Em Nome da Verdade

Oficiais dos três ramos, uni-vos!

Antes de desenvolvermos como se estrutura atualmente o Ensino Superior Militar, desafiamos o leitor a recuar 27 anos, pois nessa altura, por incrível que pareça, conseguiu implementar-se um modelo que desafiou as ‘resistências’ das Forças Armadas, obrigando-as a seguir um caminho comum e a cederem em prol de um bem maior que não a tradicional defesa de interesses corporativos.

Os ramos tudo fizeram para continuar de ‘costas voltadas’ uns para os outros, mas, em 1992, o então ministro da Defesa emitiu um despacho com as diretivas para a instituição do 1.º Ano de Formação Geral Comum (FGC).

Fernando Nogueira já então considerava de capital importância que a formação dos quadros permanentes dos três ramos das Forças Armadas propiciasse condições de conhecimento mútuo e o estabelecimento de laços de camaradagem, recordando que o esforço de integração deve ser um desiderato contínuo e de todos - o que, até então, nenhum político considerara.

Também referiu que o 1.º Ano de FGC era resultado de estudos segundo os quais era possível viabilizar essa experiência num único Estabelecimento de Ensino Militar. Assim, decidiu:

1. Instituir no ano letivo 1992/93 o 1.º Ano de FGC, a título experimental, para os candidatos às carreiras de oficiais dos três ramos das Forças Armadas;

2. Adotar os planos de estudos e os programas propostos pelo Conselho de Chefes de Estado-Maior;

3. Instalar o 1.º Ano de FGC nas instalações da Academia Militar, na Amadora, sob a responsabilidade do comandante da AM e contando com a participação proporcional dos ramos.

Esse foi um ano particularmente importante e inovador para o Ensino Superior Militar, pois, além da criação do 1.º Ano de FGC, também se fez a incorporação, pela primeira vez, de cadetes do sexo feminino destinados à AM e à AFA (desenvolveremos este tema em próximo artigo).

Assim, em 1992 foram admitidos no 1.º Ano de FGC 276 cadetes (70 da Marinha, 115 do Exército, 51 da Força Aérea - e 40 da GNR e Guarda Fiscal, cujos oficiais eram formados na AM desde o ano anterior).

A intenção do então ministro da Defesa era consolidar no 1º ano uma formação comum, para posteriormente a alargar a mais anos.

Sucede que esta medida inovadora atacava o âmago das ‘especificidades’ que os ramos sempre invocam para defesa dos seus interesses corporativos - e isso, para eles, era inaceitável. A ‘aceitação’ foi pois muito relativa. Diria, até, meramente tática. 

A Marinha, a Força Aérea e setores do Exército atacaram este modelo de forma desajustada e mesmo desesperada, pois sabiam que, a prazo, haveria oficiais com uma mentalidade nova, com maior abertura institucional, não estando vinculados aos ‘interesses’ (quantas vezes insustentáveis) dos ramos.

No fundo, estava a criar-se um vinho que não era da mesma casta… e, por ser melhor, era uma casta perigosa.

Havia que pôr-lhe cobro. 

Resultado: o ano de FGC só existiu de 1992 a 1996.

Acabou com a chegada ao Governo de António Guterres - materializando a primeira ‘reversão’ de um Governo socialista…

Tratou-se de uma cedência aos ramos das Forças Armadas, em especial ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, almirante Fuzeta da Ponte, por um ministro ‘superior’, António Vitorino. Os principais prejudicados foram precisamente… as Forças Armadas e o país.

Durante quatro anos letivos formaram-se centenas de alunos que são agora capitães-de-fragata e tenentes-coronéis.

Continuam a encontrar-se com regularidade, nutrem um sentimento de camaradagem que só tem paralelo naqueles que serviram e servem em situações de combate efetivas, mas que não acontece entre a maioria dos outros oficiais - que praticamente não se conhecem, pois os três ramos quase nunca atuam em conjunto.

Desafiamos os políticos deste país a conversarem com aqueles oficiais, mas fora dos seus contextos militares e corporativos - pois, sendo defensores em privado do Ano de FGC, quando instados a pronunciar-se sobre ele na companhia de militares do seu ramo, são mais cautelosos… 

Felizmente ainda existem entre nós militares com idêntica experiência, vivida na década de 50 e 60 do século passado, e que nos afiançam ter sido geradora de excelentes resultados na guerra de África. 

Em Nome da Verdade, daremos continuidade a este assunto em próximo número.

Para a semana, porque o calendário assim o impõe, abordaremos a ‘Páscoa do ministro Cravinho II (ou The Second)’.

 

*Major-General Reformado