O mundo em Calções

O sol que brilha na beira da estrada

O Uruguai, ou mais criteriosamente República Oriental do Uruguai, antiga colónia portuguesa do Sacramento,  é  um país tão mal divido em termos populacionais que praticamente dois dos seus três milhões e meio de habitantes vivem na capital, Montevidéu, sobrando o resto para cidadezinhas de província como é o caso de Paysandú, considerada a terceira mais importante, mas  que não vai além das suas 73 mil almas. Uma dessas almas chamava-se Claudina Vidal e só não ficou para a história do futebol porque passou por ela à tangente, esquecida, entretanto, por entre catetos adjacentes e catetos opostos.

Passaram-se, pelo meio, quase cinquenta anos e aposto que já ninguém se lembra de uma Claudina Vidal, professora, a menos que haja para aí outras com o mesmo nome e a mesma idade. Claudina teve o descaramento divino do imarcescível Eça: resolveu jogar futebol com homens e não foi possível demovê-la dessa intenção. Aos 20 anos foi autorizada pela Liga de Regional de Paysandú a jogar no clube local, o Sud America. Era ponta-de-lança e marcava golos. Não era como os avançados-centro que o meu querido amigo Walter Ferreira, que cedo se encantou com a graça e elegância de um Guimarães Rosa, impingia aos presidentes de clubes que lhe ligavam: «Quer um que marque golos ou não? Se quiser um que não marque golos arranjo-lhe já e barato».

Bem, Claudina Vidal tornou-se um foco de interesse para os adeptos do Sud America, como não poderia deixar de ser. O clube estava satisfeito com a sua coqueluche, o ambiente entre ela e os companheiros rodava sem atritos mas, nestas coisas de singularidades, há sempre gente que embirra, bate o pé e vai à procura de sarilhos. Curiosamente, ou talvez não, foram os árbitros que começaram a espinafrar com a presença da damisela por entre os chicos. O Sud America esteve-se pura e simplesmente nas tintas: Claudina jogava e ponto final.

Já os burocratas da Liga Regional decidiram fazer uma exposição à Federação Uruguaia de Futebol. Não havia nada nos regulamentos que proibisse uma mulher de jogar numa equipa de homens. Claudina acabaria por ser boicotada e afastada do Sud America. Um daqueles casos em que o preconceito perde o sentido do seu pre. Guimarães Rosa também dizia: «O mundo é mágico; as pessoas não».

Claudina foi mágica, à sua maneira, enquanto marcava golos a homens no seu estilo perfumado de menina. Tal como a baronesa Maria Antonietta Avanzo. A primeira vez que li sobre ela foi num livro de Enzo Ferrari sobre os pilotos que conheceu ao longo da sua carreira de corredor, técnico e fabricante de automóveis de competição: Pilotti, Che Gente. Dizia Enzo que Maria Antonietta era uma garibaldina, termo que no mundo das corridas define um condutor com pelo na venta, expressão não muito a propósito de uma baronesa, mas foi o que se arranjou. 

Apesar de o nome não lhe dar muitas garantias quanto à invulnerabilidade do pescoço, Maria Antonietta tornou-se na primeira mulher a disputar com os homens as grandes provas internacionais de automobilismo da década de 1920. A sua rocambolesca vitória no Giro del Lazio, ao volante de um Buick, tornou-a indispensável. Depois a lenda fez a sua parte. Como na tarde em que, na ilha de Fano, na Dinamarca, o seu Packard de 12 cilindros pegou fogo e ela teve a serenidade de sair do percurso e de o conduzir até ao mar, mergulhando ambos numa onda extintora. Ela estava sempre no fundo de cada vontade encoberta. 

Enzo Ferrari descreve que a baronesa saltou para a praia com uma disposição que não admitia controvérsias: «Que porcaria de carro! Quero conduzir um FIAT!» O grande Alberto Ascari fez-lhe a vontade: deu-lhe um FIAT em troca do Packard amarado.

Embora o nome não lhe garantisse a invulnerabilidade do pescoço, Maria Antonietta tornou-se a primeira grande piloto de corridas