Internacional

Brexit. May vence voto de confiança mas não convence

A primeira-ministra britânica ganhou a moção de confiança por 200 votos a favor e 117 contra. O número de votos contra deixou de surpreender, sendo elucidativo da guerra civil que se vive no partido conservador

A fação rebelde pró-Brexit dos conservadores britânicos não conseguiu afastar Theresa May, da liderança do partido. A primeira-ministra ganhou a moção de confiança com 200 votos a favor e 117 contra, mesmo assim, dizem os analistas, não sai fortalecida. Para vencer com uma diferença significativa teve de garantir que não se recandidataria nas eleições de 2022, deixando, no entanto, em aberto essa possibilidade em caso de eleições antecipadas. Agora pode voltar a concentrar-se no grande desafio de tentar aprovar no parlamento o acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia - cenário que se mostra bastante improvável. 

May soube que a liderança conservadora seria contestada no grupo parlamentar na noite de terça-feira e, ao longo do dia de ontem, não fugiu ao combate - uma característica sua bastante conhecida. “Vou disputar esta votação com tudo o que tenho”, disse a primeira-ministra logo pela manhã em Downing Street. “Uma mudança da liderança conservadora irá colocar o futuro do país em risco e criar incerteza quando não a podemos ter”, acrescentou, referindo que “uma nova liderança não estaria pronta para respeitar o prazo legal [da votação do acordo] até 21 de janeiro”. 

Nos bastidores, deputados,  ministros e assessores de May não se pouparam a esforços para influenciar os deputados, a que se somou um pequeno discurso de May, onde anunciou que abdicava de se recandidatar nas  eleições legislativas de 2022 se os deputados a apoiassem para vencer a moção de confiança. 

“[May] não acredita que a votação de hoje [ontem] seja sobre quem liderará o Partido Conservador nas próximas eleições, mas sobre se é sensato mudar de líder neste momento do Brexit”, disse fonte de Downing Street ao “Guardian”. 

Antes do anúncio - como se de uma onda se tratasse -  sucessivas declarações de deputados a apoiar May vieram a público e às 19 horas já eram mais de 170. A vitória da primeira-ministra estava garantida, faltava saber qual a margem - se fosse pequena teria de se demitir. A informação avançada visava conquistar os deputados indecisos. No final, a margem não foi pequena, mas o número de votos contra não deixaram de surpreender e é elucidativo da guerra civil que se vive dentro do partido.  

“Uma eleição para a liderança não irá alterar o fundamental das negociações ou da aritmética parlamentar”, explicou May, num aviso claro para o líder da fação rebelde, Jacob Rees-Mogg. A líder conservadora chegou mesmo a agitar o fantasma de um futuro governo trabalhista caso o seu governo caísse: “A maior ameaça para o Reino Unido não é o Brexit, mas um governo Corbyn”. 

Por seu lado, o líder trabalhista exigiu que o acordo fosse votado na Câmara dos Comuns e criticou a forma “totalmente inaceitável” como o governo tem tratado o parlamento, ignorando a moção de confiança conservadora. O líder trabalhista sabe que a votação do acordo será o momento de fratura entre os conservadores e os unionistas norte-irlandeses. Daí Corbyn recusar avançar de imediato com uma moção de censura, dizendo que ainda não é o “momento apropriado”. 

Ainda que May tenha ganho o voto de confiança, terá ainda de fazer com que o acordo seja aprovado no parlamento e, porventura, de manter o seu parceiro de coligação consigo - o Partido Unionista Democrático - para derrotar uma eventual moção de censura apoiada por toda a oposição, incluindo o Partido Trabalhista. Para garantir o apoio do DUP, precisa de renegociar as cláusulas do acordo referentes à fronteira entre as duas Irlandas, mas ontem o Parlamento Europeu reiterou a recusa europeia de reabrir as negociações.