Cultura

‘Os dinossauros usaram maquilhagem e tinham direito à sua própria rulote’

Neal Scanlan, responsável pelos efeitos especiais e autor dos gigantes mecânicos de Mundo Jurássico: Reino Caído, conta como durante as filmagens os dinossauros tinham um estatuto idêntico às estrelas de carne e osso. O filme de JA Bayona estreou-se na semana passada nas salas portuguesas.

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Mundo Jurássico: Reino Caído mostra Isla Nubar e os seus habitantes reptilianos sob a ameaça de algo ainda mais perigoso do que o mais forte dos dinossauros: um gigantesco vulcão, que vai destruir a ilha e provocar a extinção dos animais. Poderão eles ser ainda salvos da aniquilação definitiva?

Vencedor de um Óscar por Um Porquinho Chamado Babe, Neal Scanlan é um dos mais respeitados criadores de monstros e de efeitos especiais de caracterização de Hollywood, tendo participado em filmes como O Paciente Inglês, Charlie e a Fábrica de Chocolate ou Star Wars. Nesta entrevista explica como deu vida a dinossauros há muito extintos e o que acontece aos robôs, conhecidos no meio por animatrónicos, depois de terem cumprido o seu papel num filme.

O primeiro Parque Jurássico e os filmes que se seguiram contribuíram para o avanço da tecnologia dos efeitos especiais. Sentiu a pressão de ter de fazer algo novo?

Parque Jurássico foi um marco na história do cinema, uma vez que se tratou da primeira ocasião em que o público testemunhou todo o potencial de uma nova era digital, equivalente ao que eu diria que foi a primeira vez que os espetadores ouviram um ator no ecrã a falar. O trabalho do estúdio de Stan Winston, que forneceu os dinossauros animatrónicos para o filme, também foi o culminar desse desenvolvimento. Para mim, o filme constitui uma referência técnica e criativa de efeitos especiais. Nos anos que se seguiram, à medida que os efeitos digitais se tornaram cada vez melhores, houve um declínio dos efeitos físicos. No caso de um animatrónico não foi tanto a complexidade técnica, mas a sua capacidade para representar, como se fossem atores, que ditou o seu sucesso. Muitas vezes isso pode ser conseguido com os meios mais simples. Hoje temos a grande vantagem de podermos apagar digitalmente os mecanismos de articulação, como varetas e fios. Isto traz-nos grandes possibilidades de darmos vida aos nossos dinossauros, manipulando-os como se fossem marionetas, em vez de usarmos um motor elétrico ou uma válvula. Assim, diria que a pressão de trazer algo de novo teve mais que ver com apresentar os animatrónicos menos como efeito especial do que como um membro do elenco.

A impressão 3D faz hoje parte da vida. Isso ajuda o seu processo de trabalho?

Imenso. Por exemplo, o T-Rex existia como ficheiro digital do filme anterior. Agora pudemos usar esses ficheiros para imprimir uma réplica a 3 dimensões em tamanho real. Essencialmente, isto foi conseguido imprimindo porções com 30 cm quadrados, e depois juntando-as como um puzzle quebra-cabeças. Até há pouco tempo isto não teria sido simplesmente possível. A alternativa seria esculpir o T-Rex a partir de desenhos bidimensionais. A outra vantagem de trabalhar com 3D é que conseguimos construir os mecanismos internos e muitos outros aspetos do esqueleto do animatronic no computador antes de os conjugarmos com os elementos do mundo real. A oportunidade de explorar este meio e de construir dinossauros em paralelo permitiu-nos construir os animatrónicos em tempo recorde.

Tem uma grande experiência neste tipo de filmes. Mas ainda há algo de especial quando se trata de trabalhar num filme do Mundo Jurássico?

Quando fui ver o Parque Jurássico nunca imaginei que um dia ainda viria a construir os dinossauros para este filme. Tenho um respeito enorme pelo Stan Winston e pela sua carreira, por isso sinto-me imensamente orgulhoso de ter sido considerado digno de continuar esta tradição de usar efeitos práticos como parte de dar vida a estes dinossauros. E sim, são mesmo dinossauros.

O realizador, JA Bayona, também trabalhou com esse tipo de efeitos. Isso permitiu um bom entendimento entre vocês os dois?

Sim. Permitiu-nos muito rapidamente começar a falar de cada cena e do que pretendíamos, em vez de nos distrairmos com considerações de ordem técnica. Ele foi muito gentil em deixar-me interpretar as suas diretrizes para a minha equipa, o que resultou numa excelente relação profissional.

Houve muita colaboração entre a sua equipa e os responsáveis pelos efeitos digitais?

Sem dúvida. Desde o início, sempre que achássemos que podíamos contribuir para uma cena, discutíamo-la em conjunto. Além disso partilhávamos e trocávamos informação constantemente. Por exemplo, assim que acabávamos de esculpir um dinossauro ele era scanado, e os efeitos digitais usavam-no como modelo. Também podíamos ver e rever os esquemas de cor, níveis de brilho e luminosidade, etc. Sempre na esperança de que o público não distinga quando está a ver um dinossauro físico de quando está a ver um gerado por computador.

Também é creditado pela supervisão da caracterização. Isso significa que criou efeitos para as pessoas, para coisas que lhes possam ter acontecido?

Sim, ocasionalmente. Se um dinossauro provocava uma ferida em alguém numa cena que estávamos a filmar fisicamente tentávamos incluir isto no efeito de conjunto. Por exemplo, há uma cena em que um ator fica sem uma perna. Isto foi criado usando ângulos de filmagem criativos e um pouco de magia do mundo real. Vejam a cena, é memorável. 

O som também tem uma palavra a dizer no seu trabalho? Têm sons no set?

Normalmente não, mas como o JA é o mestre do suspense, punha a passar nas colunas (e sem aviso) um rugido de dinossauro, ou uma passagem da música de um dos filmes anteriores. O efeito provocado é uma experiência mais intensa para todos no set. Acho que isso ajudou a tornar mais credível para os atores trabalharem com os nossos animatrónicos.

No final de um filme costuma ficar apegado às suas criaturas?

De uma forma sentimental diria que não, mas, por causa do tempo que passamos com elas, tornam-se as coisas mais importantes das nossas vidas. Tratamo-las como membros do elenco, pomos-lhes maquilhagem, têm o apoio de uma equipa que se certifica de que estão com bom aspeto. Além de terem direito à sua própria rulote, têm o mesmo estatuto que os protagonistas. Infelizmente, assim que as filmagens acabam, são mandadas para um armazém e podem nunca mais ser vistas.  

Entrevista cedida pela Universal Studios