Sociedade

Tancos. Vasco Brazão volta a dizer que ministro sabia da encenação

Vasco Brazão foi ouvido ontem na Comissão Parlamentar sobre o caso do assalto a Tancos

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Vasco Brazão, major que coordenou a equipa da Polícia Judiciária Militar (PJM), esteve ontem presente na Comissão de inquérito ao caso de Tancos, onde confirmou a “encenação” feita pelo ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes. “A encenação da recuperação do material furtado foi toda planeada com o conhecimento da hierarquia”, disse. O major foi mais longe e garantiu: “Não me calarei, contarei tudo o que sei, doa a quem doer”. 

“O diretor da PJM, numa diligência comigo, comunicou ao ministro da Defesa Nacional, na presença do chefe de gabinete, que o aparecimento das armas não foi como publicitado, mas sim através de um informador”, explicou. 

Vasco Brazão, um dos dez arguidos no processo, disse ainda que Azeredo Lopes foi informado pelo memorando de que “houve uma construção da realidade”. E quando questionado sobre o tema, Vasco Brazão disse que “o memorando era uma versão daquilo que tinha acontecido” e que a história narrada fica aquém: “As coisas não foram bem assim”. 

Na comissão parlamentar de de inquérito, Vasco Brazão confirmou que foi dada ordem para que fosse feita uma investigação paralela à da Polícia Judiciária e adiantou que o então diretor-geral daquela polícia, coronel Luís Vieira, se responsabilizou por tudo e disse que se desse “bernarda” assumiria as culpas. 

Esta é a segunda vez que o major Vasco Brazão responde sobre o caso do assalto de Tancos e ontem reconheceu que “foi um erro” a PJM não informar o Ministério Público - responsável pela investigação - de que existia um informador que sabia onde estavam as armas.  

“Agora, eu sempre cumpri as ordens e eu entendi aquilo como uma missão a cumprir [recuperação das armas] mesmo que fosse à margem do processo”, disse Vasco Brazão sobre a falta de comunicação e as investigações paralelas da Polícia Judiciária e da Polícia Judiciária Militar. 

“Havia um mal-estar desde o início”, respondeu Vasco Brazão quando questionada pelos deputados sobre a relação entre as duas autoridades. No entanto, defendeu que antes de ter sido aberto o inquérito para investigar o assalto, “havia uma ótima relação com a PJ”. Admitiu ainda que a atribuição de competências por parte da Procuradoria-Geral da República à PJ foi o início do declínio das relações. 

O ex-porta-voz da PJM definiu o desenvolvimento da investigação como “completamente anormal”. Sobre a falsa chamada e sobre o dia em que foi encontrado o material, disse só falar à porta fechada. 

As armas desapareceram dos paióis de Tancos em junho de 2017 e foram encontradas em outubro do mesmo ano a cerca de 20 quilómetros. Segundo a versão inicial da PJM, o piquete de serviço recebeu uma chamada anónima a dar conta do material roubado. Mais tarde, veio a descobrir-se que a recuperação das armas teria sido encenada. O caso agitou a Defesa Nacional, tendo levado à demissão de Azeredo Lopes.