Cultura

Óscares 2019. A hipocrisia da sociedade é o passe de Green Book para o Óscar

Até ao dia da entrega dos prémios, os jornalistas da equipa de Online do SOL  vão fazer a sua avaliação dos nomeados para o Óscar de Melhor Filme. ‘Green Book’ é o primeiro filme a ser avaliado. A jornalista Filipa Traqueia deu 4 estrelas.

DR  

Juntemos duas personagens num carro azul, numa viagem de dois meses pelo sul dos Estados Unidos. Um é o músico de jazz Don Shirley, interpretado por Mahershala Ali – nomeado para Melhor Ator Secundário –, e o outro o seu motorista e guarda-costas Tony ‘Lip’ Vallelonga, interpretado por Viggo Mortensen – também na corrida para Melhor Ator. O resultado é uma lição para refletir.

O filme “Green Book - Um Guia Para a Vida”, realizado por Peter Farrelly, conta a história de Tony Lip, um americano de ascendência italiana, que, para conseguir algum dinheiro extra, aceita ser o motorista do músico afro-americano Don Shirley na sua tour pelos estados do sul. Numa altura em que o racismo e a discriminação têm voltado a aparecer com frequência nos noticiários, este filme surge como um incentivo à memória da luta pela igualdade, travada no último século.

Apesar das agressões e dos atos de discriminação que o músico acaba por ser alvo no decorrer da digressão, aquilo que tem mais força no filme é a hipocrisia. Enquanto salões de festa se enchem para ouvir Sherley tocar, nos momentos antes e depois do espetáculo o músico perde o seu estatuto de convidado de honra e passa a ser proibido de usar a casa de banho ou de comer no restaurante ao lado da sua banda, só por causa da cor da pele. Apesar de muito pensarem que o racismo é uma manifestação das classes incultas e desinformadas, é também na alta sociedade que a discriminação ganha lugar ao atribuir importância à pessoa apenas e só quando esta representa o papel que lhe foi atribuído. A velha máxima do “eu também tenho um amigo negro”, ou, neste caso concreto, “eu também vou assistir ao espetáculo de um artista negro” não serve quando esse “amigo” ou “artista” não é tratado da mesma forma que eu.

A prestação da dupla de atores é mais que merecedora das nomeações. No entanto, é a interpretação de Mortensen que mais se destaca, ao juntar na perfeição um tom de comédia à seriedade do assunto retratado. As cartas que Tony envia à mulher, o seu enorme apetite e o contraste de personalidade com o músico sacam vários risos durante a longa metragem.

Porém o filme, que está também na corrida para Melhor Argumento Original, fica um pouco aquém no que toca ao passado do músico Shirley que, no decorrer da viagem, vai aguçando a nossa curiosidade: a história da mãe, o irmão com quem confessa não ter uma boa relação ou a sua educação erudita numa época em que os negros eram vistos como inferiores… Talvez sejam informações que não acrescentam muito à história, mas a verdade é que a curiosidade ficou por satisfazer.

O desfecho do filme também não poderia ser mais óbvio. (ATENÇÃO: SPOILER ALERT) O músico acaba por compensar o motorista sendo ele próprio a conduzir até Nova Iorque para que Tony se possa juntar à sua família na véspera de Natal, como tinha prometido. Shirley, que não tem ninguém com quem passar a época festiva, acaba por aceitar o convite do motorista e juntar-se à festa, num claro desafio à tolerância da comunidade a que Tony Lip pertence.