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Goju-ryu. O karate que salva o dia ao jornalista

Começou a treinar karate aos 11 anos em Angola. Quando voltou para Portugal, um dia tropeçou em karatecas que estavam a treinar com o seu antigo mestre. Retomou, agora num novo estilo, goju-ryu, e nunca mais largou. A sua vida não é a mesma sem os treinos. Diz que o karate lhe salva o dia, apesar de se considerar um diletante. Vai comemorar os seus 65 anos na ilha de Okinawa, onde tudo começou

O nome indica ao que vamos. Goju-ryu é um estilo de karate originário da ilha de Okinawa. Goju-ryu quer dizer “duro e suave”. O sensei Nuno Cardeira (7.o dan) explica-nos que toda a origem do karate é chinesa. Era conhecido por “Mão Chinesa”. “Durante os anos 30, sofreu uma espécie de nacionalização. Não ficava bem que a arte marcial tivesse um nome chinês e passou a ser karate, que quer dizer ‘mão vazia’, uma mão desarmada”, explica o mestre, que na sua vida profissional é do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras). O goju-ryu é o estilo de karate mais fiel às origens chinesas, em que as posições são mais altas e o combate é mais próximo.

Durante o treino no Desportivo de Monte Real vamos vendo o aquecimento, as katas tradicionais, as suas aplicações bunkais e como uma mesma kata pode ser introduzida num combate de uma forma diferente. Como por magia, um movimento com as mãos para o lado numa kata transforma-se numa espécie de desvio com chaves, seguido de uma cotovelada no esterno e de um golpe no nariz: a kata passa a ser uma arma de combate.

Sérgio Ribeiro Soares, um dos cintos negros que participa no treino, é jornalista e 3.o dan de goju-ryu. Começou a treinar em miúdo, em Angola, mas na altura treinava karate shotokam. Depois veio para cá, e estava num dia num ginásio e passou no balneário um tipo equipado com o quimono de karate. Conversa puxa conversa e o jornalista deparou--se com uma coincidência: o mestre era o mesmo, só que agora dava aulas de goju-ryu. “Foi assim que recomecei nos anos 80 com o mesmo mestre. Desde aí não tenho parado. Não sou um karateca regular. Como sabes, na nossa profissão não temos horários regulares. Não consigo ir a esses torneios todos, mas lá vou desenferrujando.” Apesar disso, o karate tem um papel fundamental na sua vida: vai a Okinawa por ocasião do 65.º aniversário do Jundokan, a casa-mãe do goju-ryo. “Este estilo é muito tradicional. Tem muita influência chinesa. Okinawa tem essa característica, sempre foi muito influenciada pela cultura chinesa, eles próprios são uma certa mistura. É um arquipélago muito tradicional. Os americanos ocuparam o arquipélago, têm atualmente uma série de bases, mas a população local faz uma separação e não se deixa contaminar muito pelo Ocidente. Esse espírito permitiu-lhes manter muitas das coisas tradicionais. Quando os navegadores portugueses lá chegaram fizeram relatos da prática das artes marciais”, explica o jornalista.

A passagem de shotokam para goju- -ryu foi para “um estilo mais duro, em que o combate é mais próximo”. Neste estilo de Okinawa, as posições são mais altas e os golpes mais tensos, embora as transições sejam suaves e se dê muita importância a esse fluir das transições.

Outro aspeto interessante é a utilização de instrumentos agrícolas e de trabalho como armas, no ryukyu kobudô de Okinawa: sai (adaga de três pontas, utilizada em construção de cercas), nuchaku (matracas), tonfa (par de cassetetes), bo (bastão de 1,80 m), eku (remo), kama (pequena foice que normalmente se usa aos pares). Este utensílios passaram a ser artes marciais porque os chineses e, depois, os japoneses das ilhas dominantes proibiram os habitantes de Okinawa de usar armas, o que os levou a ter de aprenderem a defender-se com instrumentos de trabalho.

