Internacional

Opositores do papa acusam "agenda homossexual" por abusos de padres

Os cardeais de Raymond Burke e Walter Brandmüller, líderes da oposição ao papa, dizem que a causa dos sucessivos escândalos de abusos sexuais da Igreja "não é abuso de poder", mas sim "a praga da agenda homossexual"

Dois proeminentes cardeais católicos conservadores, Raymond Burke e Walter Brandmüller, defendem que a Igreja é falsamente acusada de ter responsabilidade pelos sucessivos escândalos de abusos sexuais cometidos por padres. Dizem que a culpa “não é do abuso de poder”, mas sim de padres que “se afastaram da verdade do Evangelho”, parte de “uma crise muito maior” causada pela “praga da agenda homossexual que se espalhou dentro da Igreja”, e que dizem ser “promovida por redes organizadas”.

A carta reflete acusações anteriores, criticadas por sobreviventes de abusos por padres. Phil Saviano, fundador do grupo de apoio SNAP, diz que culpar a homossexualidade por abusos é “uma esquiva”,  não “leva a uma solução adequada”, e mostra que “eles de facto não compreendem” o problema. Além de ser “insultuoso para as mulheres que foram abusadas”.

A carta aberta inclui críticas ao papa Francisco, e foi divulgada nas vésperas de uma cimeira histórica, em que mais de 180 bispos de todo o mundo reúnem com várias vítimas de abusos por sacerdotes. Um dos objetivos é conseguir um conjunto de regras claras sobre como a Igreja deve agir, em caso de denúncias de abusos sexuais. 

Burke e Brandmüller são considerados os líderes da oposição conservadora ao papa Francisco dentro da Igreja. Estiveram entre os cardeais que criticaram o papa em 2015, no sínodo da família, por este abrir a possibilidade de que casais divorciados possam comungar. Algo que os cardeais relacionam na sua carta aberta com a “crise geral” da Igreja. Burke chegou na altura a deixar o recado que “se um papa confessar heresia, deixaria, por esse ato, de ser papa”, abrindo as portas à rebelião.  

Tanto os termos como as críticas feitas na carta de Burke e de Brandmüller estão em linha com as de Steve Bannon, antigo conselheiro da administração norte-americana de Donald Trump, e um dos principais articuladores globais da extrema-direita, que estará em Roma durante a cimeira. Burke, está no conselho consultivo do Instituto Dignitatis Humanae, onde Bannon está a organizar um curso de liderança. Ainda o ano passado, Burke disse, em declarações à Reuters, estar entusiasmado por trabalhar com Bannon numa “contribuição decisiva para a defesa do que se costumava chamar a cristandade”.

A cruzada dos conservadores contra as tentativas de abertura do papa Francisco ficou ainda mais visível, com as  reações à declaração conjunta do Vaticano e da universidade de Al-Azhar, assinada este mês. Burke criticou o documento pela “noção errónea” de que “a diversidade de religiões é boa”, e não “um mal que Deus permite".