Instituto Superior de Agronomia (ISA). Ou seja, a Tapada da Ajuda veio dar ao Jardim os campos para experimentação para agricultura que já eram pedidos pelo Vandelli desde há quase 150 anos !».

Em 1941, «precisamente em fevereiro», um furacão arrancou a maior parte das árvores. «Foi chamado o professor Caldeira Cabral, que foi o nosso primeiro arquiteto paisagista, acabado de se especializar na Universidade Técnica de Berlim. Há desenhos que mostram a fonte com uma dama com um vestido comprido e tudo coberto de árvores à volta, ou seja, o jardim era um bosque completo e o desenho de buxo tinha-se perdido. Caldeira Cabral determinou que se voltasse ao desenho de buxo, que ainda é este que temos hoje».

Entre 1994 e 1998, a anterior diretora, Cristina Castel-Branco, restaurou o terraço superior. «O professor António Monteiro, que é de horticultura, encontrou o que achamos ser o desenho original de Vandelli, que foi usado para dar o desenho inicial ao terraço superior».

No ano em que comemora os 250 anos, podemos dizer que o JBA reuniu à sua volta um belíssimo grupo de aliados, onde se conta a Associação dos Amigos do Jardim Botânico da Ajuda, que já investiu 150 mil euros a restaurar as fontes, agora ‘inauguradas’.

Os 400 anos do dragoeiro

Hoje, quando entramos o jardim, as boas vindas são dadas por pavões, mas há 250 anos era pouco provável que existissem aqui animais. Mas ali nas imediações a realidade seria outra. «Na época em que o Jardim foi feito conta-se que nas margens deste caminho, que hoje é a Calçada da Ajuda, havia cenas que só vemos quase no circo, desde homens a deitar labaredas da boca a animais enjaulados vindos das colónias».

E terá sido numa então colónia que nasceu o velhinho dragoeiro, já com 400 anos, a estrela do JBA e a árvore mais bem documentada. «Há uma carta régia a dar licença que aquele dragoeiro venha para o jardim desde a Madeira, com outros seis. Um desses exemplares foi para a embaixada de Itália, outro para Algés, mas já morreram. No entanto, sabemos que os dragoeiros da Madeira são idênticos aos dragoeiros das Canárias: ou seja, têm um ramo acima, outro abaixo, e nunca com esta forma hemisférica do nosso dragoeiro. Esta forma apenas existe em Cabo Verde, de onde depreendemos que estes dragoeiros já teriam sido levados para a Madeira. Quando veio para cá, já era adulto».

Viagens que custaram muitas vidas. «O transporte era feito de barco, eram os prisioneiros que remavam e muitas vezes era-lhes cortada a água para dar às plantas. As plantas que foram trazidas desse modo para Portugal custaram muitas vidas, e à Marinha as devemos».

Um ano de comemorações

Para celebrar a data redonda, há um programa que se estende por 2018 e que se divide por exposições, visitas guiadas, a recriação da visita do Marquês de Pombal e outros espetáculos de teatro destinados também a crianças ou workshops de especialistas em plantas, como suculentas ou orquídeas.

«Passei os últimos doze anos a programar esta comemoração», conta Dalila entre risos, lembrando os momentos bons e maus momentos que já aqui viveu. Logo no primeiro ano como diretora, uma zona do buxo no terraço inferior estava a apodrecer. Em 2006, parte do dragoeiro cedeu e foi preciso montar uma estrutura de suporte. Mais recentemente, uma praga atacou o buxo, que ainda está a recuperar – o que implica que as motosserras ainda sejam esterilizadas com álcool para que a doença não se propague.

Mas os momentos bons e até caricatos eclipsam os problemas. Por ali, a engenheira Dalila já recebeu casais que pedem para plantar flores, arquitetos e engenheiros que largaram os canudos para ser jardineiros e até um frei que diz ter visto Nossa Senhora junto de uma roseira. E a sua própria família ‘juntou-se’ ao projeto: o marido faz portaria quando há festas, a filha e neta pertencem ao grupo de Teatro Infantil AnimArte, que no verão encena peças debaixo da Ficus macrophyla, a imponente árvore cujas raízes pedem para ser cenário.

No final do ano, Dalila Espírito Santo deixará de ser diretora do Jardim. «Os meus objetivos aqui estão cumpridos. Vou voltar ao Instituto Superior de Agronomia e ainda tenho três anos até à reforma em que posso ajudar o novo diretor. Penso que é preciso este tempo e este suporte para se passar a pasta», sorri. 

Já que aqui tem uma parte do coração, por que não tornar-se voluntária? A resposta sai pronta, de quem parece já ter repensado a sugestão: «Costuma dizer-se que não se volta aos sítios onde já se foi feliz».