Opiniao

A sopa perdida de Garcia Marquez

Bogotá, Calle 7. O dr. Jorge Eliécer Gaitán e o seu grande amigo Plinio Mendoza Niera sairam de braço dado pela porta do edifício Agustín Nieto. Estava frio nesses primeiros dias de abril de 1948, mas havia um sol acolhedor sobre a cidade da Santa Fé. E, na véspera, Gaitán estivera brilhante na barra do tribunal. Em Viver Para Contá-la, Gabriel Garcia Marquez fala desse momento: «Gaitán era o homem do dia em todos os noticiários por ter obtido um perdão para o tenente Jesus María Cortés Poveda, acusado de ter assassinado o jornalista Eudoro Galarza Ossa. (...) No meio de toda esta atmosfera intensa, sentei-me para almoçar na sala de refeições da pensão onde morava, a menos de três quarteirões do cruzamento entre Carrera Séptima e a Avenida Jimenez de Quesada. Ainda não tinha tocado na sopa quando Wilfrido Mathieu se sentou horrorizado à minha mesa: ‘Este país está fodido! Mataram Gaitán em frente ao El Gato Negro!’».

A vitalidade anfetamínica do repórter Garcia Marquéz, do jornal El Universal, fez com que saltasse da cadeira e corresse por entre as ruas apinhadas do centro de Bogotá até ao lugar onde Gaitán estivera estendido. Só encontrou uma poça de sangue e alguns doentios curiosos que a cheiravam como chacais. Ao lado, por detrás das grades de ferro da mercearia Granada, o homem que o baleara pelas costas, suplicava a um polícia: «Por favor, não deixe que me matem!». Tinha 26 anos, sofria de esquizofrenia e parece que odiava Jorge por lhe ter recusado um emprego. A filha de Gaitán, Gloria, não tardou a apontar o dedo acusador à CIA. Outra teoria, bem menos credível, baseava-se numa ordem dada por um jovem cubano ao serviço da União Soviética. O mesmo jovem cubano que tinha um encontro marcado com o advogado, pelas três horas dessa tarde: Fidel Castro. A morte antecipou-se.

Nos dez anos que se seguiram, os mortos tomaram conta da Colômbia e transformaram o país num corso infindável de cerimónias fúnebres. Chamaram a esse período triste ‘La Violencia’. Em contas, por alto, mais de 300 mil assassinados.

1948 foi o ano em que as balas se espalharam pelas ruas das cidades colombianas e foi, também, o ano em que se disputou o primeiro campeonato profissional de futebol do país. E sim, os fenómenos foram propositadamente coincidentes. O Governo de Mariano Ospina Pérez apoiou seriamente a competição numa tentativa declarada de encontrar um entretenimento popular. O professor e escritor Guillermo Ruiz Bonilla afirma-o firmemente: «Não tenho quaisquer dúvidas de que o futebol se tornou num apelo às massas para se afastarem da violência que surgiu após o assassínio de Gaitán. Uma arma que o Governo podia dominar. Nada se lhe comparava em entusiasmo. Quanto muito as corridas de cavalos. Se Gaitán não tivesse morrido, o campeonato teria sido adiado por mais dez ou doze anos». Assim sendo, de maio a agosto, o futebol criou raízes nos campos da Colômbia como se fosse mais uma das 130 mil espécies diferentes de flores que crescem nos cerrados que rodeiam Bogotá.

Dia 11 de agosto, 11 horas da manhã. Precisamente 126 dias sobre a morte de Gaitán, tinha início o primeiro jogo da que ficou conhecida pela Dimayor. Todo o poder financeiro e influência política levavam a crer que o Millionarios seria campeão com uma perna às costas. Afinal tinha como presidente um empresário e advogado, Manuel Briceño Pardo, proeminente membro do Partido Conservador. Só que o futebol tem dentro de si uma irresistível alma libertária.

Chonto é uma palavra que pode ser traduzida de muitas formas. Para começar, trata-se de um tomate, assim meio em forma de ovo. Depois serve como adjetivo ou alcunha: duro, forte, resistente.

Enquanto os rapazes do Millionarios passeavam orgulhosos as suas camisas de linho, o Independiente de Santa Fe, dos estudantes do Colegio Mayor de Nuestra Señora del Rosario, ironicamente tratados por Cardenales, dedicou-se à tarefa de ser o primeiro campeão colombiano. Na baliza, tinha Julio Gaviria Zapata, ‘El Chonto Zapata!’. E nunca ninguém como Zapata. Um absoluto dominador dos ângulos. Um passo apenas, para frente ou para o lado, fechava o espaço do golo adivinhável. Uma agilidade voadora que abria bocas de espanto; uma forma de segurar a bola que fazia com que os seus braços parecessem asas que algum deus distraído se esqueceu de acabar. E ainda por cima, um emérito contrariador de penalties. Talvez a sua presença escura debaixo da trave assustasse os adversários. Ficava calmamente à espera de os ver correr para a bola, a sua imobilidade esticava-lhes os nervos até à tensão de uma corda de violino. Depois, simplesmente, encarnava o indomável coração de Santa Fé de Bogotá. Talvez Gaitán tenha aproveitado a morte para poder vê-lo do céu.

afonso.melo@newsplex.pt