Sociedade

Quercus critica abate de mais de mil sobreiros para construção das barragens no Tâmega

Ambientalistas falam de obra “desnecessária” e situação “lamentável”.

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Mais de mil sobreiros serão abatidos pela Iberdrola depois de o Governo ter declarado como de “imprescindível utilidade pública” as barragens do Alto Tâmega e Daivões, duas das três que compõem o Sistema Eletroprodutor do Tâmega. Quercus considera situação “lamentável” e que as barreiras artificiais são “desnecessárias.”

No total, são 1145 sobreiros que serão abatidos para construir estas duas barragens no Tâmega. Desses, cerca de 40% são exemplares adultos, correspondendo a 444 sobreiros adultos. Os restantes 701, são jovens. A eléctrica espanhola solicitou o abate desta área que corresponde a cerca de 15,07 hectares de povoamento, localizados nas áreas inundáveis das barragens de Daivões e Alto Tâmega.

Em declarações ao SOL, João Branco, membro da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, considera que mesmo este “número peca por ser baixo, porque há muitos mais sobreiros do que aqueles que estão a ser declarados. Há imensos sobreiros pequenos e jovens que não estão contabilizados nas contas deste abate.”

O ambientalista refere que “já toda gente sabia que isto ia acontecer desde o início”, visto que os sobreiros estão na área inundável. Contudo, considera “lamentável que um dos ecossistemas mais importantes de Portugal, que é o Vale do Tâmega, vá ser abatido.”

João Branco reforça a importância desta floresta, tanto ao nível económico com a produção de cortiça, como ao nível ambiental, por ali se “refugiar fauna e flora muito importante no nosso país.”

 “A destruição da floresta neste momento não é só na Amazónia, também acontece em Portugal. Obviamente não podemos comparar as duas situações, mas proporcionalmente estas florestas que vão ser destruídas pela construção das barragens são tão importantes como a floresta da Amazónia”, refere o membro da Quercus. João Branco considera a construção destas barragens “desnecessária”, visto que “elas não estão a funcionar e não falta luz em Portugal.”

Apesar do abate destes cerca de 15 hectares, a Iberdrola tem em curso um projecto de compensação aprovado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que contempla a replantação de sobreiros em 42,3 hectares nos perímetros florestais do Barroso e de Cabreira.

Contudo, João Branco afirma que estas “não querem dizer nada”. Isso também aconteceu com a barragem do Tua, foram plantados alguns sobreiros, que acabaram por arder e não foram substituídos, e na Barragem do Sabor também estavam previstas medidas de compensação, muitas das quais ainda hoje não foram implementadas.”

Esta não é já a primeira vez que a Iberdrola foi autorizada a realizar este tipo de abate. Em 2016 a companhia eléctrica foi autorizada a abater 608 sobreiros para construir a barragem de Gouvães.

Este complexo hidroeléctrico, composto por três centrais, representa o maior investimento energético em curso em Portugal. No total, serão investidos 1,5 mil milhões de euros pela Iberdrola. As obras estão previstas terminarem até 2023 e no total serão criados cerca de 13500 empregos directos e indirectos durante os trabalhos.