Cultura

Óscares 2019. Vice não vicia nem um bocadinho

Até ao dia da entrega dos prémios, os jornalistas da equipa de Online do SOL vão fazer a sua avaliação dos nomeados para o Óscar de Melhor Filme. Vice recebeu oito nomeações, mas a jornalista Joana Ludovice de Andrade deu-lhe duas estrelas

O nome do mais recente filme de Adam McKay protagonizado por Christian Bale é um trocadilho entre vice - o título governamental de Dick Cheney - e vício ou ausência de virtude. Em inglês a palavra é a mesma e é dessa forma malévola que o antigo número dois de George W. Bush é retratado.

Vice tinha todos os ingredientes para ser um grande filme: uma boa história, bons atores e um aclamado realizador, que é também um argumentista ‘oscarizado’. No entanto, não passa de um filme medíocre, cujo único – mas grande – mérito é o de fazer o impensável: o espetador acaba por simpatizar com o ‘insapatizável’ Dick Cheney, o vice-presidente mais presidente de sempre.

Subtileza é palavra que não consta do dicionário de Adam McKay. A versão caricatural e demoníaca de Dick Cheney em Vice é de tal forma redutora que passa a fronteira de partidária para desonesta, não é a inteligência de Cheney que é mais insultada, mas sim a do espetador.

Esta podia ser uma história sobre um dos homens que mais moldou a história norte-americana recente e, consequentemente, a do resto do mundo. É certo que o poder tem, indiscutivelmente, em Cheney um amante ciumento, e é também verdade que o antigo vice é indissociável das piores decisões da administração Bush, como o programa de tortura da CIA ou a existência das armas de destruição em massa para justificar a invasão do Iraque. Mas a sua chegada aos bastidores da Casa Branca e a sua carreira mereciam mais do que Vice.

Merecia mais do que apenas um segmento gigante do Today Show ou uma rábula prolongada do Saturday Night Live, programa aliás do qual McKay foi argumentista. E nesse âmbito de sátira, o Cheney de Christian Bale lembra o Trump de Alec Baldwin.

McKay - talvez ainda no rescaldo de ter conquistado prémios e gargalhadas num filme sobre hipotecas -, resolveu repetir a receita. Mas o que funcionou muito bem em A Queda de Wall Street parece não se aplicar ao biopic de Dick Cheney.

SPOILER ALERT

Não houve um clichê que ficasse de fora: uma narração omnisciente, o tom de sátira com que se relatam eventos factuais, os saltos cronológicos em que o espetador ora vê um jovem Cheney bêbado a abandonar a faculdade; ora como estagiário no Congresso; ora está a instalar linhas de alta tensão, ora fica a comandar as operações a seguir ao 11 de Setembro, já como vice-presidente de Bush.

Nem sequer as referências shakesperianas, também presentes no filme anterior, foram esquecidas. Aliás, são responsáveis por uma das cenas mais patéticas do filme: Dick Cheney e a sua mulher Lynne – ela própria uma espécie de Lady Macbeth dos tempos modernos – parecem trocar versos do poeta inglês do séc. XVI enquanto se abraçam  na cama.

Por outro lado, o solilóquio à Ricardo III de Cheney no final, quando num plano surge sozinho a olhar para as câmaras como quem fita o americano comum, tem um resultado mais interessante, embora não seja redentor quer da personagem quer do filme.

A graça aqui quase nunca passa de graçola, à exceção de duas cenas em que McKay revelou grande sentido de oportunidade, quando passam os créditos finais apenas depois de 50 minutos iniciais de filme.

A filha mais nova de Cheney tinha acabado de informar os pais que era gay, notícia que o pai parece receber melhor do que a mãe. Ambos percebem que os sonhos de um dia ele chegar à presidência foram atropelados por aquela confissão. Dick ficar-se-ia então pelo cargo de CEO na petrolífera Halliburton, dando assim por terminada a sua carreira política depois de vários cargos de importância na Casa Branca, como chefe de gabinete e secretário de Defesa.

O filme podia acabar aqui. Na imagem surgem cenas de convívio familiar, Cheney com uma neta ao colo, por cima do idílio de uma típica família americana passam informações sobre o que aconteceu a cada uma das personagens, a música anuncia o final e entram os créditos.

Por momentos, o espetador é convidado a imaginar uma espécie de história alternativa ao que se viria a passar. Se Bush, ainda candidato, não tivesse convidado Cheney para vice-presidente - um cargo muito menos escrutinado do que o de POTUS -, este estaria a criar golden retrievers na Virgínia. Mas a chamada do poder chegou.

A outra cena de Vice que tem verdadeiramente piada é protagonizada pelo ator Alfred Molina, que desempenha um pequeníssimo papel como empregado de mesa, que apresenta várias opções de tortura como sendo os pratos do dia ou as sugestões do chefe. Escusado será dizer que Cheney ‘guloso’ como é pede todos.

Tirando estes dois momentos certeiros de McKay, o filme acrescenta pouco, nem os quase 20 quilos que Christian Bale engordou salvam Vice. Sublinhe-se que o ator, conhecido pelas transformações físicas devido aos seus papéis, está nomeado pela interpretação de Cheney. Mas embora a voz, o andar e algumas expressões estejam no ponto, a caricatura não deixava grande espaço para brilhar. Bale já esteve melhor, mesmo sem nomeação da academia, mas nunca se sabe se não leva mais uma estatueta para casa. Hollywood adora uma boa história de mudanças dramáticas em nome da arte.

Já Amy Adams, que faz o papel de Lynne Cheney parece sair melhor na figura, embora não tenha a seu favor grande transformação física. Sam Rockwell também está nomeado para ator secundário pelo seu papel como presidente, embora o seu Bush apenas saiba ser totó. Por nomear ficou Steve Carell que faz um trabalho muito melhor como Donald Rumsfeld, o mentor de Cheney nos meandros da política. 

Outra personagem interessante que acompanha discretamente todo o filme é o narrador, Kurt (Jesse Plemnons). Apesar da associação fácil à América ou ao americano comum 'afetado' pelas decisões de Cheney (Kurt vai aparecendo em diferentes contextos e profissões, como por exemplo soldado), a própria saúde do vice-presidente ajuda a pintar o retrato de vítima anónima. Cheney, que sempre sofreu de problemas cardíacos, recebeu um transplante de coração em 2012. Claro que no filme, o dador, morto após um atropelamento, é o pobre Kurt, que faz o derradeiro sacrifício por Cheney. 

Dos oito Óscares para que Vice está nomeado, Adam McKay pode levar três, sendo que é produtor, realizador e argumentista.

Por tudo isso, Vice acaba por ser mais sobre McKay do que sobre Cheney. Aliás o tom do filme fica logo definido no prólogo: “A história que se segue é verdadeira, ou tão verdadeira quanto pode ser, dado que Dick Cheney é conhecido por ser um dos líderes mais secretos da história”. Sobre esta tentativa de verdade, o argumentista justifica: “We did our fucking best”. Neste caso não foi ‘enough’.

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