Sociedade

Bispo do Porto. Nos casos mais conhecidos de abuso sexual em Portugal, não houve "uma intimidade daquelas mais chocantes”

D. Manuel Linda fala sobre o fenómeno dos abusos sexuais na Igreja Católica

O bispo do Porto considera que que o fenómeno dos abusos sexuais na Igreja Católica são “fundamentalmente anglo-saxónicos” e que a forma de estar e pensar nos anos 60 e a psicologia usada para integrar os mais novos poderá ter contribuído para o crescimento do número de casos. Quanto aos casos mais conhecidos em Portugal, D. Manuel Linda acredita que não se trataram de situações com a “dimensão de gravidade de que estamos habituados a ouvir falar quando falamos de pedofilia”.

“Este foi um fenómeno fundamentalmente de países anglo-saxónicos. Na Europa aconteceu em alguns lados, aconteceu na Alemanha, mas não aconteceu com a mesma escala que consta que aconteceu nos Estados Unidos e na Austrália. O que é que se passou? Houve uma altura, nos anos 60 e 70, em que um determinado género de psicologia falava exatamente de uma aproximação, talvez demasiado íntima, afetiva, entre os mais velhos e os mais novos, até como forma de integração dos mais novos”, disse D. Manuel Linda em entrevista ao Público e à Rádio Renanscença.

“É provável que alguns sacerdotes tenham sido vítimas disso mesmo, dessa corrente de psicologia. E, fundamentalmente, naquela altura de instabilidade que se seguiu ao Concílio Vaticano II, alguns não encontraram mais as pedras de fundamentação nas quais assentavam os pés. Houve uma certa mudança de perspetiva da Igreja e alguns perderam a cabeça. Mas essa cabeça não foi apenas perdida a nível da sexualidade, porque a enormíssima maioria desses que cometeram abusos já não estavam no sacerdócio ativo. Foram pessoas que deixaram o sacerdócio, abandonaram-no às vezes até com muito estrondo”, acrescentou.

O bispo do Porto falou também sobre os casos que são conhecidos em Portugal: “Aqueles dois casos – o da Madeira, com o célebre padre Frederico, e, recentemente, o caso da Guarda -, tudo leva a crer que não tenham tido aquela dimensão de gravidade de que estamos habituados a ouvir falar quando falamos de pedofilia. Talvez tenha havido alguma intimidade, mas não uma intimidade daquelas mais chocantes”.