Internacional

Boris Johnson. O aristocrata que sobreviveu a todos os escândalos

De Eton aos clubes de elite de Oxford, Boris criou uma poderosa rede de contactos que lhe permitiu manter uma carreira de jornalista, por entre citações falsas e ameaças de espancamento. Nem os sucessivos casos extraconjugais ou o seu número desconhecido de filhos o impediram de ser o rosto do Brexit e o candidato favorito a primeiro-ministro britânico.

Há poucas pessoas a quem a expressão ‘nascido em berço d’ouro’ se aplique melhor do que a Alexander Boris de Pfeffel Johnson, um filho da aristocracia britânica que pode traçar a sua linhagem até ao Rei George II. O candidato favorito à liderança dos conservadores – e como tal, a primeiro-ministro do Reino Unido – é uma figura polémica da política britânica, sendo conhecido pelas suas gafes e por escapar a escândalos que teriam derrubado a maioria dos políticos.

O público britânico parece resignado a que os podres façam parte do pacote de Johnson, um antigo presidente da câmara de Londres que promete levar a cabo o Brexit a 31 de outubro – com ou sem acordo de saída da União Europeia. Nem o facto de a polícia ter sido chamada a sua casa, devido a uma altercação com a sua namorada, Carrie Symonds, a poucos dias da eleição para a liderança dos Tories, parece conseguir parar Johnson, que conseguiu os votos de 160 deputados conservadores – contra os 77 do seu adversário direto, Jeremy Hunt.  O ex-mayor de Londres desfruta de grande popularidade entre os cerca de 124 mil militantes do seu partido, que a 22 de julho vão decidir quem governará os resto dos britânicos, substituindo a primeira-ministra demissionária, Theresa May.

Johnson nasceu em Nova Iorque, em junho de 1964, filho do político conservador Stanley Johnson, e parecia destinado para o sucesso à partida. Seguiu o percurso clássico da elite governante britânica, estudando em Eton – o mais prestigiado colégio do país – e seguindo para a universidade de Oxford, tirar Estudos Clássicos. Desde logo estabeleceu uma poderosa rede de contactos, dentro da geração oxfordiana que viria a dominar a política britânica. Entre os seus colegas estavam o atual ministro do Ambiente,  Michael Gove – eliminado a semana passada da corrida à liderança dos conservadores – e o futuro primeiro-ministro David Cameron, com quem rivalizou desde os tempos de faculdade, segundo a sua biógrafa, Sonia Purnell. Cameron era dois anos mais novo que Johnson – uma diferença relevante numa universidade tão hierárquica quanto Oxford – e o ex-mayor de Londres não terá deixado de sentir inveja com a subida do seu rival a primeiro-ministro. Algo que terá sido alheio à subita decisão de Johnson de abandonar a defesa da manutenção do Reino Unido na UE, tornando-se o mais destacado organizador da campanha pelo ‘sim’ no referendo do Brexit, em 2016 – que resultou na demissão de Cameron.

 

Bullingdon club

Apesar da sua rivalidade, os dois pesos pesados dos conservadores partilharam grandes momentos de juventude no famoso Bullingdon Club, uma sociedade dos ricos e poderosos de Oxford. Fundado em 1780 como um clube de caça e de críquete, o clube ganhou fama pelo consumo pesado de álcool e demonstrações ostensivas de riqueza, num estilo apelidado de ‘hooliganismo fino’. Equipados com jaqueta e laço, estes aristocratas tinham rituais de iniciação como queimar notas de 50 libras à frente de mendigos, ou destruir a mobília dos restaurantes onde jantavam – pagando dezenas de milhares de euros pelos estragos e pelo silêncio dos donos. É difícil perceber como é que os 93% de britânicos educados em escolas públicas se conseguem identificar politicamente com filhos do privilégio como Alexander Boris de Pfeffel Johnson.

Outro aspeto que tem sido relembrado é a cultura machista vigente nestes clubes, exclusivos de homens. «As mulheres não são permitidas nos jantares formais, mas nos encontros informais fazíamo-las ficar de gatas como um cavalo e relinchar. Trazíamos as trompas de caça e chicotes», contou ao The Mirror um antigo membro deste clube, que ainda defende: «Sim, elas eram degradadas de algum modo, mas era tudo feito de uma maneira respeitosa». Um relato que traz à memória as várias acusações de sexismo contra Johnson, que na sua despedida como diretor do The Spectator recomendou ao seu sucessor – caso este recebesse exigências da administradora do jornal, Kimberly Quinn – que lhe respondesse com «uma palmada no rabo e a mandasse embora».

