O mundo em calções

Teoria e prática da chatice teutónica

Para além de ter escrito umas poucas de peças de teatro, um rol inumerável de canções e ter participado, como ator, em filmes como O Nosso Agente em Havana ou A Volta ao Mundo em 80 Dias, Noël Coward era um pândego que afirmava nunca ter posto um trema no primeiro nome: «Por mim, prefiro que me chamem Nool». Contaria mais tarde que a sua carreira tinha tido início ainda na mais tenra infância  quando interpretou um pequeno papel numa pantomima ao lado de Gertrude Lawrence: «Deu-me uma laranja, contou-me umas histórias meio porcas e fiquei a amá-la para o resto dos meus dias». Pode muito bem ter sido, mas toda a gente duvidava visto que a sua homossexualidade se tornara assunto público ou, pelo menos, parte daquilo que os londrinos gostam de apelidar de  ‘tea-table-chitter-chatter’, isto é, boataria agradável para quem tem vontade de soltar umas risadas escarninhas.

Com o advento da II Grande Guerra, Coward, cujo apelido era, no mínimo, inconveniente num campo de batalha, tornou-se um membro do MI6, o Secret Intelligence Service, e chegou a uma sábia conclusão: «Se a política do Governo de Sua Majestade é a de aborrecer os alemães até à morte, acho que não vamos ter tempo para isso». É provável que o seu corrosivo sentido de humor tenha irritado os alemães pois, para lá do final da guerra, foi encontrado um Livro Negro no qual estavam registados todas as figuras públicas que seriam condenadas à morte no dia em que os nazis invadissem a Grande Ilha e o nome de Noël Coward constava dele. No dia em que tal lista foi tornada pública, Rebecca West, a escritora e jornalista que cobriu o Julgamento de Nuremberga para o The New Yorker, que também constava dela, enviou-lhe um telegrama de profundo e desgostoso snobismo: «My Dear, the people we have been seen dead with!».

Coward tornou-se uma personagem inevitável. Chegou a haver um tempo em que se tropeçava em Noël como quem tropeça em caca de cão na Rua Luís Derouet, a Campo d’Ourique. Luís Derouet também mereceria uma crónica, mas vai ter que ficar para outro dia.

Embora tivesse confessado o seu amor eterno por Gertrude Lawrence desde o episódio da laranja, Noël Coward revelou sentir um profundo «distaste for penetrative sex», sobretudo se praticado com senhoras. No entanto, quando lhe colocaram claramente a questão da sua eventual preferência libidinosa por mamíferos do sexo masculino, respondeu de forma sub-reptícia: «Ainda há uma senhora em Paddington que alimenta a esperança de casar comigo. Não quero, de maneira nenhuma, desapontá-la».

Muito bem, já perceberam que Coward é, para mim, uma figura fascinante à qual não deixarei de voltar quando for conveniente. Mas queria mesmo explicar que, em relação aos alemães, Noël se equivocava bem mais do que em relação à sua lascívia. Quando disse que havia a possibilidade, ainda que teórica, de aborrecer um alemão, ou vários, ou mesmo todos, até à morte, subestimou por completo aquela cativante capacidade que qualquer germânico tem de se aborrecer a si mesmo até à morte.

Provavelmente demasiado ocupado consigo próprio, com truques de espionagem baratos ou com senhoras de Paddington, descurou por completo a existência de uma interessantíssima (pelo menos à escala teutónica) teoria divulgada pelo professor universitário Karl Planck, no final do séc. XIX, num tratado com o nome de Fusslumelei-uber Stauchballspiel und Englische Krankheit, algo que se poderia traduzir assim por alto como A Loucura do Futebol - Sobre o Desagradável Jogo da Bola, Essa Doença Inglesa.

Pois: desta é que nem Coward, com a sua imaginação infinita, estaria à espera. Planck, fundador do Turnen Bewegung (Movimento Ginástica) atacava furiosamente a forma como a juventude alemã estava à beira de ser inoculada pelo malsão vício britânico de dar pontapés numa bola, quando o mais nobre desporto que um filho da Prússia podia praticar, fugindo de vez àquela imagem repugnante de um proletariado mal-nutrido que os ingleses espalhavam pelo universo, era a ginástica. No prefácio do seu livro, o distinto colega Theodor Visher inventou o neologismo Podobootismus - desprezo pela introdução de algo primitivo numa sociedade refinada. Francamente! É de aborrecer um bacilo até à morte!

afonso.melo@newsplex.pt