Opinião

Política de Armário - Uma carta de desfiliação do CDS

Esta não é uma história sobre passadeiras arco-íris. É uma história sobre cobardia, traição aos eleitores e política de armário.

A 27 de Fevereiro deste ano a Câmara Municipal de Lisboa votou a favor da criação de um Centro LGBTI na freguesia de Arroios assim como de uma Casa da Diversidade, com o apoio dos vereadores do CDS.

Apenas 2 meses depois, a 29 de Abril, a Assembleia de Freguesia de Arroios aprovou a pintura de duas passadeiras arco-íris para marcar o dia 17 de Maio, quando se comemora o aniversário da data em que a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar as pessoas homossexuais como doentes mentais (17 de Maio de 1990), por proposta dos autarcas do CDS. Uma ação simbólica e de baixo custo, que não criou controvérsia na Assembleia de Freguesia, tendo sido aprovada por unanimidade.

Contudo, assim que a iniciativa começou a ter visibilidade na comunicação social, rapidamente se começaram a levantar vozes fanáticas, para quem apoiar umas comunidades é atacar outras, para quem defender umas famílias é anular outras, condenando a proposta e os autarcas proponentes. Rapidamente surgiram também condenações para salvar face perante a turba. O vereador João Gonçalves Pereira, que apenas semanas havia apoiado a criação de um Centro LGBTI na mesma freguesia enquanto vereador, rapidamente fez o pino e condenou publicamente a iniciativa simbólica de solidariedade com a comunidade LGBTI dos autarcas do CDS Arroios.

Assunção Cristas permanecia em silêncio, tentando deixar morrer a polémica. Contudo, ao fim de 3 dias, cedeu à turba e decidiu quebrá-lo. No e-mail enviado a todos os militantes do partido, que assinou em conjunto com o presidente da concelhia de Lisboa, não só se demarcam da iniciativa como a condenam e garantem sombriamente que tal "não voltará a ocorrer". Um e-mail rico em ambiguidade, mas falido de qualquer argumento que o justificasse.

Não haveria forma de justificar essa condenação e comunicação pois a própria equipa de vereadores da CML, da qual faz parte Assunção Cristas, havia aprovado propostas muito mais dispendiosas e de maior impacto do que umas simples passadeiras, também para a comunidade LGBTI. Porquê então sacrificar autarcas de freguesia em praça pública por seguirem a mesma linha?

Infelizmente a resposta é demasiado simples: a razão é a visibilidade. As passadeiras têm visibilidade na rua e também na imprensa. Assunção Cristas e o vereador João Gonçalves Pereira demonstraram que praticam política de armário: aprovam certas medidas mas desde que não se vejam da rua, desde que se fiquem pelas portas de uma qualquer Assembleia e não as tenham de justificar aos militantes e eleitores. Um bolorento “Cada um faz o que quiser, mas em sua casa!” em versão política.

A questão é que uma Câmara Municipal não é um quarto, ou não deveria ser. O que os políticos fazem, a forma como votam, é eminentemente pública e tem de ser coerente com o que dizem ao público. Assunção Cristas não foi capaz de fazer isto. Cedeu a uma turba de fanáticos homofóbicos e sacrificou autarcas do seu próprio partido por não conseguir assumir a sua linha de pensamento e de voto, por não conseguir dizer sequer que as pessoas homossexuais não são doentes mentais e que não há nada de errado em lembrar e celebrar isso. Mostrou não ter espinha para defender as suas convicções e os seus, mostrou não ter espinha para defender sequer um pequeno gesto de humanidade para com os outros.

O CDS e os portugueses precisam e merecem políticos a sério, líderes capazes de defender o que votam e de votar de acordo com o que defendem. Sejam liberais, democratas-cristãs ou conservadoras, existem no CDS muitas pessoas corajosas e empenhadas na luta por um país melhor, que dizem ao que vêm, que assumem e defendem o que pensam e o que fazem.

Assunção Cristas demonstrou não ser uma delas.

Enquanto membro da lista de coligação liderada pelo CDS à Assembleia de Freguesia de Arroios, estendo a minha total solidariedade aos meus colegas eleitos, condenados publicamente por lideranças cobardes e incoerentes por terem proposto um simples gesto de solidariedade para com quem é diferente e tomo a única atitude possível perante tal: comunicando a minha desfiliação do CDS.

O CDS e os portugueses merecem melhor. Esta política de armário corrói a democracia e contribui para a sua descredibilização, alimenta populismos e constitui uma traição aos eleitores. Quem não tem capacidade para defender os seus princípios e os seus autarcas, não merece liderar o CDS, e muito menos merece liderar o país.

Romeu Monteiro, Ex-militante do CDS