Opiniao

Era ele e a sua sombra...

Africville: eis um nome de fazer bimbalhar os sinos do campanário da nossa imaginação. Fica no Canadá, na Nova Escócia, e como é de supor não ganhou o nome por teimosia de um dos seus fundadores e sim por via de uma forte migração de negros escravos fugidos à revolução Americana. Na sua maioria naturais da África Ocidental ou das Caraíbas.

No dia 29 de julho de 1870, Africville oferecia ao mundo um dos seus maiores cidadãos. E ao mesmo tempo um dos menores. Ao fim ao cabo, George Dixon por mais que tentasse crescer nunca ultrapassou o metro e sessenta e um. Quase que se podia dizer que a sua altura por extenso e posta na vertical era maior do que ele. Além disso corria o risco de ser ignorado pela Lei da Gravidade: pesava 39 quilos. 

Dixon podia ser baixinho mas era lixado para a porrada. Por tudo e por nada perdia as estribeiras e atirava-se aos fagotes de quem lhe abalara a tramontana. Aos 17 anos deu a Tommy Spider Kelly, um peso-pluma nova-iorquino, uma lição que este nunca mais haveria de esquecer. Não foi na rua. Foi num ringue. Africville orgulhou-se até à protérvia. O Chocolatinho, como lhe chamavam, tornava-se campeão do mundo, mas não só: o primeiro campeão do mundo negro de toda a história do boxe. Mesmo que o título de Bantamweight exigisse que os boxeurs pesassem entre 53 e 54 quilos. No ano seguinte foi atrás do título de pesos-leve e ao fim de 22 rounds esticou na arena o pobre Call McCarty de forma impiedosa. Vá lá saber-se o que lhe passou em seguida pela cabeça: fundou um grupo de ‘vaudeville’, o George Dixon Specialty and Co., uma pandilha  meio heterogénea que metia comediantes, dançarinos, animais treinados, circos de horror e um bando de anões praticamente da mesma altura do que o próprio Dixon. E fez-se à estrada. A apresentação em Terre Aute, Indiana, na Naylor Opera House, rebentou o teatro pelas costuras. Havia gente pendurada nos lustres e uma multidão à porta esgatanhando-se por um mísero bilhete. O pequenino Dixon estava em grande. Afinal era a atração principal. Mexia os pés com rapidez e imitava uns ‘uppercuts’ assassinos. As mulheres rasgavam as cordas vocais com gritos histéricos.

Bellevue não é, decididamente, um local aprazível. Fica ali para os lados de Hoboken, onde nasceu o supimpa Francis Albert. Talvez não tenha, no lago, corpos de gente no desemprego, como cantava o Reininho, mas tem uma unidade especializada em alcoolemia fundada em 1892, precisamente o ano em que Dixon deixou de participar em combates de pesos-pluma. Nesse tempo já se tornara um dândi vaidoso com tiques de marialva. Bebia como uma esponja e gastou os mais de 250 mil dólares que ganhara ao longo da carreira com uma ferocidade própria de quem começara a odiar a sua vida.

Tornou-se grotesco de feio. Gordo, disforme, parecia um anão de Velázquez cuja tinta tivesse desbotado. Ainda se sujeitou a combates de quinta categoria, na tentativa de alimentar o vício, mas era apenas motivo de chacota. Como sempre fizera, combatia a sua sombra.

Sam Austin, um daqueles jornalistas ‘larger-than-life’, editor do primeiro grande tabloide dos Estados Unidos, o Police Gazzette, escreveu sobre Dixon: «The fact cannot be disputed that the greatest fistic fighter, big or little, that the world has ever known is George Dixon». Hmmmm... Poucos foram os que deixaram de lhe apontar o exagero literário. Melhor do que Muhammad Ali e Joe Louis? Do que Sugar Ray Robinson e Jack Johnson? Melhor do que Sugar Ray Leonard ou do que Marvelous Marvin Hagler, o Homem dos Queixos de Ferro??? Ora, ora... E Austin, contumaz, perseverante: «Dixon was the fighter without flaw». Boxeur sem falhas. «Ele bateu dezenas de adversários brancos no tempo em que se matavam homens só por serem negros. O primeiro campeão em vários pesos diferentes e o primeiro boxeador a perder e a reconquistar o título mundial».

Quando estes elogios foram publicados, o Chocolatinho estava demasiado confuso para saber o que se escrevia sobre si. Aliás, deixara de mesmo de ser quem fora. Fechara-se no fundo das garrafas e não conseguia de lá sair. Caíra no clássico dilema: não podia ver um copo cheio mas também não suportava vê-lo vazio.

Não conseguira aguentar o peso da derrota pelo título de leves frente a Abe Atell em Outubro de 1901. Perdeu doze dos seus derradeiros dezasseis combates. O anão que ficara conhecido por treinar com a sua sombra na parede, tentando ser mais rápido do que ela como Lucky Luke, mergulhara definitivamente no mar encapelado do whisky de má qualidade. «Little Chocolate and his shadow boxing». Desvaneceu-se dois dias depois de ter dado entrada em Bellevue. Alguém deve ter deixado uma janela aberta e ele aproveitou para voar... sombriamente...

afonso.melo@newsplex.pt