Internacional

Itália. Um resultado eleitoral que faz tremer a União Europeia

Quando tudo está mal, pode sempre ficar pior. A Europa já se tinha rendido ao regresso do velho senhor, Berlusconi, como mal menor. Eis que a realidade se mostra muito pior para a estabilidade da UE e até para a governabilidade de Itália. Os próximos tempos vão ser duros para Berlim e Paris 

Quando, no último comício de campanha eleitoral, em Roma, Matteo Salvini imitou o juramento de tomada de posse de primeiro-ministro, perante os seus apoiantes, e pegando num exemplar da Constituição Italiana, a maior parte da comunicação social reportou o momento como folclore eleitoral, com probabilidades muito reduzidas de acontecer.
Na véspera das eleições, o candidato preferido da União Europeia, o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, indigitado pela Força Itália para encabeçar um novo governo italiano, garantia ao “El País”: “Berlusconi é o único capaz de cortar o passo ao populismo em Itália.” Pois não foi.

Os partidos pró-europeus e “tradicionais”, Força Itália e Partido Democrático, tiveram cerca de 35% nas eleições de 4 de março, e os dois partidos antissistema mais fortes, Movimento 5 Estrelas e a Liga, atingiram cerca de 50% dos votos.

Vejamos os resultados: Movimento 5 Estrelas com 32,22% dos votos; Partido Democrático com 18,9% dos sufrágios; Liga com 17,69%; Força Itália com 13,94%; Irmãos de Itália com 4,35%; Livres e Iguais com 3,38%.

Há dois vencedores evidentes destas eleições: o Movimento 5 Estrelas, que obtém uma vitória expressiva com mais de 32% dos votos, e a Liga, que quadruplica o seu número de votos, ultrapassando os seus parceiros de coligação, a Força Itália do regressado Silvio Berlusconi.

Perante o resultado das urnas, há dois cenários aritmeticamente possíveis e um final, caso estes dois se finem sem se concretizarem – o que parece o mais provável, num país que teve 64 governos nos últimos 70 anos.

O primeiro cenário, o mais assustador para a União Europeia, é uma aliança entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas, podendo ter eventualmente a participação dos outros dois partidos da coligação de centro-direita. Essa coligação teria como ponto comum dos dois principais partidos a sua posição anti-imigração e desconfiança em relação à UE, abrindo caminho a um referendo sobre a permanência da Itália na zona euro.

Contra a concretização deste cenário estão dois obstáculos: o Movimento 5 Estrelas, como partido com mais votos, já fez saber que os outros partidos têm de falar consigo para a concretização de um governo e de um programa em que o M5S vai dar o tom. “Estamos abertos à negociação com todas as forças políticas”, disse o cabeça-de-lista do 5 Estrelas, Luigi Di Maio, fazendo notar que a sua força política foi “o vencedor absoluto” das eleições de 4 de março, com mais de 32% dos votos e cerca de 230 eleitos, num parlamento em que a maioria absoluta se atinge aos 316 deputados. O outro impedimento é a vontade de Matteo Salvini ser líder do novo governo, e por isso procurar uma outra solução em que não teria de se aliar sozinho com os partidários de Beppe Grillo. “Não mudo de equipa a meio do jogo. Temos o direito e o dever de governar nos próximos anos. Não vamos fazer coligações estranhas. Espero com impaciência a possibilidade de começar este trabalho”, garantiu Salvini. O problema é que, somados, a Liga, a Força Itália e os Irmãos de Itália também ficam longe da maioria absoluta, com os seus 36% de votos e 250 deputados eleitos. 

O que abriria o caminho a uma outra coligação aritmeticamente possível: o centro-direita mais o Partido Democrático, que é um dos grandes derrotados da noite: depois de há uns anos ter obtido 40, 8% nas eleições europeias de 2014, e de nas últimas legislativas, 2015, ter conseguido 25% dos votos, ficou-se nesta última ida às urnas por menos de 19% dos sufrágios – o que levou o seu líder, Matteo Renzi, a demitir-se da chefia do partido, e os democráticos a dizer que, escutando os eleitores, se remetem a ser oposição e não farão acordos de poder nem com o Movimento 5 Estrelas, nem com os partidos à sua direita.

Se todos os dirigentes políticos cumprirem o que dizem, não haverá maioria no parlamento italiano, o que conduzirá, num país fortemente dividido entre norte e sul, à convocação a breve prazo de novas eleições.

Reações O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, manifestou hoje o desejo de que o próximo governo italiano “respeite os valores e os compromissos europeus”, assumindo, no entanto, que “a leitura” dos resultados das eleições legislativas “não é simples”.

“Os assuntos internos de Itália não dizem respeito ao ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) de Portugal, naturalmente, mas os assuntos europeus dizem, portanto o que desejo é que o próximo governo a formar em Itália seja um governo que respeite os valores e os compromissos europeus, porque a UE – e dentro dela, a zona euro – precisam muito da Itália. A Itália saberá estar à altura dessa necessidade”, disse o ministro Santos Silva.
Por sua vez, o porta-voz da chanceler alemã, Steffen Seibert, disse que embora os resultados finais ainda não sejam conhecidos, deseja que “aqueles em posições de responsabilidade consigam formar um governo estável, tanto para o bem de Itália, como para o bem da Europa”.

Em declarações à comunicação social, Seibert salientou que Berlim irá falar com o novo governo, independentemente do líder, porque “Itália é um dos parceiros europeus mais importantes e com quem o país [Alemanha] tem uma forte amizade”.

Com menos necessidade de mostrar uma linguagem diplomática, o jornal israelita “Haaretz” titulava com as devidas parangonas: “Vladimir Putin acabou de vencer as eleições italianas”, explicando na entrada: “esqueçam o Brexit, os complicados resultados na Alemanha, até mesmo a chegada de Trump ao poder. Em todos esses países, os partidos tradicionais continuam a jogar um papel fundamental no dia seguinte a esses resultados. O mesmo não pode ser dito com aquilo que aconteceu no domingo em Itália, pode ser mesmo o primeiro triunfo real e sem oposição dos partidos antissistema nas democracias liberais ocidentais”.

Tudo pela mão do Movimento 5 Estrelas e da Liga, que recentemente aprofundaram os seus laços com Moscovo e revelaram a sua admiração pela liderança de Putin.