Internacional

Espanha e Reino Unido em ‘guerra’ por Gibraltar

Madrid ameaça vetar acordo para o Brexit se não tiver garantias quanto a Gibraltar.

Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, ameaçou vetar o acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia, caso o estatuto de Gibraltar não fosse definido. Na sua conta Twitter Sánchez proferiu esta quinta-feira: «Depois da minha conversa com Theresa May, as nossas posições permanecem distantes. O meu Governo defenderá  sempre os interesses da Espanha. Se não houver mudanças, vamos vetar o Brexit».

 A primeira-ministra britânica, que se tinha mostrado esperançosa quanto a uma resolução, dissera um dia antes de Sánchez publicar a ameaça: «Falei com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e estou confiante de que no domingo poderemos chegar a um acordo que sirva para todo o Reino Unido, incluindo Gibraltar».

Não só não parece ter havido entendimento como, a estas palavras, seguiu-se a acusação de que o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte está a actuar «na escuridão» e «traiçoeiramente» contra o Reino de Espanha. As denúncias, que podiam ter sido retiradas de uma peça de Shakespeare, foram  proferidas pelo secretário de Estado espanhol para a União Europeia, Marco Aguiriano. 

Em causa está uma cláusula no documento para a saída do Reino Unido onde se determina que a situação do Rochedo será discutida num futuro acordo comercial, a ser negociado com Bruxelas. A determinação do Governo espanhol em não permitir que o futuro de Gibraltar seja feito sem  o seu consentimento levou a que Aguiriano dissesse: «Estamos preocupados porque este parágrafo, que foi introduzido quase traiçoeiramente e na escuridão, poderia ser usado pelo Reino Unido, no futuro, para argumentar que um futuro acordo entre a UE e o Reino Unido poderia ser aplicado a Gibraltar, sem necessariamente exigir o acordo prévio de Espanha».

Qual mau augúrio de um oráculo, o governante espanhol proferiu que «os minutos que atravessam a noite e as primeiras horas da manhã contam». Ameaçando adiar a reunião dos 27 Estados-membros, que decidem este domingo quanto ao futuro das relações com a Grã-Bretanha, afirmou que «o relógio poderia até ser parado e outro Conselho Europeu poderia ser chamado». Até porque o Executivo espanhol «mostrou muito claramente qual é a sua posição: não concordará com o acordo de retirada e a futura declaração no domingo se a questão que eu já delineei em detalhe não for esclarecida», salienta Aguiriano.

Por seu turno, o ministro de Gibraltar, Fabian Picardo, criticou a insistência de Madrid em ter uma garantia por escrito, dizendo que «Gibraltar demonstrou que quer um envolvimento direto com Espanha», recordando que «Espanha é a porta de entrada física e geográfica da Europa para Gibraltar». À BBC, Picardo referiu: «Nós reconhecemos isso e não há absolutamente nenhuma necessidade de veto».

Mesmo que Espanha vote contra, isso não significa que o Brexit esteja chumbado. Não tendo poder de veto, Madrid poderá, ainda assim, influenciar outros países a juntarem-se à sua causa, travando as negociações. Em aberto fica a hipótese de a decisão ser adiada para o próximo Conselho Europeu, em dezembro.