Cultura

Acácio de Paiva. As palavras também doem

Podemos sentir saudades de alguém que nunca chegámos a conhecer? Respondo a mim mesmo e digo sim, eu que antes de saber quem foi Acácio de Paiva, poeta, prosador, crítico, jornalista, aprendi as suas feições magras de jovem descabelado e olhar inquieto nas fotografias das paredes da Casa das Conchas, no Olival da minha infância, que foi o Olival de tanta da sua vida. Era um avô antigo, de um outro tempo, de uma margem da existência que me foi tocando aos poucos, mais velho que sou dos seus quinze bisnetos, ele que foi pai de filho único e avô de nove netos com 23 trinetos crescendo por aí com um chamado contínuo do termo de Ourém que ele descreveu num dos seus versos.

Depois li-o. Primeiro no Livro de Leitura da Terceira Classe, poemas retirados do único livro que viu publicado, Fábulas e Historietas, com ilustrações de Vasco Lopes de Mendonça. Havia neles uma graça, um sentido quase comovente de humor fagueiro, um brincar com as palavras e com o ritmo das frases. Um porco que morria de fome por amor, tal como fazem os homens: «Era uma vez um porco; bom sujeito/sossegado, paciente/vivendo na pocilga satisfeito/só porco pelo nome; mais decente/enfim, que muita gente».

Neste mundo em que os porcos parecem ter finalmente triunfado em mais uma das premonições de Orwell, o humor faz falta. Como faz falta a decência. E contos de fadas que rimem com o som da própria vida.

Acácio de Paiva foi jornalista por toda a parte:  O Século, Diário de Notícias, o Mundo, Ilustração Portuguesa, Século Ilustrado, Notícias Ilustrado, Gira Sol, Papagaio, Almanach dos Palcos e Salas, Notícias de Ourém, O Mensageiro, de Leiria, a cidade onde nasceu no dia 14 de abril de 1863, no Largo da Sé. Os pais, José de Paiva Cardoso e Leopoldina Amélia Carolina Telles, deram-lhe o nome completo de Acácio Sampaio de Telles e Paiva. Tratou de o reduzir. Mas mais tarde. Já depois de ter passado pelo Liceu de Leiria, pelo Liceu Central de Coimbra, pelo Curso de Farmácia da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e pelos Preparatórios Médicos das Academias Politécnicas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Depois de ter sido Oficial Superior das Alfândegas e de se ter instalado em Lisboa, na Travessa de São Sebastião, ali à Pedreira, e se tornar redator de O Século. Convenhamos: não parecia juventude de poeta, tanta proveta e bico de Bunsen, tanta burocacia que tratou de desprezar com a boémia que veio encontrar na capital com os seus amigos do teatro e dos jornais. Amigos d’A Parceria que ele nunca esqueceu, João Bastos, Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes (juntamente com este fundou aquela que é hoje a Sociedade Portuguesa de Autores), inventores da revista, a revista à portuguesa, sete dias por semana, duas vezes ao dia, textos ágeis que eram alterados de um momento para o outro ao sabor dos acontecimentos, letras de canções e fados que o povo trauteava pelas ruas: «Apanham amanhã um bom almoço/E eu não somente aprovo a bela ideia/Mas se alguém propuser jantar e ceia/O alvitre aceitarei com alvoroço».

As ‘charges’

O meu bisavô Acácio de Paiva não era de recusar propostas feitas ao apetite e muito menos quando apontadas à galhofa. Portugal abraçara definitivamente essa invenção francesa da «charge», textos que denunciavam e criticavam as modas e os bordados da sociedade e da política, nos quais Gualdino Gomes, um seu admirador, era terrível, de apavorar hipopótamos. Ele usou e abusou delas com uma ironia faiscante, aqui e além sob pseudónimos que eram, também eles, uma forma tão requintada de sarcasmo que chegava a usá-los apenas uma vez e deitá-los fora como se o improviso do momento exigisse a sua extinção imediata. «Senhores deputados/E mais representantes/Da Nação Portuguesa:/(...) Sede amigos, cordiais, acolhedores/Sentai-a, consultai-a a todo o instante/Tomai os seus conselhos como leis/Aquilo que vos digo ponde em prática/Executai-lhe as regras - e sereis/Muito de elogiar! É a Gramática».

