Opiniao

Jogadores são culpados do requiem à Taça Davis

Num Mundo perfeito, a Taça Davis não teria sido mutilada, mas, sejamos justos, era imperativo, porque há três décadas que os melhores jogadores não participavam

A Assembleia Geral (AG) da Federação Internacional de Ténis (ITF) aprovou a reforma da Taça Davis que, em 2019, passará a ter um formato mais semelhante ao Campeonato do Mundo de futebol, ao qual não será estranho o facto de um dos mentores do novo projeto ser o futebolista Gerard Piqué.

Votou-se favoravelmente por 71% num universo de 459 representantes de 147 países. Exigia-se uma maioria de dois terços e foi largamente superada.

Alguns países com instintos mais democráticos - caso da França - organizaram AG extraordinárias para que as associações regionais e os clubes decidissem o sentido de voto. Outros delegaram diretamente nos presidentes federativos. Portugal votou a favor com os seus 3 votos.

Em democracia o voto é soberano. Apesar do desagrado generalizado dos tradicionalistas, entre os quais me incluo, a Taça Davis como a conhecemos, nascida em 1900 quase igual ao que era hoje (algumas alterações introduzidas não afetaram o espírito da competição), vai acabar em 2018.

É impossível explicar aqui todas as alterações, mas o mais importante é que em vez de eliminatórias ao longo do ano, com um país a receber em casa um adversário, passará a haver uma fase final num único local, durante uma semana, em novembro, após o Masters, com 18 nações. Realizam-se seis grupos de três equipas para apurar os quartofinalistas que a partir daí jogam em eliminação direta.

Isto no Grupo Mundial, ou seja, na primeira divisão. Nas divisões secundárias não há praticamente alterações. Portugal, que nunca acedeu ao Grupo Mundial, permanecerá na filosofia antiga da competição, apesar de alguns ajustamentos para tornar o jogo mais rápido, com confrontos entre um país visitante e um visitado.

Num Mundo perfeito, a Taça Davis não teria sido mutilada, mas, sejamos justos, era imperativo porque há três décadas que a maioria dos melhores jogadores não participava regularmente nela e os patrocinadores estavam saturados.

Até finais dos anos 90 do século XX a Taça Davis era ainda considerada pelos próprios jogadores como um dos troféus que teria de obrigatoriamente fazer parte do palmarés de quem quisesse ser considerado um dos melhores de sempre. Mas mesmo nessa altura já muitos craques ‘esnobavam’ a prova.

Hoje em dia, quando se comparam entre si, os campeões só falam de Majors, do n.º1 mundial e, eventualmente, dos Jogos Olímpicos, do Masters e dos Masters 1000.

É uma hipocrisia os jogadores lamentarem-se e acusarem os dirigentes. Era preciso salvar a Taça Davis porque os jogadores deixaram-na chegar a um estado comatoso.