Cultura

Sete momentos-chave para descodificar Cannes

Num festival mais descontraído e dedicado a causas, o cinema português está a marcar pontos. Diamantino, de Gabriel Abrantes, conquistou o prémio do júri da Semana da Crítica. Já a visão da natureza filmada por João Salaviza venceu a secção Un Certain Regard.

Este não foi seguramente um festival de estrelas ou starlettes - foram mais as causas que dominaram a programação. A primeira consequência até pode ter sido, ao contrário de alguns anos, a de um festival mais descontraído e menos caótico, com mais espaço, e não o eterno sofrimento e esperas para assegurar um lugar nas sessões. Para quem vai a Palma? Essa é a eterna pergunta.

Spike Lee, o BlakKklansman

Spike regressou a Cannes quase três décadas depois de A Malta do Bairro. Em 1989 acreditava que poderia vencer, mas não aconteceu. Por aqui argumenta-se que BlakKklansman é demasiado light para compor uma Palma de Ouro. Em qualquer caso, é fortíssimo o efeito da inacreditável história em que o polícia negro Ron Stallworth e o seu colega branco (interpretado por Adam Driver) ludibriam o líder local do Ku Klux Klan e acaba mesmo por ascender à liderança da organização. Pelo meio, Spike Lee não se esquece de citar o racismo presente nos clássicos intocáveis E Tudo o Vento Levou e O Nascimento de Uma Nação. E o lado light é contrabalançado com o choque de revermos o incidente de Charlottesville e com Spike a excomungar o Presidente Trump.

A luta quixotesca de Terry Gilliam

Vimos finalmente o filme da discórdia. E o que apetece dizer é que o ex-Monty Python foi fiel à sua visão da narrativa de Cervantes, deixando-a atravessada por diversos níveis de fantasia, em que a realidade e ficção se combinam em diferentes níveis, e até com o diálogo entre a rodagem de um filme e a obra original. Em particular entre Jonathan Pryce, que Terry recupera depois de Brazil, como Quixote, e Adam Driver, de novo, como o publicitário que se envolve no interior da sua própria fantasia. Foi bom também recuperar o efeito cénico retirado do Convento de Cristo, em Tomar, onde foi rodada a parte mais relevante do filme. Projeto esse que se mantém ligado ao imbróglio jurídico, pelo aviso que antecede o filme e que indica que o produtor Paulo Branco continua a manter válida a sua pretensão.

Gabriel Abrantes superstar

Não terá sido apenas pela paródia à persona, imagem e estatuto da super-estrela Cristiano Ronaldo que o júri da Semana da Crítica lhe atribuiu o melhor prémio pelo filme Diamantino. É claro que a prestação fora dos limites de Carlo Cotta acrescenta maior espessura a esta primeira longa metragem de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. E que bom foi saborear o sentido de humor desconcertante e explosivo servido pelas gémeas Anabela e Margarida Moreira. É claro que Diamantino será sempre um filme divisionário. Como tudo aquilo que se sente melhor quando está fora dos padrões estéticos mais ou menos instituídos. Terá sido por aí também que o júri se terá decidido.

A selva segundo João Salaviza

É a força do cinema português, com o prémio do Júri da secção Un Certain Regard, para Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora, nesta genial incursão de um cinema reinventado pela selva brasileira ao encontro da comunidade dos índios Krahô. Uma visão da natureza tão sentida que não víamos desde O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, de Apichatpong Weerasethakul, e que viria a ganhar a Palma de Ouro em 2010. 

O Climax de Gaspar Noé

Gaspar Noé foi igual a si próprio em mais um filme feito de excesso que veio a ganhar o prémio da Quinzena dos Realizadores. Climax pode nem superar os anteriores, quase sempre demonizados por parte da crítica e do público, mas este filme tem o sabor de uma vingançazinha que Noé serve com sangria, muita música e LSD.

Os excessos de Lars Von Trier

Igual a si próprio, ainda que visivelmente debilitado, o dinamarquês cumpriu pena e regressou já sem ser ‘persona non grata’. Se bem que com um filme em que parece ter desejado ir até mais longe na sua provocação. The House That Jack Built é um exercício vincado de tortura e horror a que um desadequado Matt Dillon em versão serial killer parece ser empurrado para essa avenida de horror e composição de retratos macabros com as suas vítimas. O problema é que este exercício monótono e inócuo demora tempo demais a justificar-se. Só mesmo recuperado num final de torture porn em que a única solução parece ser superar todos os limites. Com o pormenor algo gratuito de incluir imagens do Holocausto e perigosos comentários nazis.

E a Palma?

Venha o júri e decida. Ou seja Cate Blanchett, a presidente, Kristen Stewart, Léa Seydoux, Robert Guédiguian, Denis Villeneuve e Andrey Zvyagintsev, Khadja Nin, Ava Duvernay e Chang Chen.

Um opção que não terá os mesmos critérios que a imprensa e que poderá privilegiar o cinema de espetáculo, mas também de causas - do racismo, como em BlackKklansman, de Spike Lee, o abandono de menores, no tocante Capharnaum, da libanesa Nadine Labaki, ou a variante de rapto de menores em Shoplifters, do japonês Hirozaku Koreeda. Hoje ao fim da tarde ficaremos a saber tudo.

Uma parceria com www.insider.pt