Sociedade

“Pequeno tornado” vira barcos e danifica carros em Faro

Chuva e ventos fortes provocaram a queda de árvores. Pequeno tornado virou barcos no Algarve e, ao largo de Cascais, um comandante da Marinha Mercante morreu. Para hoje esperam-se ondas de 12 metros no litoral Sul

O mau tempo não está a dar descanso e parece ter vindo para ficar nos próximos dias. Ontem, a Proteção Civil registou 536 ocorrências por causa da chuva, dos ventos fortes, da neve e da agitação marítima, que provocou uma vítima mortal em Lisboa.

Ao i, Carlos Pereira, o oficial de serviço da Proteção Civil, afirmou que as “ocorrências estão relacionadas com desobstruções de vias e cortes de árvores”, referindo que “durante a noite [de terça para quarta-feira] e sobre o período da manhã notou-se um decréscimo dos cortes de árvores, mantendo-se a limpeza de vias derivada da queda de neve”.

O responsável informou ainda que as ocorrências relevam de uma “situação normalíssima de inverno”, apesar de se “terem sentido ventos fortes no Algarve, em Faro”. Ventos esses que conseguiram virar mais de dez embarcações estacionadas na marina de Faro, danificando uma esplanada e vários carros. Em declarações à Lusa, Nuno Cortes Lopes, capitão do porto de Faro, afirmou que os ventos assemelharam-se a “um pequeno tornado”. As imagens televisivas mostravam algo que muitos identificaram como uma tromba de água.

Carlos Pereira anteviu ainda a noite, “com o aumento da intensidade do vento”, como “o período mais delicado”.

Neve fecha escolas, corta energia e provoca estragos Os distritos mais afetados foram Bragança, Vila Real e Viseu, enquanto a Madeira registou ventos fortes e mar agitado. No Norte do país, a queda de neve e de árvores levou ao condicionamento de estradas e ao encerramento de escolas, que deverão reabrir hoje em Vila Real caso o tempo melhore. Em Bragança, doze veículos ficaram danificados quando o peso da neve levou ao desabamento das proteções do parque de estacionamento exterior do Intermarché. Ao final da tarde circulava-se ontem em todas as estradas dentro da normalidade.

Em Castelo Branco, a queda de neve levou ao encerramento do maciço central de acesso à Serra da Estrela, com o IPMA a prever “períodos de chuva ou aguaceiros, por vezes fortes e de granizo, e queda de neve nos pontos altos”.

Também o corte de eletricidade afetou muitos habitantes dos concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo e Aguiar da Beira, na Guarda, e Sernancelhe e São João da Pesqueira, em Viseu. A EDP destacou para os vários concelhos 170 operacionais, que, ao longo do dia, foram capazes de restabelecer o fornecimento elétrico em algumas zonas. “Foram já reparadas as avarias nos concelhos de Sabrosa, Ribeira de Pena e Pinhel, através da instalação de geradores”, anunciou fonte da EDP à agência Lusa. Às primeiras horas da noite, a elétrica anunciou que o restabelecimento da energia estava assegurado quase na totalidade.

Segundo a REN, o corte deveu-se à acumulação de gelo nos condutores, levando à queda dos postes de eletricidade, que danificaram quatro casas e uma capela. Numa nota enviada à Lusa, a REN garantiu estar a proceder com todas as diligências para restabelecer o fornecimento de energia às zonas afetadas.

Vítima mortal Na madrugada de ontem o mau tempo fez a primeira e única vítima mortal. Um comandante da Marinha Mercante caiu ao mar enquanto regressava à lancha dos pilotos, à saída do Porto de Lisboa, já ao largo de Cascais. Para a morte contribuiu o facto das ondas estarem na altura com cerca de quatro metros, o que impediu o salvamento do piloto.

Em nota divulgada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa lamentou o “trágico acidente ao largo de Cascais” e demonstrou solidariedade com os restantes pilotos “neste momento de luto para a classe profissional” e as suas “condolências à família”.

Madeira isolada O mau tempo também chegou ao arquipélago da Madeira, deixando-o isolado. Ontem, e só no período da manhã, foram cancelados 36 voos, entre partidas e chegadas. Não menos de quatro mil passageiros ficaram em terra a aguardar por melhor tempo. Também a ligação marítima entre as ilhas, a cargo do navio Lobo Marinho, foi interrompida em consequência da forte agitação marítima.

Na costa Sul, nomeadamente na Ponta do Sol, a forte ondulação fez estragos significativos num dos restaurantes à beira mar.

O IPMA colocou o arquipélago em alerta vermelho por causa dos ventos fortes e da agitação marítima, prevendo que as rajadas de vento possam chegar aos 140 quilómetros por hora e as ondas, nomeadamente na costa Sul da ilha, atinjam o máximo de 14 metros. No seu site, a Proteção Civil Regional adiantou que apenas se registaram “ocorrências originadas pelo forte vento, principalmente queda de árvores ou pequenos movimentos de massas para a via pública, sem danos humanos ou materiais a assinalar”.

Alentejo com inundações O Alentejo também não passou incólume ao mau tempo.

O telhado de um barracão desabou em Amodôvar, Beja, por causa dos ventos fortes e 12 vias públicas ficaram inundadas. Também se registou uma queda de árvore, com os bombeiros a terem de se deslocar ao local para a removerem. Em Elvas registaram-se três inundações.

Próximos dias Em comunicado, a Proteção Civil alertou para um “quadro meteorológico persistente marcado por forte instabilidade atmosférica, o qual irá afetar todo o território”. Assim, é de esperar chuva pontualmente forte e persistente nos próximos dias, existindo mesmo a possibilidade de trovoada e queda de granizo e de neve acima dos 800 metros. Hoje, no Litoral Sul esperam-se ondas até um máximo de 12 metros.