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Muay thai. A fabricante de campeões

Tem cinco títulos mundiais, dois europeus e um intercontinental de kickboxing e de muay thai. Dina Pedro só começou a praticar desportos de combate aos 17 anos, mas faz as coisas com tanta disciplina e profissionalismo que chegou ao topo. É a mesma fórmula que usa para treinar as suas classes, que têm grande parte dos atletas mais preparados das duas modalidades

O ritmo e a determinação são impressionantes. O aquecimento é feito numa sucessão contínua de exercícios dada pela voz de comando do instrutor adjunto. Os sacos de treino quase parecem rebentar com a sucessão de pontapés e murros que recebem. Nem o atraso da instrutora, presa no mais infernal trânsito das últimas sextas-feiras, atrasa o ritmo do treino. As dezenas de atletas, homens e mulheres, evoluem de uma forma profissional, como se os corpos estivessem educados para os movimentos precisos que executam por muitas horas de ginásio e de repetição disciplinada de exercícios. O ginásio é da Federação Portuguesa de Sumo e está na Quinta da Cabrinha, onde foram parar grande parte dos moradores desalojados do Casal Ventoso.

Dina Pedro foi várias vezes campeã europeia, mundial e intercontinental, de kickboxing e muay thai. Uma carreira internacional de sucesso para uma atleta que começou nas artes marciais apenas aos 17 anos. Já tinha feito outros desportos, nomeadamente atletismo, mas nunca tinha praticado artes marciais. “Conheci um rapaz que estava a ler uma revista de karate e que me perguntou se eu não queria experimentar. Eu disse-lhe que achava que já não tinha idade para aquilo, mas fui com ele experimentar uma aula de taekwondo – ele era mestre dessa arte –, mas eu não gostei nada e ele disse-me que se calhar ia gostar de kickboxing, e assim foi”, conta-me. No fundo, a arte marcial coreana perdeu uma campeã devido à timidez: “Eu, na altura, era muito tímida e o treino fazia-se numa sucessão de katas e golpes em que todos tínhamos de gritar ao mesmo tempo, e eu ficava envergonhada, não me agradava a ideia de ter de fazer tudo ao mesmo tempo e à frente dos outros.” Já no kickboxing era diferente, “algumas pessoas estavam a saltar à corda, outras a bater em sacos. Identifiquei-me logo com aquilo. Cada um fazia concentradamente aquilo que devia fazer.” O muay thai chegou um pouco depois. O instrutor de kickboxing foi à Tailândia e, passados uns tempos, Dina Pedro estava a treinar a modalidade thai.

Entre kickboxing e muay thai, Dina Pedro tem cinco títulos mundiais, dois europeus e um intercontinental. O que lhe deram as artes marciais? Dina Pedro responde de uma forma pensada: “Este tipo de desporto é um estilo de vida. A mim deu-me confiança. Eu era mais nervosa e introvertida, ganhei confiança e tornei-me uma pessoa mais calma e que comunica mais. De resto, nunca usei fora o que aprendi. A gente leva tantos murros e pontapés nos treinos que fica muito calmo na vida real. Quando há confusão, a gente passa ao lado.” (risos)

Apesar de ter feito muitos combates – eu, que assisti a alguns da sua ex-pupila Catarina Valério em Valência e na ilha tailandesa de Ko Samui, posso garantir que não são pera doce –, nunca sofreu um KO. A campeã justifica que apesar da dureza estamos perante um desporto, e não uma luta de rua. “Na rua é violência gratuita; no ringue é um jogo e as pessoas sabem do que estão à espera. Este é um desporto com uma das menores taxas de lesões.”

Treina 150 atletas, 40 estão em competição. Tem um dia pesado. Acorda às seis da manhã. Dá treino das 7 às 9 horas. Depois, durante o dia, organiza os treinos e os combates e dá novamente treino das 17 horas às 21h30.

