Opiniao

A Páscoa de Cravinho Jr.

Sugiro-lhe que, para ser lembrado como ministro da Defesa, Cravinho faça algo de relevante pela positiva na sua área de governação. 

Como prometido, vamos hoje analisar o percurso do ministro Cravinho ‘The Second’ ou Cravinho ‘Júnior’.
Momento houve em que quase me transformei num ‘cravinista’, tal o acerto de algumas afirmações e decisões, das quais destaco:
– A aprovação da Lei de Programação Militar (LPM);
– A continuidade do investimento estratégico nos estaleiros do Arsenal do Alfeite;
– A manutenção, na LPM, do Programa do Navio Polivalente Logístico;
– A adjudicação do Programa da Arma Ligeira e das Viaturas Blindadas Ligeiras do Exército;
– A ‘incorporação’ na Força Aérea dos ‘meios aéreos do Estado’ (atenção ao Instituto Nacional de Emergência Médica);
– A (por agora) boa solução para a direção do Instituto da Defesa Nacional;
– A oposição ao ‘retorno’ do Serviço Militar Obrigatório;
– A presença constante (se bem que demasiado teórica, confusa e ‘oca’ de doutrina) em atos públicos das Forças Armadas e da Defesa Nacional;
– O prosseguimento da reforma ‘Defesa 2020’ do Governo de Passos Coelho, que deveria estar implementada e em velocidade de cruzeiro no final do ano 2020. 

No entanto, algumas situações encobriram ‘o céu azul’ que já avistava, impedindo-me de me tornar ‘cravinista’. A saber:
– A insuficiência na resolução dos graves problemas existentes no Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA), especialmente na Assistência na Doença dos Militares (ADM);
– O ‘chamamento’ da ex-ministra Ana Jorge para estudar o Sistema de Saúde Militar. Esta escolha é muito estranha, pois não acontece certamente por provas dadas, nem tão pouco, que se saiba, pela existência de laços ‘familiares’ daqueles muito em voga!
Apesar de o ministro Cravinho ter escolhido bem o novo presidente do IASFA e de o ter convencido a aceitar a tarefa, não divulgou publicamente a Carta de Missão do Presidente, que deveria constituir a base de avaliação do ‘serviço’ prestado.
É assim que a lei impõe e que a prática recomenda.

Simultaneamente, deveria dar a conhecer os compromissos assumidos pela ‘entidade patronal’ quanto a recursos a alocar ao IASFA de forma permanente, transparente e sustentada. Só assim se podem fazer ‘programas’ e realizar ‘ações’.
Quanto à ADM, nem uma palavra sobre o seu destino! Será incorporada na ADSE? Se continuar a existir, será colocada no único sítio onde deve estar (?): a Secretaria-Geral do Ministério da Defesa, logo com ‘ligação direta’ à tutela política…
Haverá outra alternativa?

No IASFA é que não deve continuar, pois o atual modelo acumula na mesma instituição interesses divergentes e conflituais (o consumidor e o pagador), com as consequências catastróficas que são conhecidas.
Aproveitamos para perguntar: por que razão não se incorpora alguém da classe de sargentos na direção do IASFA?
Seria uma medida inovadora e justa, pois estes são muitos e têm ‘gente’ motivada, disponível e competente, que pode ser chamada a ocupar cargos da maior responsabilidade e visibilidade.
Recordamos que os sargentos são tão beneficiários como os oficiais – mas, pelos vistos, não servem para assumir maiores responsabilidades numa instituição que não tem de obedecer a critérios de antiguidade e hierarquia militar.

O estranho ‘chamamento’ de Ana Jorge para ‘estudar’ o Sistema de Saúde Militar foi uma grande ‘calinada’ do ministro Cravinho.
A ex-ministra demonstrou toda a sua incompetência e incapacidade quando foi responsável pela ‘saúde civil’, mesmo sendo civil; como pode agora, com rigor e valor acrescentado, pronunciar-se sobre um ambiente e uma realidade que, de todo, desconhece? 
A única justificação que encontro é a ‘doutrina socialista, pois estes quando são poder… não se esquecem de ‘dar dinheiro a ganhar‘ aos amigos e correligionários.
Senhor ministro, 
Para além da ‘grande calinada’, fez uma afronta aos militares em geral e, muito particularmente, ao almirante chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, a quem as leis da República conferem responsabilidades específicas nesta matéria.
Na saúde militar está tudo estudado – o que é preciso é fazer. E para isso é necessário investir. Tudo o resto são politiquices, oportunismo e… infelizmente, mais do mesmo.
Senhor Ministro,
Já não lhe resta muito tempo até às eleições.
Sugiro-lhe que, para ser lembrado como ministro da Defesa Nacional, faça algo de relevante na sua área de governação (espero que pela positiva). Caso contrário, será apenas ‘mais um’ no extenso – e cada vez menos prestigiante – rol daqueles que ocuparam uma cadeira no último andar de um prédio sito no Restelo, com ótima vista para o Tejo.
Não será difícil antever que os seus desejos (e ambições) não passam pela permanência nas atuais funções política, antes passarão pelas Necessidades – ou por uma progressão na ‘carreira’ de alto funcionário da União Europeia em Bruxelas… ou no mundo.

Em Nome da Verdade, e para bem de todos, desejo-lhe sinceramente os maiores sucessos, ainda que tenha de referir mais algumas recentes ‘calinadas’, como sejam:
– A anunciada criação de creches e jardins-de-infância nas unidades militares (todos sabemos o que falta para a retenção dos jovens nas fileiras);
– A solução apresentada pelo ‘colega’ das Finanças para a recuperação do tempo de serviço ‘congelado’, afirmando que tinha ouvido as associações socioprofissionais militares, mas ‘esquecendo-se’ de ouvir os chefes militares!
– Os sucessivos ‘atropelos’ à hierarquia, que provocam desgaste, desautorização e mal-estar, que os atuais chefes militares não merecem de todo;
– Quanto ao patriótico discurso no Dia do Combatente, esperarei ansiosamente por obras;
– A ‘estranhíssima’ ausência do Governo (apenas representado pela ‘ajudante de ministro’) nas cerimónias do 70º Aniversário da NATO! Terá sido o subconsciente a funcionar? Ao menos, poderia ter avançado o ‘subsecretário’ de Estado (equivalente). Sempre tem alguma ‘ligação’ à NATO… e ‘taparia o Sol com a peneira’.
– A aparente ausência de orientações para que as promoções não voltem, uma vez mais, a ocorrer só no último mês do ano.

Consta nos meios militares, e não só, que o ministro Cravinho não ouve quem deve (e a que está obrigado por lei). Atua como um perfeito autista, desgarrado e inadequado, quando muito ouvindo o seu próprio eco e exclamando: ‘Meus Deus, como sou perfeito e sábio’.
Senhores Comandante Supremo e primeiro-ministro: é melhor verificarem, para depois não dizerem que não sabiam…
Assim, permanecerei não ‘cravinista’… atento, não venerando e interveniente.
Voltaremos ao assunto na primeira semana de setembro.
*Major-General Reformado