Adelino Mendes, um seu contemporâneo e conterrâneo, colega de O Século, gabava-lhe a capacidade de se manter sereno por entre a balbúrdia das redações, puxando do primeiro pedaço de papel que lhe viesse à mão para, logo ali, num repente, escrever um poema longo ou ligeiro, um comentário jocoso a um caso do dia, o panegírico de um artista, a alfinetada numa figura de palha, o epigrama irónico aos ridículos do próximo, o golpe mordaz ao erro e ao vício (ver Acácio de Paiva - Um Crésus Perdulário, de Américo Cortez Pinto, 1968).

Muito provavelmente isso diminuiu-o como autor, como poeta. Sabemos, tal como o divino Eça o afirmou - «É matá-los com dichotes!» -, no seu absolutamente assassino Conde d’Abranhos, que este país adula  a caricatura grotesca. «Foi com esta perfeição que, décadas sobre décadas, Acácio de Paiva dissipou e dispersou o seu talento pelas páginas dos jornais. De tal forma se foi consumindo a obra do Poeta. E assim é que, passados tão pouco anos, já se vai pronunciando o seu nome sem que os ouvidos das últimas gerações que o ouvem, e mesmo grande parte dos que o dizem entre os das gerações do seu tempo, saibam que pronunciam o nome de um dos maiores e mais fluentes Poetas dos últimos tempos»! (idem, ibidem)

Uma questão de poesia 

Parece que, para se ser poeta, é preciso ser-se triste. A obra de Acácio de Paiva sobreviveu como pôde a esse estigma de poeta humorístico que se lhe colou à pele como uma espécie de sarna. A edição levada a cabo pela Câmara Municipal de Leiria de uma fatia generosa da sua produção literária, em 1988, acrescenta-lhe uma nova dimensão, que se espalha pelos Poemas Líricos, pelas Quadras, pelas Bucólicas. «Dobra o sino funéreo... De Inglaterra/Vem o grito plangente.../Quem auscultar o coração da Terra/(Tem coração a Terra, a Terra sente...)/Ouve-o desfalecido, quase exangue/Porque o rasgou neste momento a dor:/A seiva da floresta sabe a sangue/Tem o pó do caminho igual sabor/E o mar tumultuoso, o mar que freme/Blasfemo, em fúria, ameaçador e forte/Aquieta-se, vencido, reza e geme/Ao anúncio misérrimo da morte».

Foi este o início da homenagem que fez a Rudyard Kipling, em 18 de janeiro de 1936. Poeta também tantas vezes ignorado, nesse dia poeta morto.

Não sei quantos dos seus vinte e três trinetos irão saber de cor versos desse meu bisavô extraordinário de vida plena. Quantos são os capazes de soltar, de supetão, nos dias que correm, as rimas de Augusto Gil ou de Guerra Junqueiro, ou sequer de Antero de Quental? Ele próprio, não se sabia de cor. Certo dia, ouvindo algo que lhe agradava e, por acaso, saíra da sua verve, exclamou: «São bonitos! Quem é o autor?» Vale que há quem diga que os poetas não morrem. Ou que, como Louis Amade, assevere que as suas almas são enterradas num grande, grande campo de trigo e que as encontraremos um dia nas flores dos miosótis. 

Este ano, em novembro, cumprir-se-ão 75 anos sobre a morte de Acácio de Paiva, aquele rapaz de olhos inquiridores de bigodinho mal semeado que era ao mesmo tempo o velhinho adocicado que conheci criança nas paredes da Casa das Conchas, no Olival. Tinha 81 anos quando se encantou, para usar as palavras de outro poeta, Guimarães Rosa. Ainda teve a minha mãe, Constança, que herdou o nome da Constança com quem casou, sua neta mais velha ao colo - «Tens um mês de nascida - e eu tantos, tantos/Que nem posso contar! Endoidecia!/Quantos mais te verei, minha Maria/Constança, filha do meu filho? Quantos?/Chegarás tu a conhecer-me um dia? Terás paciência para ler os cantos/(Teu pai que os mostre aos teus olhitos santos...)/Onde eu tentava uns longes de poesia». Não fazia ideia. Como não fazia ideia de que, um dia, haveria um bisneto que o recordasse com saudade mesmo sem nunca o ter visto senão a preto e branco e em pose estudada, que as fotografias se queriam respeitáveis. Acredito que repouse, por fim, no seu varandim sobre o ribeiro, no quintal em flor, onde voltava após ausências, desertor, palavras dele. «E manda-me sorrir - eu morrerei sorrindo». Do seu sorriso, só sobram as palavras. E muitas doem... É lê-las.