Sérgio Ribeiro Soares pratica há mais de 28 anos o karate goju-ryu. Apesar disso, vê-se como um praticante irregular: “Não sou um grande karateca, considero-me um diletante. Faço dentro da vida que nós temos. Faço-o para o meu bem- -estar. E como isto é uma arte tradicional, não a faço como competição, embora também exista, para os mais jovens. Nós damos muito mais importância à parte tradicional, o que permite praticar até sozinho.” Sérgio confessa com agrado que nunca teve de usar na sua vida as técnicas que aprendeu. “Só andei à pancada quando era miúdo. Isto dá- -nos mais autoconfiança, e isso permite-nos evitar conflitos. Para além disso, nós, sejamos ou não bons praticantes, não podemos usar isto numa contenda de rua porque, se vamos à justiça, isso pesa contra nós”, relembra. Usa-o mais para se sentir mais vivo. “Isto é bom para combater os efeitos da idade e manter alguma flexibilidade. Não é preciso ser um super-homem, basta ter alguma regularidade. E depois está-se sempre a aprender, o que é muito bom.” Para assinalar este ciclo de conhecimento, os cintos têm várias cores até ao negro e, depois, do dan até ao 10.o dan voltam a ficar brancos: uma forma de dizer que nunca se sabe o suficiente e que, por muito que se aprenda, sabe-se sempre muito pouco.

“O karate salvou-me e não estou a exagerar. A vida é tão complicada que é isto que me permite aliviar as tensões da vida. A gente entra no dojo e, passados dez minutos, não se lembra de nada do que se passou lá fora”, explica.

No fim do treino, Sérgio bebe uma cerveja com um colega. Chama-se Tiago Ventura e é militar. Dá instrução, mas não passa sem treinar karate. “O goju- -ryu dá-me calma, disciplina e a sensação de pertencer a qualquer coisa coletiva. Faça chuva, faça sol, venho treinar. Se não venho, sinto-me incompleto e arrependido”, diz o militar.

Goju-Ryu - No Desportivo de Monte Real, os treinos são às terças e quintas-feiras das 19h30 às 22h00, dados pelo sensei Nuno Cardeira 

Okinawa. Este arquipélago com mais de 150 ilhas tem um papel muito importante no desenvolvimento das artes marciais e, especificamente, do karate no Japão. Devido à falta de documentação e secretismo, muita da história do karate-do (o caminho da mão vazia, em que “do” é o caminho) é ainda nebulosa, até porque grande parte dos segredos dos mestres eram apenas transmitidos oralmente destes para os alunos. 

No entanto, é consensual que o karate tem origem na Índia e que faz o seu caminho quando o kempo é introduzido na China por monges budistas. É só em 1349 que a ilha de Ryukyu (em Okinawa) se torna uma região tributária da China, durante a dinastia Ming. Nessa altura são enviados representantes chineses que são acompanhados por centenas de artesãos, navegadores e monges, que vão sobretudo para a localidade de Kumemura (Toeii). Consta que foi nessa altura que foi introduzido o kempo para os nativos de Okinawa. Os habitantes das ilhas passaram a chamar a estas técnicas to-te (a mão chinesa), que seria o precursor do moderno karate-do. 

Em 1477, o rei Shoshin, de Okinawa, proibiu a posse de armas à classe guerreira das ilhas e obriga a nobreza a viver junto às muralhas do castelo. To-te e ryukyu kobudô (técnica com armas improvisadas) começaram a ser praticadas secretamente. Em 1609, o clã samurai de Satsuma invadiu Okinawa, mantendo a proibição das armas. Sem armas e sem poder treinar-se à luz do dia, os praticantes de to-te exercitavam-se durante a noite. A falta de documentos escritos deve-se também à necessidade de não deixar rastro. Os conhecimentos eram transmitidos oralmente. Dessa herança oral nasceram distintos estilos de to-te, ligados às aldeias de origem, como shuri-te, omari-te e naha-te. Os contactos com a China foram-se desenvolvendo até que, em 1936, uma reunião liderada por mestres de Okinawa aprovou mudar o nome de to-te para karate (mão vazia), tentando nacionalizar a arte marcial.