Opiniao

No bolso do casaco de mr. Whittaker

A desgraça de uns costuma ser a felicidade de outros, diz o povo na sua sabedoria geralmente muito sobrevalorizada. 

O passageiro do lugar 23 da primeira carruagem de segunda classe do comboio noturno que ligava Burnley a Londres acordou sobressaltado no momento em que toda a composição estremeceu e se ouviu o apito que anunciava a paragem na estação de Stafford. Esfregou os olhos, limpando as remelas e sentiu de imediato que alguma coisa não batia certo. 

A posteridade não registou o nome do atarantado cavalheiro. Suponhamos que era mr. Smith. Corremos sempre o risco de acertar num dos milhões de Smith que proliferam pelas Ilhas Britânicas e por todas as fatias do antigo império onde o sol nunca se punha. Mr. Smith, portanto, entrara no comboio em Crewe. Nesse momento reparara no seu companheiro de cabina. Tinha um chapéu de palha inclinado sobre os olhos, usava um fato de tweed de fraca qualidade com uma corrente de relógio de bolsinho a bolsinho do colete. Lia atentamente um jornal da véspera e limitara-se a um cumprimento absolutamente circunstancial. Mr. Smith percebeu de imediato que não estava para grandes conversas. Isso tê-lo-á aborrecido e atirado para um estado de sonolência que pretendia evitar. Interrogado pela Scotland Yard não conseguiu ser mais conciso do que isto. 

Quando mr. Smith despertou de supetão em Stafford, depois de ter afastado da cabeça aquela nuvem de lassidão fruto do seu sono profundo, percebeu finalmente o que se alterara no cenário. O seu companheiro do chapéu de palha simplesmente desaparecera. Apenas o jornal da véspera repousava sobre o assento do lugar nº 27. De Crewe a Stafford não havia paragens.

Spencer Whittaker nasceu nos arredores de Oswaldtwistle, não muito longe de Blackburn, no Lencashire, uma cidadezinha pacata fundada nos anos 600 por Osvaldo, rei da Northumbria. Com dez anos, em 1871, Spen, como lhe chamavam, jogava futebol no Oswaldtwistle Rovers e vivia apaixonado pelo nobre desporto bretão e pela bola, essa mágica senhora das paixões. Não tinha era grande jeito. Pelo que aos 32 anos continuava a jogar no Oswaldtwistle Rovers, embora também ocupando um cargo na direção do clube. Stan era o típico inglês da classe média pronto para viver uma existência completa de imperturbável anonimato. Mas o Destino resolveu pregar-lhe uma rasteira.

A desgraça de uns costuma ser a felicidade de outros, diz o povo na sua sabedoria geralmente muito sobrevalorizada. Em 1910, o Burnley vivia os horrores de ter caído no último lugar da II Liga Inglesa e o seu secretário-geral, Ernest Mangnall, foi afastado. Spen foi convidado para ocupar o posto, não sem uma grande dose de espanto que se estendeu ao próprio Whittaker. A troca funcionou. Spencer renovou a equipa, foi à procura de bons jogadores da região e o Burnley esteve à beira da subida. Aliás, ninguém tinha dúvidas que o regresso ao escalão principal era uma questão de tempo. De muito pouco tempo.

Harry Swift era um médio-centro do Accrington Stanley, um clube que ficava ali à mão de semear. Spen gostou do rapaz. Fez perceber aos membros da direção que era fundamental trazê-lo rapidamente para o Burnley de forma a poder utilizá-lo num jogo vital que se aproximava a olhos vistos frente ao Manchester City. Claro que havia o problema da burocracia: os registos de Swift tinham de ser entregues em mão na sede da Football Association, em Londres, na Leicester Square, antes das três horas da tarde do dia seguinte. Estávamos no dia 15 de Abril de 1910. Decidido como sempre, Whittaker enterrou na cabeça o seu chapéu de palha e saiu apressado para apanhar o comboio noturno entre Burnley e Londres. Comprou um bilhete para o lugar 27 da primeira carruagem de segunda classe, sentou-se o mais confortavelmente possível e pôs-se a ler o jornal guardando para o fim a expectativa das palavras cruzadas.

Mr. Smith pusera os funcionários da British Railways num histerismo muito razoável. Toda a gente procurava afanosamente Spencer Whittaker. O condutor do Northbound Express viria a encontrá-lo em muito mau estado, apesar de vivo. De borco sobre a linha, num lugar chamado Whitmore, entre Crewe e Stafford. Gravemente ferido, foi levado com urgência para o hospital de Crewe e morreu no início da tarde desse mesmo dia. Tinha 39 anos e, no bolso do casaco, os papéis de registo de Harry Swift que não pôde entrar em campo frente ao Manchester City às 15 horas, a hora precisa em queSpen foi oficialmente dado como morto pelo médico que se debruçava sobre a sua cabeceira. 
As causas da queda nunca foram apuradas com rigor. Aventou-se a hipótese de ter confundido uma das portas para o corredor com uma das portas de saída. No campo de Turf Moor, a trágica notícia foi dada pelos altifalantes quando o City vencia por 3-1. Dizem que os jogadores do Burnley se uniram em redor da tristeza. Empataram: 3-3. Era um sábado de Primavera. Iam chegando as andorinhas...

afonso.melo@newsplex.pt