Campo Neutro

A intolerável arrogância dos homens que queriam ser deuses

O VAR é, nada mais nada menos, do que o homem a querer assumir o papel de Deus. O homem a querer ascender a um patamar de superioridade que não tem, nunca teve e nunca terá. O VAR é o homem em toda a sua arrogância e prepotência, toda a sua presunção de que não há limites para aquilo que consegue alcançar – nem sequer para a objetividade de um jogo que é, na sua génese, totalmente subjetivo! É o homem a querer assumir um poder discricionário absoluto para usar a seu bel-prazer e em função de cada momento.

Verdade desportiva. Expressão em voga, espécie de slogan de campanha eleitoral, palavras universalmente aceites na busca de um futebol melhor, um jogo mais puro, uma modalidade mais ‘verdadeira’, passe a grosseira redundância. Uma página de jornal não chega para desmontar o mito do VAR, essa grotesca e absoluta falácia da vídeo-arbitragem. Não chega uma página, não chega um jornal inteiro e não chegaria uma biblioteca de cinco andares – porque os mitos não se desmontam apenas com palavras derramadas para o papel, por mais acutilantes e bem intencionadas que essas possam ser. Não, os mitos levam anos a destruir, por vezes décadas. Gerações inteiras que vão acordando para a realidade e ousam enfrentar esses mitos que entretanto se transformam em dogmas e esses dogmas que entretanto se transformam em verdades absolutas. Lá está, voltamos ao mesmo: a verdade. Desportiva. Absoluta. Aquela que nos querem fazer engolir à força e à custa do assassinato público do maior espetáculo do Mundo. Como se a verdade fosse uma coisa objetiva! Pobres e incautos homens da bola que em pleno século XXI ainda acreditam em semelhante dislate...

O futebol é muito mais do que um jogo. É uma questão de fé. Uma religião no verdadeiro sentido da palavra. Deuses e semideuses nascem, vivem e morrem no imaginário do povo. Os adeptos unem-se em multidões que idolatram cores e veneram símbolos de forma incondicional, dedicando as suas existências a uma doutrina de devoção sem limites. Refutam qualquer teoria que desvalorize ou conteste o seu clube, professam argumentos absolutamente indefensáveis e cedem à paixão em detrimento da razão em todos os momentos. Sem exceção. Ao ponto de partirem para a violência como se fosse algo perfeitamente normal. Tudo somado, tudo espremido, uma verdadeira religião com tudo aquilo que esta possa ter de bom e de mau. Nem mais nem menos do que isso. Querer reduzir o futebol a um mero jogo não é apenas revelar um total desconhecimento dos factos: é uma absoluta ignorância perante um fenómeno profundamente fraturante que logrou mudar o Mundo ao longo do último século e meio.

Sendo o futebol uma religião – premissa sobejamente demonstrada no parágrafo anterior – não podemos analisar o fenómeno ignorando a mais perigosa de todas as ideias para a fé: a ideia de que a verdade é subjetiva. Quem a defende não sou eu, é o mais influente filósofo da era moderna. Eu limito-me nestas linhas a recordar o relativismo introduzido por Immanuel Kant no século XVIII e que dominou o pensamento intelectual no século XX, mantendo-se absolutamente atual nos dias que correm. Simples: toda a verdade é subjetiva. E se esta ideia – repito, perigosíssima para a fé – é aceite na vida de um modo geral, muito mais terá de ser aceite no futebol, onde até as regras são subjetivas, quanto mais a verdade! Na vida, por exemplo, uma mão é uma mão. Este substantivo feminino pode ter 30 significados distintos mas uma mão não deixa de ser uma mão, a ‘extremidade do braço humano a partir do pulso, que serve para o tato e apreensão dos objetos’. Já no futebol, uma mão é uma mão mas... temos a mão na bola e a bola na mão; a mão intencional e a mão inadvertida; a mão que aumenta o volume do corpo e a mão que se mantém junto ao tronco; a mão à queima-roupa e a mão evitável perante a distância do remate; a mão atrás das costas, a mão que protege o rosto, a mão que é alvo de um ressalto, a mão que se apoia no chão e a mão do movimento em queda. Todas elas com uma tremenda carga de subjetividade que VAR nenhum no mundo conseguirá eliminar. O mesmo se aplica a inúmeros outros conceitos subjetivos no futebol, como o contacto, a intenção ou a intensidade. Nada nem ninguém conseguirá transformar o futebol em objetividade, isso não existe. Porque o futebol é fé. Porque a verdade é subjetiva. E porque é nesse eterno limbo entre a emoção e a razão que reside a beleza do desporto-rei.

O VAR é, nada mais nada menos, do que o homem a querer assumir o papel de Deus. O homem a querer ascender a um patamar de superioridade que não tem, nunca teve e nunca terá. O VAR é o homem em toda a sua arrogância e prepotência, toda a sua presunção de que não há limites para aquilo que consegue alcançar – nem sequer para a objetividade de um jogo que é, na sua génese, totalmente subjetivo! É o homem a querer assumir um poder discricionário absoluto para usar a seu bel-prazer e em função de cada momento. É o homem a tentar legitimar todos os seus erros e a tentar fingir que não é falível, quando o homem nada mais é do que isso mesmo: falível. Através de uma tecnologia falaciosa, manipuladora, mentirosa e repleta de limitações, o VAR é apenas o homem a querer contrariar o relativismo, transformando verdades subjetivas em (in)verdades objetivas em função dos seus próprios interesses. O VAR é o homem a mostrar os seus tiques ditatoriais e absolutistas. É o homem a querer limitar as ações dos restantes impondo a sua vontade, a sua verdade absoluta. O VAR é a antítese de tudo o que o futebol simboliza: liberdade, magia, traquinice, capacidade de fintar não só os adversários mas também as regras.

Há mais verdade no golo de Maradona com a mão frente à Inglaterra no Mundial de 1986 do que em todas as decisões certas e erradas do VAR nestes quase dois anos de período de testes. Aquele golo na Cidade do México, aquele gesto matreiro de ‘El Pibe’, é a coisa mais verdadeira que alguma vez vimos num relvado: porque é puro, é intuitivo, é cruel, é visceralmente humano, é intencional por parte de um mágico que a todos iludiu sem que ninguém sequer se atrevesse a acusar Ali Bin Nasser de validar o golo em função de interesses ocultos. Porquê? Porque aquele momento no Estádio Azteca, aquela enorme mentira, foi um momento de pura verdade. Subjetiva, sempre. Mas verdade. Porque o futebol não mente. Pode ser injusto, impiedoso, mau, doloroso, em tudo semelhante às agruras da vida real. Mas não mente. Dentro daquelas quatro linhas não há mentira: há jogadores, bola, árbitro e jogo. Não há mentira, essa só existe cá fora. No mundo dos homens que queriam ser deuses esquecendo-se de que os deuses só existem dentro do campo...