 

Citações falsas, racism e ameaças de espancamento

O percurso de Johnson como jornalista não foi mais isento de escândalos do que a passagem por Oxford. O futuro candidato à liderança dos conservadores foi despedido do seu primeiro emprego, como jornalista do The Times, por inventar uma citação do seu padrinho, o historiador Collin Lucas, sobre uma descoberta arqueológica que nunca aconteceu. Nem este pecado mortal do jornalismo abalou a carreira de Johnson, que depois de despedido rapidamente foi contratado pelo seu colega de Oxford, Max Hastings, diretor do The Daily Telegraph. Foi neste jornal que o futuro impulsionador do Brexit se estabeleceu como um dos poucos repórteres eurocéticos em Bruxelas — dando ênfase a diretivas europeias menos populares, como a obrigação dos pescadores utilizarem tocas, ou exagerando a suposta proibição de bananas demasiado curvas pela UE.

Johnson – considerado o jornalista favorito de Margaret Thatcher depois de esta sair do poder — acabaria por fazer a transição para colunista, com artigos de opinião premiados – por entre acusações de racismo e homofobia. Além da divulgação de uma conversa telefónica, gravada em 1990, entre Johnson e o seu amigo Darius Guppy, que conheceu em Eton, e cujas alegadas atividades criminosas estavam a ser investigadas pelo jornalista Stuart Collier, do News of the World. Gubby pediu a Johnson a morada de casa de Stuart, com o objetivo expresso de espancar o jornalista que o investigava – algo com que o futuro candidato à liderança dos conservadores concordou. O ataque planeado não foi por diante, e após o escândalo Johnson disse que nunca chegou a entregar a informação ao seu amigo, conseguindo nem sequer ser despedido. Até acabariam por lhe oferecer uma coluna de opinião no jornal irmão do The Daily Telegraph, o The Spectator, do qual se viria a tornar diretor – sob a promessa de abandonar as suas aspirações políticas.

Quantos filhos tem Boris?

A continua impunidade de Johnson estendeu-se também à sua vida pessoal – bem representativa da promiscuidade típica da aristocracia britânica. Os dois casamentos do potencial primeiro-ministro britânico acabaram com traições da sua parte, que causaram escândalos badalados na imprensa. Johnson casou com a sua namorada de faculdade, Alegra Mostyn-Owen, em 1987, mas o casamento ruiu em 1993, após ele envolver-se com a advogada Marina Wheeler – com quem casaria 12 dias depois de o seu divórcio ser assinado, quando já estava grávida do conservador. O casal acabaria por ter quatro filhos ao longo do seu casamento, manchado por vários casos extraconjugais de Johnson. O mais polémico foi a relação com Petronella Wyatt, seduzida pelo agora potencial primeiro-ministro, quando este era seu diretor no The Spectator. Para variar, Johnson teve de lidar com as consequências das suas ações, quando o escândalo foi tornado público, em 2004 – o que o levou a ser demitido do seu posto de ministro-sombra das Artes. No entanto, tudo pareceu esquecido com a sua reabilitação política, em 2008, quando foi eleito presidente da câmara de Londres, com 53,2% dos votos.

Entretanto, Petronella revelou ter abortado duas vezes do conservador, e descreveu a visão de Johnson quanto à monogamia como «decididamente oriental». «Acho genuinamente pouco razoável que os homens devam estar confinados a uma mulher», terá dito à jornalista. Uma convicção a que Johnson se mostrou fiel, tendo sido noticiados outros casos seus, com a jornalista Anna Fazackerley e com a consultora de arte Helen Macintyre. O caso com Macintyre terá sido a gota de água para Wheeler, que o pôs fora de casa em 2010, tendo sido provado em tribunal que Johnson terá tido uma filha com Macintyre – e havendo alegações de que seria a segunda criança concebida por Boris, em segredo e fora do matrimónio. Ainda recentemente – durante o escrutínio que vem com a candidatura à liderança dos conservadores – Johnson tem sistematicamente recusado dizer sequer quantos filhos tem. «A vida pessoal de um indivíduo é preocupação dele», respondeu à BBC.

