Internacional

Brexit. O labirinto de May

Theresa May não deverá conseguir  passar  acordo no Parlamento. Voto da Europa permanece uma incógnita. 

Asaga Brexit continua e está para durar. Desta vez foi o ex-secretário de Estado britânico para o Brexit, Dominic Raab, a protagonizar mais um momento de crítica ao documento dentro dos conservadores, dizendo que o mesmo é «ainda pior» do que o Reino Unido permanecer como Estado-membro da União Europeia. O homem que esteve no centro das negociações e que abandonou o governo depois de Theresa May  ter pedido a aprovação do documento ao seu Executivo, respondeu desta forma à BBC. 

Quando questionado sobre o facto de alguns ministros estarem a considerar pedir à UE mais um ano de transição, pagando-se algum dinheiro em troca, Raab afirmou que «certamente estaria pronto para fazer uma melhor oferta final», mas esse «não é o curso que a primeira-ministra tem vindo a tomar». Quanto ao futuro, «veremos inevitavelmente o Parlamento votar contra este acordo» e só depois haverá espaço para que  «outras alternativas entrem em ação», defendeu.

De facto, superar o não dos deputados surge como missão quase impossível para May. Do lado da oposição o voto contra o acordo foi, de resto, uma promessa imediata de Jeremy Corbyn, líder do partido Trabalhista,  que o definiu como «o pior de dois mundos».

Dentro do seu próprio partido, May também enfrenta oposição feroz. Já houve uma tentativa de a derrubar, liderada pelo deputado Jacob Rees-Mogg, convicto defensor do Brexit, que pediu formalmente que May «se afastasse». A tentativa saiu gorada, mas isso não significa que a chefe do Executivo tenha o apoio de todos os conservadores quando chegar o momento da votação. Na Câmara dos Comuns, Sir Bill Cash, um conservador apoiante do Brexit, criticou o documento, chamando a atenção para o facto de este ser «autocontraditório», já que os juízes europeus ainda teriam um papel na decisão das leis britânicas.

A ambiguidade a que pode ficar votada a Irlanda Norte, temendo-se em Londres que este território fique subjugado à vontade de Dublin e Bruxelas, tem também levantado reparos. Vários membros do partido e apoiantes do divórcio entre o Reino Unido e a União pediram a May para reformular as cláusulas que definem que nenhuma fronteira será erguida entre a República da Irlanda, na União Europeia, e a Irlanda do Norte.

Sensíveis a esta questão estão, igualmente, os membros do Partido Democrático Unionista (DUP), da Irlanda do Norte, e apoiantes do Governo minoritário. A imprensa britânica avançou que Arlene Foster, a líder do DUP, deverá solicitar, este sábado, na conferência anual do partido, o apoio dos seus correligionários para votarem contra a proposta. E sem estes deputados May não teria maioria parlamentar, mesmo com todos os deputados conservadores do seu lado.
Respondendo a esta ameaça, May escreveu, sexta-feira, na sua conta do Twitter: «Eu fui sempre clara ao dizer que conseguir o acordo certo para o Brexit significa obter um acordo que seja certo para todo o Reino Unido – e isso inclui a Irlanda do Norte».

Fora das sua fronteiras, o governo britânico tem ainda de lidar com a oposição de Espanha, que se tem mostrado descontente no que concerne ao futuro de Gibraltar. A posição do Governo espanhol está a transformar a cimeira deste domingo, que vai juntar os 27 Estados-membros para votarem a versão final do Acordo de Saída do Reino Unido da UE, numa incógnita com desfecho imprevisível. 

Mas não é só Espanha a apresentar exigências de última hora, o presidente francês, Emmanuel Macron, quer definições sobre um assunto sensível, que foi adiado do acordo entre Londres e Bruxelas, que se prende com os direitos e quotas de pescas.

A Alemanha, que inicialmente procurou acalmar os ânimos, garantiu que a chanceler Angela Merkel não irá a Bruxelas se até domingo as questões ainda pendentes não estiverem resolvidas. Quanto a Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, definiu o acordo como «muito satisfatório», adivinhando-se que haverá luz verde de Lisboa.