O Mundo em Calções

Entre os mortos havia um que respirava

Na I Guerra, Rickenbacker foi como irmão de Quentin Roosevelt. Mas nunca viu Theodore como tio...

Edie era um tipo valente, isso ninguém pode por em causa. O apelido Rickenbacher não escondia as suas origens alemãs, mas nasceu em Columbus, no Ohio, e sempre teimou que o seu alemão era suíço e que um suíço-alemão não tem nada que ver com um alemão-alemão e ponto final. Vai daí, começou a assinar Rickenbacker e, mal pôde, atirou-se aos alemães como gato a bofe que, vendo bem, já não é coisa que se dê a gatos.

O pai de Edie era dado a máquinas. Tinha um moto de vida um bocado estúpido, mas era o que se podia arranjar no início de 1900, em Columbus, Ohio: «Se fizeram as máquinas é porque querem que as usemos». O filho fartou-se de usá-las mas a primeira vez que se viu metido numa camisa de onze varas foi por causa de uma carroça puxada a cavalos com a qual disparou por uma ruela, esbarrando com tudo o que lhe ia passando à frente do nariz (bem grande, por sinal) até se estatelar ao comprido numa eira com a cabeça amolgada e umas costelas deitadas abaixo. Disse sempre a toda a gente que o pai morrera quando ele tinha treze anos num acidente de automóvel, mas essa versão seria desmentida mais tarde por um dos seus biógrafos, W. David Lewis, que expôs uma versão bem mais macabra de mr. Rickenbacher sr. envolvido numa altercação de taberna a expirar à força de facadas no bucho.

Órfão, Edie deixou os disparates próprios da adolescência para se dedicar a disparates de adulto. Inscreveu-se num curso de engenharia por correspondência, empregou-se na Columbus Buggy Company e vendeu automóveis. Não demorou a ganhar a alcunha de Fast Edie, por conduzir carros bem mais depressa do que carroças puxadas por cavalos. No dia 9 de Setembro de 1916, ao volante de um Maxwell, participou na prova de Indianápolis 500, rebentou com a viatura, voltou a amolgar umas omoplatas mas, surpreendentemente, o seu nariz preponderante manteve-se intacto. Em seguida, limitou-se a ser ele próprio: em treze corridas, ganhou sete. Só que, a febre da velocidade não se esgotava com equídeos nem com cilindradas menores. Queria pilotar aviões e, apesar de ter ganho a alcunha de Huno por parte de alguns colegas, devido ao germânico nome de família, não tardou a tornar-se um ás. Em França, no Esquadrão 94º, ao comando de um Fokker D. VII, foi abatendo inimigos como se fossem tordos. 

Quando a I Grande Guerra acabou, Edie era uma estrela. 26 aviões alemães abatidos, Legião de Honra e Cruz de Guerra atribuídas pela França, Medalha de Guerra e Cruz dos Serviços Distintos entregues pelo governo americano, fama de grande vencedor de provas automobilísticas, dinheiro no bolso, promovido ao posto de major. Era um tipo valente, mas também modesto. «Na guerra fui capitão, depois deram-me estes galões de major; como nunca combati como major, quero ser tratado por capitão». Escreveu um livro chamado Fighting the Flying Circus, no qual chorou a morte do seu grande amigo, o tenente Quentin Roosevelt, filho do presidente Theodore, e foi convidado para fazer filmes em Hollywood a troco de muitos punhados de milhares de dólares. Encolheu os ombros e esteve-se positivamente nas tintas para o cinema.

Rickenbacker, dono do seu nariz, que como já disse era francamente proeminente, fundou uma companhia aérea, a Florida Airways, e voltou a apaixonar-se por automóveis o que, convenhamos, foi melhor do que recuperar o seu encanto pelos equinos do final da sua infância. Muita gente não sabe, nem eu sabia até ler sobre esta curiosíssima figura, que foi a sua fábrica, Rickenbacker Motor Company quem desenvolveu o sistema de travões às quatro rodas. O que não impediu que a empresa caísse na bancarrota. Não olhou duas vezes para trás: fundou a Indianapolis Motor Speedway, vendeu maquinaria para a Cadillac e para a General Motors e acabou por adotar a filosofia do pai. 

Edie foi como irmão de Quentin quando combateram juntos nos céus da França e da Alemanha. Mas nunca viu a política do presidente Roosevelt como sobrinho Criticou publicamente o New Deal, o projeto de reformas e obras públicas de Theodore com violência: «Não vejo grandes diferenças entre isto e o comunismo». Os Estados Unidos gostam de se considerar como uma espécie de luz da Democracia. Rickenbacker, o herói da guerra contra a Alemanha, passou a ser tratado como um alemão. A administração Roosevelt entrou pelo caminho da mais pura das censuras: proibiu que as suas opiniões fossem propagadas pelas principais cadeias de televisão e pressionou as direções dos jornais a não lhe concederem espaço. Devolvido à condição de Rickenbacher, o Huno, viajava como passageiro num Douglas DC-3 que se despenhou em Atlanta. Como nos livros de Texas Jack, entre os mortos havia um que respirava: Edward Rickenbacker. O seu estado era tão miserável, que ninguém o socorreu. Deram mais atenção aos vivos. Edie não resistiu. Só o seu cleopátrico nariz se manteve intacto. 

afonso.melo@newsplex.pt