Há no muay thai uma vertente tradicional, mais ligada à espiritualidade que têm todas as artes marciais de origem oriental. Mas o que Dina Pedro treina são desportos de combate, e não artes marciais – o que é diferente. Apesar de respeitar essa herança e a forma tradicional da arte marcial tailandesa, diz-se bastante mais terra-a-terra: “Eu não sou muito para transcendências, acho que é preciso estar aqui para as pessoas. A minha forma de entrega é estar disponível para os outros. Muitas vezes, as pessoas muito transcendentes andam nas nuvens e esquecem-se dos que estão ao lado. Eu gosto da parte desportiva e não sou muito espiritual. Sou uma pessoa das pessoas e pouco espiritual. Algumas pessoas perdem-se nessa viagem.”

O ginásio é num bairro, mas não há gente local a treinar. “Estamos aqui por causa do espaço. É um bom espaço e bem localizado. Não acho que os campeões tenham de vir do bairro. Ser campeão requer muita disciplina. Aqui no bairro, infelizmente, ninguém apareceu ainda com esse comprometimento.”

Há muitos anos filmei para uma reportagem um treino de muay thai feito no bairro da Arrentela, com o ginásio cheio de gente da localidade. Dina Pedro confirma que sabe dessa experiência; aliás, o instrutor Fábio, que dá esses treinos, estava presente na federação de sumo no dia em que falámos, mas atualmente 95% das pessoas que frequentam esses treinos são de fora da Arrentela. “Há a ideia de que as pessoas em bairros difíceis estão mais aptas para desportos de combate. Não é verdade. Um desporto de combate não é uma luta de rua. É sobretudo preciso disciplina e regularidade e vontade. É verdade que um rapaz da Arrentela, quando vai a primeira vez para o ringue com um beto, já levou um estalo na vida e, por isso, não tem medo. Mas isso é na primeira vez. A seguir é preciso ter condições para treinar todos os dias com disciplina. E aí o beto tem vantagem. Há muitos campeões que são betos.” (risos) Treina no ginásio vários campeões europeus e nacionais: seis dos sete atletas de alto rendimento de kickboxing e muay thai são seus alunos.

Muay Thai - Segundas, quartas e sextas das 17h30 às 19 horas e das 19h30 às 20h30 na Federação Portuguesa de Sumo. Terças e quintas das 7 às 9 da manhã no Chakra Gym, em Mafra

Tailândia e outras cenas. Há uns anos tive a sorte de fazer uma reportagem na Tailândia, na TVI, a acompanhar dois lutadores portugueses, Catarina Valério e Bruno Carvalho. A Tailândia tem como desporto mais popular o muay thai, que está inscrito na história do país, que nunca foi colonizado, como a “arte dos livres” - algo lendário que muitas vezes terá sido usado para garantir a independência dos tailandeses. 

 O cenário das lutas portuguesas dessa reportagem era um reality show com vários lutadores de vários países em que se misturavam cenas de treinos, visitas à ilha e o dia-a-dia no campo de treinos, com combates que iam eliminando lutadores. 

No meio da ilha, um pouco por todas as aldeias há campos de muay thai em que os jovens desde muito cedo praticam artes marciais. Existe também na Tailândia um turismo de desporto de combates em que as pessoas se inscrevem para campos de treino de muay thai. No programa conheci um lutador peruano que tinha um casal de lutadores russos como amigos e treinadores. Esse casal corria a ilha de mota, meio usado por toda a gente local, a participar em combates. Ela combatia e ele treinava-a. O peruano, que durante os combates aviou um lutador dos Estados Unidos bastante maior que ele, era um incansável contador de histórias da sua própria vida. Tinha treinado no Usbequistão e uma vez convidaram-no para um campeonato no Cazaquistão. Ele concordou em ir, mas disse que não tinha visto. Os organizadores disseram-lhe que não se preocupasse que estava tudo tratado. No dia combinado apanhou uma camioneta com outros lutadores. A meio do caminho pediram-lhe para passar para um carro. Estava ele no carro quando o condutor lhe perguntou: “Sabes nadar?” Ele respondeu que sim. O condutor parou o carro e disse-lhe: “Nada, que o Cazaquistão é do outro lado do rio.” E assim chegou o pobre peruano ao país onde ia disputar um campeonato.