Contudo, a vida pessoal errática do potencial primeiro-ministro britânico teima em voltar à baila, tendo feito manchete uma discussão entre si e a sua atual namorada, Carrie Symonds, uma spin doctor dos conservadores. A altercação levou a que fosse chamada a polícia por vizinhos preocupados, que disseram ao The Guardian que Symonds terá gritado «larga-me» e «sai do meu apartamento», enquanto se ouviam «encontrões e estrondos», bem como o partir de pratos. Apesar de Hunt declarar não querer introduzir o assunto na disputa pela liderança dos conservadores, não deixou de notar à Sky News que «se Boris recusa responder a perguntas nos media, recusa a fazer debates ao vivo, é claro que as pessoas estão a pensar em quem vão ter como primeiro-ministro».

À segunda é de vez?

Não é a primeira vez que Boris Johnson concorre à liderança dos conservadores, tendo avançado em 2016, cavalgando o ímpeto de ser uma das caras do ‘sim’ no referendo à saída da UE. Contudo, acabaria por desistir da sua candidatura, após a traição do seu antigo colega de Oxford, Gove – com quem trabalhou lado a lado para conseguir o Brexit. De um momento para o outro, Gove – na altura ministro da Justiça – passou de diretor da campanha de Boris a seu adversário, com o apoio de aliados chave dentro do campo eurocético, como o então vice-ministro da Justiça, Dominic Raab. Foi pelo meio desta confusão entre velhos amigos que May foi eleita líder conservadora.

A vingança de Johnson tardou mas chegou. O ex-mayor de Londres conseguiu eliminar tanto Gove como Raab da corrida ao lugar de May, após a demissão desta, a 7 de junho. A campanha de Gove foi dinamitada pela revelação de que consumiu cocaína anos antes – havendo fontes próximas de Gove a culpar Boris pela fuga de informação. Enquanto os tablóides se atiravam ao velho amigo de Johnson, o facto deste ter admitido ter feito o mesmo anos antes era pouco mais do que uma nota de rodapé. Gove acabou por ser eliminado da corrida, com apenas menos dois votos que Hunt. Não há dúvidas de que um duelo entre Gove e Boris se tornaria num «psicodrama pessoal», como disse à BBC uma fonte próxima de Hunt.

 

Com o brexit ‘ou vai ou racha’

Para lá das polémicas sobre o carácter de Johnson, o grande tema da corrida à liderança dos conservadores é o quando e o como do Brexit. Enquanto Boris garante que sairá da UE até à data limite 31 de outubro – sob o mote «aconteça o que acontecer, ou vai ou racha» – Hunt tem deixado em aberto adiar a saída, caso haja «a perspetiva de um melhor acordo». O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que 31 de outubro é uma «falsa data limite» – temendo acima de tudo que a rejeição de uma saída não acordada no Parlamento britânico desencadeie eleições antecipadas. Um cenário que pode resultar tanto em grandes ganhos dos trabalhistas, liderados por Jeremy Corbyn, como do Partido do Brexit, de Nigel Farage – que Hunt compara com monstros marinhos. «Só eu posso conduzir o país entre a Cila e Caríbdis  que são Corbyn e Farage», disse, numa referência aos clássicos greco-romanos que Johnson não terá deixado de apreciar.

Já Raab – que passou para o campo de Boris depois de ser eliminado – não tem tanto receio. Ainda há uns tempos criticava Johnson por ser «tão facilmente caricaturado como fazendo parte da elite privilegiada». Agora, sugere que este ignore os deputados, notando que as suas decisões têm «zero efeito legal». Vários juristas notam que o Parlamento não pode impedir o primeiro-ministro de ir para a frente com o Brexit – a não ser que aprove uma moção de censura contra o Governo.

Além da oposição da maioria do Parlamento britânico, o futuro primeiro-ministro ainda terá de arranjar forma de lidar com Bruxelas, caso queira conseguir um melhor acordo de saída. Ambos os candidatos se mostram confiantes em conseguir o que May falhou uma e outra vez: renegociar com os líderes europeus, que não se cansam de sublinhar o quão indisponíveis estão para tal. A arma secreta que Hunt apresenta é o facto de «ser de confiança», garantindo que o fundamental para conseguir renegociar com a UE é «a personalidade do primeiro-ministro».

Enquanto isso, Johnson propõe-se a conseguir um melhor acordo usando como moeda de troca a indemnização de 43 mil milhões de euros prometida à UE, para pagar os estragos do Brexit. O Presidente francês, Emmanuel Macron, garante no entanto que não honrar esse compromisso seria «equivalente a um incumprimento do pagamento da dívida soberana» – ou seja, a uma declaração de falência do Estado.